Imagem distorcida, uma estratégia global contra o agro brasileiro

Gil Reis*

Como um bom leitor, tomei conhecimento da matéria publicada em O Estado de S.Paulo, no dia 27 deste mês de setembro, assinada por Mônica Ciarelli e Bruno Villas Boas, sob o título “Em carta, grandes empresas pedem protagonismo do Brasil na agenda verde”. Tomo a liberdade de reproduzir partes do texto:

“Em documento que será levado para a COP26, presidentes de empresas como Bradesco, Ipiranga, BRF, Renner, Klabin e Natura, entre muitas outras, alertam para o risco de ‘enorme prejuízo ao setor produtivo e à sociedade brasileira’. Em meio à desconfiança global em relação à gestão ambiental brasileira por parte do governo, os empresários voltam a se posicionar sobre o tema. Presidentes de 105 grandes empresas nacionais e estrangeiras e de dez entidades setoriais assinaram uma carta defendendo objetivos climáticos ambiciosos e o protagonismo do País nas negociações do clima. Antecipado com exclusividade pelo Estadão/Broadcast, o documento será apresentado ao governo brasileiro e levado para a conferência das Nações Unidas sobre mudanças climáticas, a COP26, marcada para novembro, em Glasgow, na Escócia. A presidente do CBEDS, Marina Gross, que foi negociadora em conferências sobre o clima no fim dos anos 90, explica que o conselho tem alertado internamente ao governo sobre como seu posicionamento tira recursos das empresas. “Na carta, estamos dizendo ao governo: ‘por favor, avance, pois nós vamos dar a retaguarda’. Para fora do Brasil, estamos mostrando que o País tem grandes empresas e instituições, com um peso grande do PIB, fazendo a coisa certa.”

No documento, empresários defendem medidas para uma economia de baixo carbono e assumem responsabilidades. Eles lideram empresas que adotam medidas para redução e compensação das emissões de gases causadores do efeito estufa (GEE), precificação interna de carbono, descarbonização das operações. Os executivos pedem um arcabouço político-regulatório que apoie essa trajetória, com “ações eficazes para o fim do desmatamento ilegal e a conservação do meio ambiente”.

O Brasil emitiu, em 2019, 2,1 bilhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente (GtCO2e), sendo que 44% dessas emissões foram decorrentes do desmatamento. Marina explica que 98% desse desmatamento no País é ilegal. “O desmatamento ilegal é o nosso elefante na sala, que acontece sobretudo no bioma da Amazônia, e isso tem de acabar. Isso não traz desenvolvimento”, afirma.

Não há qualquer novidade no envio de carta/manifesto ao governo em razão de vivermos em uma democracia e é direito de qualquer cidadão, empresa ou grupos de empresas solicitar ações. O que também não é novidade é o fato de empresas do resto do país ou mesmo de fora, como é o caso, baterem na Amazônia. Os signatários, praticamente, responsabilizam a região e seus cidadãos por todas as agruras que o Brasil está passando em relação à agenda do IPCC sobre as mudanças climáticas.

O que os signatários esquecem de esclarecer é que tais desmatamentos somente são ilegais em razão de possuirmos a legislação ambiental mais séria e dura do planeta. Os amazônidas, por exemplo, podem produzir apenas em 20% de suas áreas legalmente adquiridas. Sem atentar contra o nosso Código Florestal, sou obrigado a reconhecer que se trata da “relativização” absoluta e absurda da propriedade privada. Por favor não se enganem, sou defensor do cumprimento das leis e totalmente contrário ao desmatamento ilegal. Por isso mesmo, creio que precisamos esclarecer para o mundo a situação. Lamentavelmente toda a carga de responsabilização cai sobre os ombros do agro, enquanto produtor rural, sem distinguir os produtores sérios dos “fora da lei”, assim definidos pela nossa legislação.

Em determinado momento, os signatários quase chegam a dizer que a Amazônia e os amazônidas os incomodam e causam prejuízo, sendo incapazes de reconhecer o enorme esforço que está sendo feito para coibir o desmatamento ilegal. Talvez façam isso porque a grande mídia nacional não divulga essas ações e quando o faz há sempre um senão, mas vamos em frente ver o que está acontecendo no outro lado do Atlântico, na Europa, a grande defensora da redução da emissão de GEE, notadamente do CO2.

O site “The Global Warming Policy Forun” publicou matéria, no dia 25 deste mês de setembro, sob o título “A Europa está voltando ao carvão para sobreviver ao inverno rigoroso”, da qual transcrevo alguns trechos:

As baixas velocidades do vento agravaram a crise energética do continente, levando as concessionárias a recorrer ao carvão para colmatar o déficit. O aprofundamento da crise energética chega em um momento em que os governos ocidentais estão tentando pressionar os países emergentes e em desenvolvimento a chegarem a um acordo sobre as metas de Zero Líquido, na COP26, em Glasgow, no final deste ano. O embaraçoso retorno do carvão na Europa tornará qualquer demanda do Net Zero quase impossível para os políticos do Reino Unido e da Europa, principalmente porque eles também estão lidando com o medo crescente de uma reação eleitoral devido ao custo do Net Zero e ao aumento das contas de energia. O editorial do Spectator desta semana foi certeiro ao alertar Boris Johnson que, ao invés de liderar o mundo no Net Zero, ele “deveria estar preparado para que outros países vejam, em sua política energética, um exemplo do que não fazer”.

Provedores de serviços públicos europeus estão se preparando para mudar para fontes alternativas de energia para atender à demanda, incluindo carvão rico em carbono, conforme os problemas de fornecimento de gás continuem, disseram analistas. Se os fornecedores de energia forem forçados a competir pela quantidade limitada de fornecimento de gás, os preços continuarão a subir com os custos “inevitavelmente” repassados ​​aos consumidores. “Resumindo, a menos que haja um inverno ameno ou uma redução da demanda, as concessionárias da UE terão que buscar fontes alternativas de energia para atender à demanda”, disse Slava Kiryushin, chefe global de energia da DWF, um provedor internacional de serviços jurídicos e comerciais. “Enquanto a maioria pode ler ‘fontes alternativas de energia’ como “renováveis ​​”, o mercado de energia pode ter uma definição alternativa: carvão,” Embora o aumento da produção de carvão não seja bem recebido por muitos, já que a Europa busca reduzir suas emissões de carbono para cumprir as metas de mudança climática, é uma fonte de combustível muito mais econômica, disse Kiryushin. “Resta saber como as concessionárias europeias equilibrarão o aumento nas emissões de carbono e o sentimento do consumidor em relação à indisponibilidade ou impossibilidade de compra de energia de fontes menos intensivas em carbono.”

Enquanto tudo acontece nas “terras ultramarinas”, o agro brasileiro e a Amazônia continuam a ser perseguidos por ONGs europeias e multinacionais. Por isso, creio que a mira das armas precisa ser redirecionada.

Pois é caro leitor, apesar de todo o nosso esforço e sacrifícios para cumprir a agenda climática e mitigar a emissão de GEE, a mídia internacional continua a não reconhecer e a distorcer as informações para prejudicar a imagem do Brasil. Tudo em função de interesses comerciais escusos.

*Consultor em Agronegócio

AGROemDIA

O AGROemDIA é um site especializado no agrojornalismo, produzido por jornalistas com anos de experiência na cobertura do agro. Seu foco é a agropecuária, a agroindústria, a agricultura urbana, a agroecologia, a agricultura orgânica, a assistência técnica e a extensão rural, o cooperativismo, o meio ambiente, a pesquisa e a inovação tecnológica, o comércio exterior e as políticas públicas voltadas ao setor. O AGROemDIA é produzido em Brasília. E-mail: contato@agroemdia.com.br - (61) 99244.6832

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