Cenário: Produtores devem ter margens de lucro menores na safra 2021/2022

Foto: Divulgação/Farsul

As margens de lucro obtidos pelos produtores na safra 2020/2021 foram históricas, mas não devem ser mantidas no ciclo 2021/2022, aponta a consolidação dos dados coletados pelos painéis do programa Campo Futuro. O levantamento é feito pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), em parceria com a Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul) e o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) e realiza painéis sobre custos de produção de grãos no Rio Grande do Sul.

O trabalho consiste na análise das informações obtidas a partir da realidade produtiva apresentada pelos produtores. Os painéis ocorreram em Bagé, Camaquã, Carazinho, Cruz Alta, Tupanciretã e Uruguaiana para as culturas de soja, milho, trigo e arroz.

Segundo o economista da Farsul, Ruy Silveira Neto, que integra a equipe técnica que realiza o estudo, os resultados dos painéis mostram que os custos aumentaram bem mais que a inflação oficial do país. “Porém, a trajetória do aumento de preços e a recuperação da produtividade frente a seca do ano passado fez com que a receita bruta fosse alta e as margens fossem bem largas para safra 2020/2021.”

A situação não deve se repetir no ciclo 2021/2022, assinala o economista. “Atualmente, vemos que os custos seguem a trajetória de aumento, concentrada principalmente no ano de 2021, enquanto os preços já apresentam uma tendência de estabilidade. O que pode ocasionar, no futuro, que o custo comece a convergir para perto da receita e as margens fiquem cada vez mais estreitas até a próxima safra de 2022.”

Soja e milho

No caso da soja, principal cultura no estado, os custos relativos aos insumos tiveram uma redução na comparação entre as safras 2019/2020 e 2020/2021. Mesmo assim, as sementes registraram um aumento de 38%. Conforme Ruy Silveira, isso aconteceu porque os valores de sementes, especialmente as Intactas, estão relacionados com a taxa cambial.

Outros itens também tiveram forte alta como operação mecânica (20%); juros de capital de giro (14%); custo operacional total, que também considera a depreciação de equipamentos, por exemplo (13%); custo geral, valores relativos à administração da propriedade, contabilidade, energia elétrica, alimentação de funcionários (44%); e frete (53%).

De acordo com a Farsul, a lavoura sojícola ficou, no total, 13% mais cara na relação entre as duas safras mais recentes. Porém, os custos seguem acelerando. Se na última, para cobrir todos os custos, o saco da soja deveria ser comercializado por, no mínimo R$ 67,00, atualmente esse valor saltou para R$ 85,00.

A safra de milho recuperou a perda da produtividade na comparação com 2019/2020, mas ainda está distante do potencial. “Mesmo não tendo uma produtividade excepcional, é a cultura que melhor responde em relação à margem bruta”, comenta Ruy Silveira. A principal razão está na alta de 72% no preço do grão. Entretanto, os custos de produção mantêm o movimento de elevação. Desse modo, o valor mínimo do saco para cobrir os custos que era de R$ 34,87 na última safra, teria que passar para R$ 44,47 atualmente.

Trigo e arroz

O trigo também vem de forte aumento no preço, atingindo 90% na safra 2020/2021. Os custos também tiveram elevação. Nos insumos, sementes (35%) e fungicidas (38%) puxaram a alta, junto com custo geral (49%). Mesmo assim, Ruy Silveira destaca o bom momento vivido na última safra e a projeção para a atual:

“Foi um resultado histórico, o produtor pagou todos os custos e ainda teve margem bruta confortável. Foi o melhor resultado da última década. A realidade já mudou totalmente. Para empatar os custos, o produtor hoje precisava vender o saco a R$ 70,00, contra R$ 45,00 da safra passada.”

O arroz passa por situação semelhante ao trigo. “Enquanto ainda há espaço para lucratividade para soja e milho, para arroz e trigo não tanto”, avalia o economista. A safra 2019/2020 já havia registrado bons resultados, mas a 2020/2021 foi bem superior. “Tivemos recorde de produtividade atingindo média de 206 sc/ha no nosso levantamento. Os preços também tiveram mesma trajetória dos demais grãos, garantindo um aumento de receita de 52%.”

Os custos também foram reajustados. Os insumos aumentaram 17%, especialmente sementes (29%) e herbicidas (34%); operação mecânica, 23%; custos de colheita, 19%; frete, 10%; e custo geral, 29%. O custo operacional total (COT) do arroz foi o que teve maior alta, com 21%. Os valores de irrigação cresceram 32%, fazendo com que os seus custos se aproximem do valor total dos insumos em valores absolutos. “O grande problema do arroz é que ele mudou do vinho para a água. A tendência é que as margens boas não se repitam. Para cobrir os custos, o saco que, antes deveria ser vendido por R$ 44,31, agora não pode ficar abaixo de R$ 65,87”, analisa.

Da Farsul

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