Sempre aos domingos: A recaída de Ardulino

Zé Tito*

Poucos tinham tanta disposição para o trabalho e o empreendedorismo como o seu Josué Guimarães, lá em Ibipetuba (BA). Era proprietário de uma concorrida sapataria, onde fabricava e consertava sapatos, cintos, alpercatas e sandálias. Empregava muitos “operários”. Tinha também uma padaria. Seu Duzinho (assim carinhosamente chamado) vivia para a Igreja, para a família e para o trabalho. Nunca perdia um culto nas manhãs de domingo, na Igreja Canaã, sempre acompanhado da esposa, da filha de criação e de um rapazinho que morava com ele, com o compromisso de abandonar para sempre o vício da bebida. Era o simpático Ardulino. Com seu Duzinho, ele logo aprendeu a orar e a cantar muitos louvores que acalmavam o seu coração e o afastavam do pecado.

Quando seus companheiros de copo se queixavam de sua ausência, Ardulino respondia ter nascido de novo: “Agora, eu dou glória a Jesus. Ele é meu Salvador; da cachaça, quero distância. Estou renovado.”

Chovesse ou fizesse sol, Ardulino não perdia um culto; pagava religiosamente o dízimo. As sagradas escrituras eram sua leitura diária, leitura predileta. Decorou muitas músicas religiosas que cantava com emoção. Gostava de Pegadas na Areia, Foi na Cruz, Dou Glória a Jesus, Fala Comigo Senhor, O Homem e Jesus Salvador.

Todo cristão sabe que no caminho para o céu tem algumas pedras e muitos espinhos. Foi o que aconteceu com Ardulino. Toda vez que passava na calçada do bar Sem Nome, ele era convidado a sentar à mesa. Durante três anos, ele foi tentado; durante três anos, resistiu. Um domingo, porém, por volta do meio-dia, sol a pino, embrasador, lá vem Ardulino, da Igreja Canaã, Bíblia embaixo do braço, suado como cuscuz, quando escuta umas vozes saídas do interior do bar. Era uns “amigos” de outrora a lhe chamar: “Ardulino, senta aqui, vamos conversar. Não sei como você está aguentando todo este calor. Toma um golinho de cerveja para abrir o apetite. Seu Duzinho passou aqui em frente tem uns dez minutos”.

— Rapazes, vocês sabem que evangélico não bebe bebida alcoólica. Vocês sabem quem eu era, mas não sabe quem eu sou. Aleluia! Vocês que bebem não são merecedores do amor de Cristo.

— Peraí, Ardulino, não seja fanático assim, não. Jesus, de vez em quando, tomava um vinhozinho. Verdade ou mentira?

Nesta hora, Ardulino puxa a cadeira, senta com a Bíblia no colo, afrouxa o nó da gravata, desabotoa o colarinho da camisa, suspira fundo, relaxa. Conversa vai, conversa vem, acaba aceitando um copo de cerveja estupidamente gelada para lhe abrir o apetite. Bebeu mais um, mais outro e mais outros e outros mais. Saiu do bar cambaleando.

Quando seu Duzinho viu Ardulino passando trôpego pela sala, não acreditou no que viu. Fitou-o, olho no olho, e disparou: “Ardulino, você voltou para as trevas do pecado? Você se vendeu ao diabo; sua alma agora é de Satanás.”

Cabeça baixa, Ardulino equilibra o corpo que pendia para frente, para trás e para os lados. Levanta a cabeça com dificuldade e, com os olhos envidraçados, proclama: “Mestre Duzinho, foi apenas uma recaída; Jesus vai me perdoar e eu serei salvo.”

*Jornalista

AGROemDIA

O AGROemDIA é um site especializado no agrojornalismo, produzido por jornalistas com anos de experiência na cobertura do agro. Seu foco é a agropecuária, a agroindústria, a agricultura urbana, a agroecologia, a agricultura orgânica, a assistência técnica e a extensão rural, o cooperativismo, o meio ambiente, a pesquisa e a inovação tecnológica, o comércio exterior e as políticas públicas voltadas ao setor. O AGROemDIA é produzido em Brasília. E-mail: contato@agroemdia.com.br - (61) 99244.6832

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: