Guerra Rússia-Ucrânia já prejudica agricultura catarinense, diz Faesc

José Zeferino Pedrozo, presidente da Faesc – Foto: Faesc/Divulgação

Escassez geral de insumos para a produção agrícola e aumento do preço dos alimentos para o consumidor final em Santa Catarina e no Brasil.  Essas são consequências da guerra entre Rússia e Ucrânia, de acordo com avaliação da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Santa Catarina (Faesc).

“O conflito inquieta os mercados de cereais, fertilizantes e petróleo – commoditties que têm forte impacto no setor primário da economia”, diz a Faesc, em nota divulgada nesta sexta-feira (4). A Ucrânia é quarta exportadora de milho e produtora de trigo.  Com ela fora do mercado, pontua a Faesc, haverá menos milho no comércio global.

“Esse grão é essencial para a nutrição animal e com sua escassez ficará mais caro ainda para transformá-lo em proteína animal. Os criadores de aves e suínos e as indústrias de processamento da carne terão, portanto, forte aumento de custos”, acrescenta a federação.

O mercado do trigo também piora porque a Rússia é maior produtor e exportador mundial. O Brasil consome 12 milhões de toneladas, das quais importa 6 milhões, boa parte da Argentina, principal fornecedora. O país vizinho já registra grande procura e os preços estão em viés de alta, de acordo com a Faesc.

A movimentação das máquinas e equipamentos agrícolas requer diesel, subproduto do petróleo, que teve a cotação do barril majorada de US$ 80 para US$ 120 nos últimos três meses. Outro fator preocupante é o transporte marítimo, que registra aumento do frete e falta de navios, como resultado do fechamento de portos e restrição da navegação no Leste Europeu.

Soja, arroz, trigo e milho

Segundo a Faesc, o impacto desses movimentos continentais já chegou a SC, que necessita anualmente de cerca de 500 mil toneladas de fertilizantes para preparar o plantio de 1,4 milhão de hectares de lavouras. As culturas que mais necessitam de fertilizantes são soja, arroz, trigo e milho, além de frutas e hortigranjeiros.

“A agricultura catarinense já está sofrendo os reflexos da guerra porque o comércio está globalizado e os efeitos serão sentidos em todas as regiões do planeta”, analisa o vice-presidente da Faesc, Enori Barbieri. Os custos de produção aumentarão e o preço dos alimentos subirá, prejudicando os consumidores.

A escalada dos preços dos insumos – cada vez mais escassos no mundo – é acentuada, observa a Faesc. A ureia aumentou 300% no ano passado. O fosfato subiu 100%, passando US$ 400 para US$ 800 a tonelada, e o potássio encareceu 170%, saltando de US$ 290 para US$ 780 a tonelada.

“A ureia é feita de gás de petróleo. Rússia suspendeu a produção para abastecer a Europa com gás. Paralelamente, o cloreto de potássio de Belarus não está sendo exportado em razão da guerra, pois a Lituânia trancou o acesso dos produtos daquele país”, ressalta a Faesc.

Ainda de acordo com a federação, no Brasil, por enquanto, não faltam fertilizantes porque os produtores estavam com os estoques necessários, mas não há como saber como será no segundo semestre. “Pode faltar, principalmente o potássio. O Ministério da Agricultura negocia ureia com o Irã, e a ministra Tereza Cristina vai ao Canadá atrás de cloreto de potássio.”

Falta de navios e rotas perigosas

Os contratos de fornecimento da carne catarinense (aves e suínos) não foram suspensos pelos países da zona de litígio, mas há problemas em várias frentes, salienta a Faesc.

“Milhares de toneladas de carne estão retidas nos armazéns das indústrias, em portos brasileiros ou em águas internacionais, sem previsão sobre a entrega final dessas mercadorias. Além da falta de navios, as rotas internacionais se tornaram perigosas para a navegação. Além disso, o banimento da Rússia do sistema bancário internacional cria insegurança sobre o pagamento das vendas ao exterior.”

Barbieri não tem dúvidas que os produtores rurais usarão menos fertilizantes na próxima safra, condição que se refletirá em menor produtividade.

Plano Nacional de Fertilizantes

Diante desse cenário, o presidente da Faesc, José Zeferino Pedrozo, considera positivo o anúncio do Ministério da Agricultura sobre a criação do Plano Nacional de Fertilizantes. Ele enfatiza que produzir no Brasil é caro e pouco competitivo e que agroindústrias concluíram que é mais barato importar. “Precisamos buscar a autossuficiência nessa área porque os fornecedores mundiais são poucos”, alerta. O Brasil importa 25% dos fertilizantes russos, mas pode buscar outros fornecedores como China, Canadá, Israel, países africanos.

Os principais nutrientes aplicados no país são potássio (38%), cálcio (33%), nitrogênio (29%). A cultura da soja demanda mais de 40% dos fertilizantes aplicados. O Brasil importa 9 milhões de toneladas de insumos por ano e é o quarto consumidor mundial de fertilizantes, atrás de China, Índia e EUA.

O Brasil é dependente das importações, mas tem todas as matérias-primas para produzir, como gás natural, rochas fosfáticas e potássicas e micronutrientes. As reservas de potássio estão localizadas em Sergipe e no Amazonas. “O Plano Nacional de Fertilizantes precisa encontrar um caminho para as necessidades da agricultura brasileira”, afirma Pedrozo.

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