Cepea vê cenário de alta no preço do leite ao produtor; custo segue subindo

Foto: Divulgação

A queda no volume de captação do leite pode interromper as quedas consecutivas do preço do leite ao produtor, indicando uma tendência de alta para os próximos meses, segundo a edição de fevereiro do Boletim do Leite, divulgado nesta sexta-feira (18) pelo Cepea/Esalq/USP. No entanto, os custos de produção seguem subindo e reduzindo as margens de lucro da propriedade leiteira.  

“No primeiro mês de 2022, os custos de produção da pecuária leiteira avançaram, enquanto a receita recuou, cenário que pressionou as margens de produtores. O COE (Custo Operacional Efetivo) avançou 1,68% em janeiro na “Média Brasil” (BA, GO, MG, PR, RS, SC e SP)”, informa o boletim.

Leia, abaixo, as análises de Natália Grigol e Caio Monteiro, da Equipe Leite do Cepea, sobre o mercado do setor:

Preço do leite captado em janeiro pode subir frente à oferta limitada

Natália Grigol//Equipe Leite do Cepea

Desde setembro de 2021, observa-se que o enfraquecimento do consumo por lácteos tem ditado os movimentos de preços para toda cadeia produtiva. As consecutivas quedas nos valores dos derivados nas negociações entre indústrias e canais de distribuição vêm sendo transmitidas também para o produtor no campo. O último dado fechado pelo Cepea mostra que o preço do leite captado em dezembro/21 e pago aos produtores em janeiro/22 chegou a R$ 2,1093/litro na “Média Brasil” líquida, recuos de 1,1% em relação ao mês anterior e de 6,1% frente ao mesmo período de 2021, em termos reais (deflação pelo IPCA de janeiro/22). Contudo, pesquisas ainda em andamento do Cepea apontam para a inversão desta tendência dos preços a partir da captação realizada em janeiro.

As consecutivas baixas nos preços ao produtor nos últimos meses têm comprometido os investimentos dentro da porteira e reduzido a oferta de leite. O Índice de Captação de Leite do Cepea (ICAP-L) registrou queda de 1,9% de novembro para dezembro. Dados recentes da Pesquisa Trimestral do Leite do IBGE apontam que a captação das indústrias caiu 3,6% do terceiro para o quarto trimestre de 2021, recuo de 5,7% em relação ao mesmo período de 2020.

Os efeitos do fenômeno La Niña, com fortes chuvas no Sudeste e estiagem no Sul, têm impactado diretamente a produção de leite, visto que a baixa qualidade das pastagens e da silagem prejudica a alimentação do rebanho. Além disso, é preciso considerar que a oferta de grãos também tem sido afetada negativamente pelo clima – o que também eleva o preço deste insumo. Em janeiro, o poder de compra do pecuarista frente ao milho diminuiu 9,7%. Para piorar, os preços de outros insumos, como suplementos minerais, antibióticos, adubos e corretivos, continuaram se elevando, corroendo a margem do produtor de leite. Nesse contexto, os investimentos na pecuária leiteira têm sido comprometidos, com perda no potencial produtivo do país.

Ao mesmo tempo, as importações em baixa e as exportações de leite em pó em volumes 15 vezes acima do registrado em dezembro/21 ajudaram a controlar os estoques de lácteos das indústrias. Não é de surpreender que, apesar da queda nos preços do UHT e da muçarela, o leite em pó (400g) tenha se valorizado em janeiro. Nesse sentido, o preço do leite captado em janeiro e pago aos produtores em fevereiro pode refletir esse novo cenário de valorização da matéria-prima.

O acompanhamento do Cepea do mercado spot (leite negociado entre indústrias) mostra que a disputa das indústrias por matéria-prima se acirrou fortemente nas últimas três quinzenas. Em Minas Gerais, o preço médio saltou de R$ 2,03/litro na segunda quinzena de janeiro para R$ 2,43/litro na segunda metade de fevereiro, valorização de 19,6%. Os resultados sugerem, assim, um adiantamento do período da entressafra e a tendência de alta nos preços ao produtor para os próximos meses.

Diante desse cenário, a receita caiu, o que pressionou as margens dos produtores de leite no início deste ano”

Aumento no custo e queda na receita pressionam margens em janeiro

Caio Monteiro//Da Equipe Leite do Cepea

No primeiro mês de 2022, os custos de produção da pecuária leiteira avançaram, enquanto a receita recuou, cenário que pressionou as margens de produtores. O COE (Custo Operacional Efetivo) avançou 1,68% em janeiro na “Média Brasil” (BA, GO, MG, PR, RS, SC e SP). Os grupos de custos que mais influenciaram essa alta no primeiro mês de 2022 foram os Suplementos Minerais, com elevação de 2,54%, seguido dos Medicamentos Antibióticos (+ 2,35%), Adubos e Corretivos (+0,89%) e Concentrados (+0,57%).

O item Mão de Obra também impulsionou o aumento nos custos, com alta de 8,21% na “Média Brasil” entre dezembro e janeiro, devido à correção do salário-mínimo nacional de R$ 1.100 para R$ 1.212.

Diante desse cenário, a receita caiu, o que pressionou as margens dos produtores de leite no início deste ano.

Quanto ao grupo de Suplementos Minerais, os preços dos fretes e de produtos como vitaminas e fosfatos continuam sendo os responsáveis pelos reajustes positivos, segundo colaboradores do Cepea. Entre os estados pesquisados, Minas Gerais foi o que apresentou o avanço mais expressivo no período, de 5,41%, seguido de Santa Catarina (+1,97%) e São Paulo (+1,73%). O grupo de Adubos e Corretivos registrou alta de 0,89% em janeiro na “Média Brasil”, sendo o 12º mês consecutivo de aumento para esse item. Neste caso, o impulso está atrelado à restrição de oferta das matérias-primas essenciais (como potássio, fosfato e ureia), ao dólar elevado e ao encarecimento dos fretes.

Na “Média Brasil”, os concentrados registraram valorização de 0,57% em janeiro, reflexo do aumento nos preços dos grãos. A seca no Sul e o excesso de chuvas no Centro-Norte do Brasil trouxeram incertezas quanto à produtividade da safra 2021/22, elevando os preços, além dos baixos estoques internos. Em janeiro, a média do Indicador ESALQ/BM&F Bovespa – Paranaguá da soja subiu 5,53% e, para o milho (Indicador ESALQ/BM&FBovespa, Campinas/ SP) avançou 9,10%. Os estados com as altas mais significativas para os concentrados foram São Paulo (+5,43%), Santa Catarina (+2,00%) e Goiás (+1,49%).

Em janeiro, o poder de compra do produtor deleite frente ao milho diminuiu em razão da valorização do cereal. Em Campinas (SP), foram necessários 45,53 litros para a aquisição de uma saca de 60 kg do milho, contra 41,50 litros no mês anterior. O preço do leite (Média BR), por sua vez, recuou 0,55%, indo de R$ 2,1210 em dez/21 para R$ 2,1093 em janeiro/22.

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