Gil Reis: Agro, a solução para a fome mundial

Gil Reis*

No passado, não tão distante, com a população mundial bem menor que a atual e a produção de alimentos também bem menor, a percepção que se tinha é que os setores do agro eram interligados no território de cada país, com algumas exceções. Apenas alguns países mais pobres importavam alimentos para as suas populações. O mundo mudou as cadeias do agro no planeta, que se interligaram, e nos deparamos com a atual realidade, na qual a população cresceu e continua crescendo. Diante da explosão populacional, a necessidade de alimentos tornou-se a prioridade nº 1 da humanidade.

Na evolução ocorrida no século passado, destacou-se a medicina, ampliando a média de vida das pessoas e o controle da maior parte das doenças que levavam a morte no passado contribuiu não apenas com crescimento populacional como também com a vida mais longa dos seres humanos. Paralelamente, os meios de transporte evoluíram e as empresas puderam mudar as suas fábricas para países que facilitavam a produção e os lucros. Nascia assim a globalização, tornando a maioria das nações interdependentes.

No agro, alguns países possuíam melhores terras, mais recursos naturais e evolução química para produzir insumos, grãos e defensivos em detrimento de outros que não tinham tais vantagens, levando-os a importá-los. Os EUA e alguns países da OTAN, com a invasão da Ucrânia pela Rússia na sanha de reagir contra o invasor, sem poder usar suas forças armadas sob pena de provocar uma hecatombe nuclear, optaram por estabelecer sanções econômicas como arma de guerra sem o menor estudo do efeito que causaria no mundo. Com isso, criaram uma crise alimentar sem precedentes nos últimos séculos, provocando um aumento da fome no mundo que deverá ceifar mais vidas que o conflito no leste europeu.

Cada vez mais, toda a humanidade depende da agropecuária para se alimentar e sobreviver”

O site RT publicou, em 29/05/2022, a matéria “Jogos Vorazes: Como os agricultores do mundo se tornaram vítimas colaterais das sanções contra a Rússia”. Transcrevo trechos:

“A pressa em impor sanções à Rússia e a saída de dezenas de empresas do país, após o lançamento da operação militar na Ucrânia, foi feita com um cálculo específico: devastar a economia russa. No entanto, em um mundo globalizado onde tudo está interligado, todas as ações têm consequências.

A Rússia é um dos principais exportadores mundiais de fertilizantes. De acordo com o Fertilizer Institute dos EUA, em termos de mercado global de exportação, a Rússia responde por 23% da amônia, 14% da ureia e 21% do potássio, além de 10% das exportações de fosfato processado.

O Índice de Preços de Fertilizantes do Banco Mundial subiu quase 10% no primeiro trimestre de 2022, para um recorde histórico em termos nominais. O aumento segue o aumento de 80% do ano passado. De acordo com as projeções, os preços vão subir quase 70% este ano antes de cair – presumivelmente – daqui a doze meses.

Em abril, a UE adotou outro pacote de sanções contra Moscou que incluía a proibição da importação de fertilizantes – além disso, navios registrados sob a bandeira russa foram banidos dos portos da UE. Em março, a UE sancionou outro importante exportador de fertilizantes por seu papel no conflito na Ucrânia – a Bielorrússia. A potassa, um dos principais setores para o comércio do país, já estava sob sanções desde 2021, quando a UE decidiu punir a Bielorrússia por supostos abusos de direitos humanos e criar artificialmente uma crise migratória – alegações que Minsk negou.

O professor Aleksandar Djikic, do International Business College Mitrovica, na Sérvia, diz que o problema está apenas começando. “Já está sendo sentido no mercado, que os preços de alguns produtos básicos estão aumentando, mas isso é apenas o começo, porque a Ucrânia e a Rússia são grandes produtores não apenas de alimentos, mas também de fertilizantes e combustível, então o preço dos fertilizantes obviamente aumentar rapidamente, assim como o preço do diesel para a agricultura. Então esses dois insumos vão afetar muito o mercado do produto em toda a Europa, talvez alguns países menos, outros mais. A Sérvia é tradicionalmente um país agrícola, então isso também pode nos afetar.”

O trabalho desenvolvido para excluir os fertilizantes das sanções teve sucesso e o nosso agro não enfrentou a crise prevista”

Em meio às ondas de sanções a Moscou, Washington isentou os fertilizantes russos. De acordo com um documento divulgado pelo Tesouro dos EUA em março, as transações com fertilizantes estão autorizadas. Em 2021, os EUA – o terceiro maior importador de fertilizantes do mundo – fizeram uma compra no valor de US$ 1,28 bilhão da Rússia.

Esse passo, no entanto, não é suficiente para poupar os americanos da disparada dos preços. Pesquisadores da Universidade de Illinois e da Universidade Estadual de Ohio analisaram o efeito que o conflito na Ucrânia e as seguintes restrições causaram às exportações de fertilizantes. Eles observaram que os EUA têm uma produção doméstica robusta, portanto sofreriam menos com a interrupção do fornecimento de fertilizantes. “No entanto, os agricultores dos EUA provavelmente enfrentarão preços mais altos por causa da interconexão global da indústria global de fertilizantes”, diz a pesquisa.

Outro país analisado pelo estudo é o Brasil, que é fortemente dependente de fertilizantes para sua agricultura e importa cerca de 85% das substâncias que utiliza, sendo a Rússia um dos principais fornecedores. Em março, a então ministra da Agricultura do Brasil, Tereza Cristina Dias, disse que seu país havia garantido o apoio da Argentina, Bolívia, Chile, Paraguai e Uruguai para uma proposta à Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação para excluir fertilizantes das sanções à Rússia. O aumento dos preços e o medo da escassez tornam a vida dos agricultores mais difícil em toda a América Latina.”

As lideranças responsáveis pelas sanções contra a Rússia precisam promover o reestudo de suas ações, porque elas estão sendo mais danosas para a humanidade que qualquer conflito localizado em uma região. O agro mundial precisa ser preservado e promovido para que possamos enfrentar o crescimento populacional. Cada vez mais, toda a humanidade depende da agropecuária para se alimentar e sobreviver.

O trabalho desenvolvido para excluir os fertilizantes das sanções teve sucesso e o nosso agro não enfrentou a crise prevista. Mais uma vez, a cadeia alimentar no Brasil não ‘quebrou’.

*Consultor em Agronegócio

 

 

 

 

AGROemDIA

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