Mundo rural pede passagem

Gil Reis*
É fascinante poder testemunhar o ‘velho mundo’ perceber que, apesar dos discursos inflamados e das estratégias adotadas, está perdendo o poder de dominação. Uma verdade que qualquer ‘masoquista’ tem consciência é que a ‘dominatrix’ perde o fascínio, poder e clientela quando envelhece. A tão amada Europa não renovou suas ações, achando que o domínio do planeta era eterno, uma concessão especial do criador de todas as coisas, e envelheceu de fato. A geopolítica mudou, o inevitável aconteceu e o poder mundial começou a ser compartilhado. Alguns até acham que se trata de um pesadelo ocasional, o que é um ledo engano.
A dicotomia vivida pelo ‘velho mundo’, onde os sonhos determinavam a realidade, está nos seus estertores, a realidade vem se sobrepondo aos sonhos. Uma sinalização clara pode ser notada por todos os que são atentos. Reportagem publicada pela Agência Reuters em 22 de novembro deste ano, sob o título “Indústria alemã pede mais apoio para diversificar além da China”, assinada por Victoria Waldersee, Andreas Rinke e Ludwig Burger, nos dá a dimensão do que vem acontecendo na Alemanha e que representa o pensamento comum dos países do velho continente:
“Um dos principais grupos de lobby da indústria da Alemanha pediu nesta segunda-feira mais apoio à indústria para diversificar o comércio além da China, enquanto o governo prepara novas políticas destinadas a reduzir a dependência da economia de Pequim. As empresas enfrentaram um ônus administrativo de medidas planejadas, como testes de estresse e maior escrutínio sobre investimentos na China, descritas em um documento preliminar visto pela Reuters, disse a Associação das Câmaras Alemãs de Indústria e Comércio (DIHK).
‘Tudo o que ouvimos até agora sobre a estratégia do governo alemão para a China é extremamente defensivo’, disse Volker Treier, chefe de comércio exterior da DIHK. ‘Falta uma estratégia de incentivo para construir relações econômicas sustentáveis, particularmente no amplo domínio da Ásia-Pacífico, para evitar dependências unilaterais.’
Questionado sobre o rascunho do documento, o Ministério das Relações Exteriores da China em Pequim disse à Reuters que espera que a Alemanha desenvolva suas relações de ‘maneira objetiva e racional’, adotando uma política que beneficie os povos de ambas as nações. A guerra da Rússia na Ucrânia, que as autoridades alemãs dizem ter revelado que a economia é muito dependente da energia russa, estimulou um reexame dos laços com Pequim, que são próximos entre as empresas alemãs, especialmente na manufatura.
Apenas quatro empresas alemãs – as montadoras Mercedes-Benz, BMW e Volkswagen e a gigante química BASF – representaram um terço de todo o investimento europeu na China em 2018-2021, de acordo com um estudo da empresa de pesquisa Rhodium Group. O documento do Ministério das Relações Exteriores, que ainda precisa ser aprovado por outros ministérios, disse que as principais indústrias, incluindo automóveis e produtos químicos, devem evitar o risco para as empresas e o país de investir pesadamente na China.
Um porta-voz da Mercedes-Benz se recusou a comentar sobre as políticas específicas do documento, mas disse que a empresa vê como ‘nossa tarefa trabalhar em uma maior diversificação de nossas cadeias de suprimentos’. ‘Precisamos de uma política e estratégia industrial ativa e resiliente na Europa em relação a matérias-primas, baterias ou semicondutores.’ Um porta-voz da BMW (BMWG.DE) também se recusou a comentar os detalhes do documento, mas disse que o grupo está investindo tanto na Europa e nas Américas quanto na China e ‘continuará a perseguir o objetivo de abrir novos mercados de vendas no futuro’. A Volkswagen e a BASF se recusaram a comentar.
O grupo diversificado Merck KGaA, cujos investimentos na região incluem uma unidade de produção de equipamentos de laboratório em Wuxi, perto do centro comercial de Xangai, disse que as instalações na China atenderão principalmente a clientes do país. ‘Precisamos de um diálogo construtivo com o objetivo de fortalecer o multinacionalismo diante da construção de um bloco internacional’, afirmou, quando solicitado a comentar os planos da Alemanha.”
A globalização deu certo e os seus construtores começam a temê-la. Será que imaginavam que a busca incessante de países com melhores cenários para instalação de suas unidades fabris ocorreria impunemente e não haveria efeitos colaterais? Lembrem-se de Victor Frankenstein, vide o romance ‘Frankenstein’, da imortal Mary Shelley, escrito em 1816, e vejam o que ocorreu com o cientista. Pois é, assim caminha a humanidade.
O nosso mundo rural, que vem agindo como ‘um ponto fora da curva’, há muito se preocupa com a possibilidade de ‘ficar nas mãos’ de um único cliente e todos testemunhamos os ministros da Agricultura, Pecuária e Abastecimento ‘se virarem nos 30’ em busca da ampliação de mercados, cooptando novos países como clientes das nossas exportações de alimentos. Parece que ainda escuto meu saudoso e sábio pai dizendo: “Meu filho, não ponha todos os ovos no mesmo cesto”. Os que criticam o protagonismo da China no Brasil precisam ter calma e perceber que ela está nos proporcionando experiência e recursos financeiros para podermos alçar longos voos em torno do planeta.
Espantosa a criação de uma expressão imaginativa – o ‘multinacionalismo’. Seria uma tentativa saudosista de ressuscitar o ‘nacional socialismo alemão’, com seus tentáculos ambicionando o planeta? Pelo andar da carruagem já começo a ouvir as primeiras estrofes da letra da composição de Antonio Maria da música ‘ninguém me ama’, imortalizada na voz de Nora Ney, em 1952, sendo cantada pela velha Europa – “Ninguém me ama, ninguém me quer, ninguém me chama de meu amor…”
*Consultor em Agronegócio

