Roberto Rodrigues defende plano safra vigoroso para elevar produção a 300 milhões de t

Foto: EBC/Divulgação

O Brasil precisa atingir, já em 2023, uma safra de 300 milhões de toneladas de grãos – 30 milhões a mais do que este ano –, defende o engenheiro agrônomo Roberto Rodrigues, coordenador do Centro de Agronegócios da Fundação Getulio Vargas (FGV-Agro) e ministro da Agricultura de 2003 a 2006, durante o governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Para tanto, disse Roberto Rodrigues em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, o país tem que ter um “plano safra de guerra”. Isso, pontuou, possibilitaria aproveitar a falta mundial de alimentos provocada pela guerra entre a Rússia e a Ucrânia para conquistar novos mercados, consolidando a posição do agro brasileiro como grande produtor e fornecedor de produtos agrícolas.

Na entrevista ao jornalista José Maria Tomazela, o ex-ministro da Agricultura afirmou que o Brasil foi o país que mais avançou na agricultura nos últimos 30 anos e pode seguir aumentando a produção para ser, de fato, o celeiro do mundo. “Em menos de dez anos, estaremos alimentando 1 bilhão de pessoas, um país que vai defender a segurança alimentar e, portanto, a paz”, enfatizou.

Leia, os principais trechos da entrevista de Roberto Rodrigues ao Estadão:

Lições que o cenário atual, de escassez de alimentos, inflação e guerra, trouxe para o agro brasileiro”

Roberto Rodrigues – Com a pandemia, muitos países foram ao mercado em 2020 em busca de alimentos. Só que os estoques mundiais estavam abaixo da média e, como a demanda cresceu, os preços dobraram, principalmente de soja e milho. Houve uma inflação global de alimentos que também levou vários países e produtores a aumentar a área plantada para atender a essa demanda. Para isso, precisaram de mais insumos, fertilizantes, defensivos, sementes e máquinas. As cadeias foram rompidas, e os preços dos insumos subiram muito. Como consequência, houve necessidade de mais crédito. No caso brasileiro, os recursos para crédito não estão tão disponíveis e, com a inflação alta, o juro também vai ficar mais elevado. Assim, temos oferta de crédito limitada e uma demanda maior.

Plano Safra para o próximo ciclo agrícola”

Roberto Rodrigues – O Brasil tem um papel a cumprir, que é aumentar a produção para suprir a demanda global, reduzir a inflação do alimento no mundo e também ganhar espaço, mostrando que podemos ser um produtor de alimentos ainda maior. É o caso de o governo e a sociedade brasileira atuarem para que entrem as tradings, os fabricantes e importadores de insumos, os bancos privados, o seguro para que tenhamos um plano de safra excepcional. Precisamos de um plano de safra de guerra.

Custos de produção e oferta reduzida de fertilizantes”

Roberto Rodrigues – A saída é se unir às tradings, aos bancos privados, às cooperativas, às associações de classe para montar um programa que não seja dependente do governo. Um aumento muito grande de produção não pode representar perda de valor internamente. Não adianta o Brasil ser um grande exportador se os produtores ficarem descapitalizados. Tem de ter um programa articulado, com preço de garantia, com seguro funcionando. Eu acho que é perfeitamente possível produzirmos uma safra de mais de 300 milhões de toneladas de grãos, muito acima do que vamos produzir este ano, de 270 milhões de toneladas.

Crescimento da produção agrícola brasileira”

Roberto Rodrigues – Temos investimento em tecnologia para produzir mais sem aumentar a área plantada. Do plano Collor, em 1990, até hoje, a área plantada com grãos cresceu 92% e a produção cresceu 340%. Esse processo continua com novas técnicas: integração agro-pecuária-floresta, uso de fertilizantes orgânicos, agricultura regenerativa. Podemos aumentar muito mais a produção de carnes também. A área de pasto vem diminuindo no Brasil e a produção de carne vem aumentando, porque a carga por hectare também aumenta com sustentabilidade. A agricultura brasileira tem uma tecnologia tropical sustentável que permite saltos ainda importantes. Cultivamos cerca de 72 milhões de hectares com grãos em três safras por ano. Se tivéssemos a mesma produtividade por hectare que tínhamos em 1990, precisaríamos plantar mais 103 milhões de hectares para a safra deste ano.

Mudança no agro desde 2003 a 2006, quando foi ministro da Agricultura, até hoje”

Roberto Rodrigues – Como ministro, a primeira coisa que fiz, em 2003, foi criar o seguro rural, que é a base de uma política agrícola de renda. Também fizemos a lei da biossegurança, viabilizando o uso de transgênicos, que era proibido no Brasil. Isso deu um salto de produtividade e de competitividade extraordinário. Hoje, mais de 90% da soja, do milho e do algodão no Brasil são transgênicos. Outro tema importante foram os novos títulos do agronegócio, fundamentais para o crédito rural. A criação de adidos agrícolas em várias embaixadas do Brasil permitiu uma abertura muito maior de comunicação sobre o agro brasileiro, gerando novos mercados. Políticas desenvolvidas naquele período permitiram crescimento tecnológico e no financiamento da produção. Em 2000, o agronegócio brasileiro exportou 20 milhões de dólares. Em 2021, exportou 120 milhões de dólares. É uma coisa que nenhum outro país fez. Temos ainda que eliminar desmatamento ilegal, invasão de terras, grilagem, mineração clandestina, incêndios criminosos, acertar a questão fundiária, mas a agricultura brasileira tem uma condição notável de crescer e alimentar o mundo cada vez em mais quantidade. Hoje, segundo a Embrapa, o agro brasileiro já alimenta 800 milhões de pessoas no mundo. Muito facilmente, em menos de dez anos, estaremos alimentando 1 bilhão de pessoas, sendo um país que vai defender a segurança alimentar e, portanto, a paz, porque não haverá paz enquanto houver fome.

 

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