Desafios do Banco Central para controlar a inflação

Ivanir José Bortot, jornalista – Imagem: Reprodução/YouTube

Ivanir José Bortot*

O elevado reajuste do óleo diesel, da gasolina e do gás de cozinha é mais lenha na fogueira da inflação que o Comitê de Política Monetária do Branco Central (COPOM) terá que enfrentar na reunião desta semana. As sinalizações feitas ao mercado eram de que a autoridade monetária iria elevar dos atuais 10,75% para 11,75% a taxa Selic.

O impacto dos aumentos de preços sobre o conjunto da economia deve ser de maior intensidade nos índices de inflação de abril, mas se o BC quiser evitar novo ambiente inflacionário em 2022 teria que aplicar taxas de juros maiores, ao contrário do que chegou a sinalizar na última ata do Copom. Mas pode manter sua programação inicial de mais dois reajustes de juros, o que na prática significaria sancionar uma inflação acima do recomendável para evitar sacrifícios recessivos da economia em ano de eleições.

O presidente do BC, Roberto Campos Neto, que segue a cartilha de economistas como Milton Friedman, da escola de Chicago, acredita que a inflação é um fenômeno essencialmente monetário: a taxa de inflação é proporcional à variação do estoque de moeda na economia. O remédio é reduzir o estoque da moeda na economia com o aumento das taxas de juros. O efeito do remédio é contração da economia e um aumento no nível de desempregados. É que quando juros sobem ocorre, em tese, uma desvalorização de todos os demais ativos.

Teoria dos ciclos

Sobre a eficácia da aplicação deste controle monetário, o economista americano Charles Plosser acredita que a capacidade dos governantes de implementar políticas de surpresa para enfrentar a inflação desapareceu, uma vez que existe um modelo para a tomada de decisões dos Bancos Centrais que se tornou conhecido por todos os agentes econômicos.

Assim, a flutuação do produto não deve ser explicada pela falta de informação. A explicação pela teoria dos ciclos reais é a de que a variação do produto (estoque de moeda) e do emprego são decorrentes de choques tecnológicos e não monetários. Os choques estão no lado da oferta e não da demanda, como é o caso na mudança de preços de energia, petróleo e commodities – devido a enchentes ou a guerras, como a da Ucrânia. É de se esperar que qualquer que seja a taxa de juros praticada no Brasil seu efeito sobre a formação dos preços dos combustíveis será mínimo. O aumento dos preços no mercado internacional do petróleo, soja, trigo, milho tem mais a ver com restrição de oferta devido à guerra da Ucrânia, invadida pela Rússia.

Menos inflação, mais desemprego

Todas as linhas de pensamento, no entanto, concordam que um aumento maior de juros contribui para reduzir mais rapidamente a inflação. O efeito é uma queda maior da economia e aumento do desemprego. Juros menores aplicados ao longo de tempo contribuem para reduzir mais lentamente a inflação com custos sociais menores. É certo também que um aumento de juros hoje leva seis meses para produzir efeitos mais consistentes.

Como teremos eleições em outubro, tudo leva a crer que o Banco Central, mesmo sabendo da gravidade da escalada da inflação, deve aliviar a mão sobre as taxas de juros para não trazer tantos prejuízos à pretensão de reeleição do presidente Jair Bolsonaro. Embora o Banco Central tenha autonomia para executar a política monetária de combate à inflação, não tem a independência para fixação da meta. Isto porque a meta de inflação de 2022, de 3,5%, com tolerância de 2 p.p. para mais ou para menos, foi fixada pelo Conselho Monetário Nacional, onde o ministro Paulo Guedes, da Economia, tem poder de decisão.

A inflação de 2021 ficou acima da meta, assim como deve ocorrer em 2022. Roberto Campos Neto foi obrigado a explicar ao Senado que não pôde cumprir a meta devido aos efeitos inesperados da covid-19 sobre a economia. Na verdade, é preciso levar em conta que em 2020 e 2021 as taxas de juros reais foram negativas, especialmente quando caíram para 2%, o que deve ter contribuído para a força da inflação que carregamos até agora.

Selic: sem efeito sobre a gasolina

As estimativas do mercado eram que os juros seriam elevados para mais 1% na próxima, na seguinte 0,25% e depois disso começaria a cair devendo chegar ao final do ano em 8%, diante do recuo da inflação. O cenário atual de aumento dos combustíveis deve mudar as expectativas. É que juros mais altos têm impacto limitado sobre os preços destes produtos, uma vez que são escassos os seus substitutos no mercado e há limites para redução de consumo. A economia não consegue girar sem gasolina, óleo diesel e gás.

A realidade é que querendo ou não teremos mais juros altos à vista. O aperto monetário poderá ser aliviado, em parte, dependendo do comportamento do câmbio, um dos preços fundamentais que formam outros da nossa economia. Se a cotação do dólar cair abaixo de R$ 5,00 poderá ser de grande ajuda para o BC. Isso pode ocorrer pelo atual patamar de juros e o aumento do fluxo de ingresso de divisas estrangeiras.

O certo é que o Banco Central tem pela frente um problema de grande magnitude, reflexo dos impactos da Guerra na Ucrânia sobre a econômica mundial e as mazelas da nossa situação local. Os dirigentes do BC têm os instrumentos monetários para agir. O momento exige talento e arte para encontrar a melhor solução. Só não pode errar de mão, pois a conta mais cedo ou mais tarde terá que ser paga pelo contribuinte.

* Jornalista formado pela UFRGS, com pós-graduação em jornalismo econômico pela Faculdade de Economia e Administração (FAE/PR), ex-editor-chefe Agência Brasil, ex-repórter e editor sênior da Gazeta Mercantil e ex-repórter da Folha de S.Paulo

**Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do AGROemDIA

AGROemDIA

O AGROemDIA é um site especializado no agrojornalismo, produzido por jornalistas com anos de experiência na cobertura do agro. Seu foco é a agropecuária, a agroindústria, a agricultura urbana, a agroecologia, a agricultura orgânica, a assistência técnica e a extensão rural, o cooperativismo, o meio ambiente, a pesquisa e a inovação tecnológica, o comércio exterior e as políticas públicas voltadas ao setor. O AGROemDIA é produzido em Brasília. E-mail: contato@agroemdia.com.br - (61) 99244.6832

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: