Gil Reis: Taxação inviabilizaria a produção

Gil Reis*
É cansativo escrever sobre o óbvio para mim e para o leitor produtor rural. Todavia, para alguns leitores que não são afeitos ao mundo rural, tudo neste artigo pode ser novidade. Na medida que o Estado, em vez de promover e oferecer proteção e subsídios, resolve taxar a produção agrícola, os resultados são trágicos, causando enorme carência alimentar para a população, principalmente quando se rompe o acordado expressa ou implicitamente entre o Estado e a produção rural. Isso porque há a possibilidade de o povo fora do mundo rural reagir contra as autoridades.
Os agricultores federados da Nova Zelândia divulgaram, em 25 de outubro de 2022, comunicado à imprensa, reproduzido pelo site SCOOP, manifestando suas dúvidas sobre a intenção do governo daquele país de tributar as emissões de metano. Reproduzo trechos:
“Uma nova pesquisa mostra que não são apenas os agricultores que questionam as medidas do governo para tornar a Nova Zelândia o primeiro país do mundo a tributar as emissões de metano do gado. A última pesquisa da Cúria com 500 neozelandeses, que tem uma margem de erro de +/- 4%, descobriu que 57% não apoiam a taxação de metano animal antes de outros países. Apenas 26% disseram sim (17% não tinham certeza). Questionado se a política deveria seguir em frente se significasse reduzir a produção de alimentos ou aumentar as emissões globais, o apoio à precificação das emissões agrícolas caiu para menos de um quarto.
Falar de uma divisão rural-urbana claramente não é evidenciado por esses números, disse o presidente da Federated Farmers, Andrew Hoggard. ‘Parece que não importa onde você esteja na Nova Zelândia, você é contra o imposto sobre o metano proposto’. Os kiwis, sem dúvida, ficariam muito preocupados com os números econômicos divulgados pelo governo, mostrando que mais de um quinto da produção de ovelhas e carne bovina seria perdida sob um sistema de preços vinculado a uma meta de 10% de metano com um prazo de apenas sete anos, Andrew disse. Acho que a mensagem de ‘perde-perde’ que o Feds promoveu desde o primeiro dia está passando. ‘Os agricultores da Nova Zelândia lideram o mundo na produção de carne e leite com a menor pegada de emissões. Se eles forem pressionados a reduzir a produção por novos impostos, e esse déficit nos mercados internacionais for compensado por agricultores menos eficientes em emissões, o aquecimento global aumentará e nós martelamos nossa economia doméstica sem nenhum ganho.’
Outra descoberta da pesquisa da Cúria deve ser motivo para os políticos atenderem aos repetidos pedidos da Federated Farmers para uma revisão das atuais metas não científicas e desnecessárias de metano, disse Andrew. A pesquisa descobriu que apenas 36% dos eleitores trabalhistas apoiaram a precificação das emissões agrícolas. É importante ressaltar que 60% dos eleitores indecisos foram contra a precificação das emissões agrícolas. A Federated Farmers também realizou uma pesquisa com seus próprios membros. As respostas iniciais de mais de 1.500 agricultores – nosso maior retorno de pesquisa deste ano – mostram profunda inquietação com a direção da política de emissões agrícolas. Mais de 74% dos agricultores querem uma política de preços mais alinhada com os objetivos originais declarados da proposta da indústria He Waka Eke Noa acordada em 2019 ao governo. Essa proposta dizia:
O setor primário trabalhará de boa-fé com o governo e a iwi/maori para projetar um sistema prático e econômico para reduzir as emissões em nível de fazenda até 2025. O setor trabalhará com o governo para projetar um mecanismo de preços em que qualquer preço seja parte de um uma estrutura mais ampla para apoiar a mudança de práticas na fazenda, definida na margem e apenas na medida necessária para incentivar a aceitação de oportunidades economicamente viáveis que contribuam para reduzir as emissões globais. O programa de ação de 5 anos proposto pelo setor primário visa garantir que os agricultores e produtores estejam equipados com o conhecimento e as ferramentas de que precisam para reduzir as emissões, mantendo a lucratividade.
O imposto de emissão planejado pelo governo contradiz claramente esta proposta de He Waka Eke Noa, feita de boa-fé pela indústria em 2019. Esta proposta foi aceita pelo governo em uma entrevista coletiva do parlamento, e os Agricultores Federados não têm certeza de quando o governo tomou a decisão de quebrar a promessa de parceria histórica”.
O comunicado dos Agricultores Federados da Nova Zelândia deixa bem claro a revolta dos produtores e do povo diante do desconhecimento das consequências da taxação da produção rural. Paralelamente, podemos perceber a que nível de atitude pode chegar a liderança de um país crente nas teses ambientalistas. É o orgulho e a vaidade de um Estado na obsessão de cumprir a meta do clube de Roma, reduzindo a produção e o consumo de seu povo para ocupar o primeiro lugar no ranking da redução dos gases de efeito estufa. Em alguns tipos de situação, as pessoas não deveriam se preocupar em ser as primeiras, mas sim as últimas.
Por que as últimas? É simples: na questão do ambientalismo extremado, é um risco imenso ser primeiro nas providências, já o último lugar possibilita acompanhar as experiências de sucesso e insucesso dos outros, podendo corrigir todo o raciocínio e verificar até onde o tal aquecimento global promovido pelos seres humanos é real. O povo da Nova Zelândia, já está provado, não será o primeiro e muito menos o último a derrubar um governo em função de medidas tresloucadas pela crença obsessiva na cartilha ambiental e nas teses de cientistas climáticos bem remunerados.
“A verdade, eu falo de sonhos, nada mais que filhos de um cérebro ocioso, gerados por fantasias vãs” — William Shakespeare
*Consultor em Agronegócio

