Sempre aos domingos: De mau, só a fama. Tremendão, saudades eternas

Tito Matos*
Quem curtiu ou ainda curte a Jovem Guarda deve estar de coração enlutado com a morte do músico, ator, escritor, poeta, cantor e compositor Erasmo Carlos, no dia 22 de novembro passado. Sem sombra de dúvida, o Brasil perdeu um dos grandes gênios da nossa música rebelde e romântica; do popular, do iê-iê-iê e do rock and roll. São mais de 700 canções. Só com o seu grande parceiro e amigo Roberto Carlos, foram cerca de 500 composições. Eles formaram uma dupla perfeita, de muita sintonia. Roberto Carlos dizia: “Foi o irmão que eu escolhi.” A primeira composição deles foi Parei na contra mão.
Alguém já disse que a arte não morre jamais. E música é arte. Por isso, Erasmo Carlos é imortal. Foi, sim, um dos grandes gênios da música. Foi um dos ícones da Jovem Guarda, da MPB, e do rock – do qual Elvis Presley era o modelo maior. Do rock brasileiro, Erasmo foi pioneiro. Foi ele quem deu uma interpretação brasileira a este ritmo musical. Tudo começou mesmo pra valer no dia 22 de agosto de 1965, quando Roberto Carlos, Erasmo e Wanderléia passaram a apresentar na TV o programa “Jovem Guarda” em tardes domingueiras, em substituição ao futebol. Um movimento memorável, inesquecível.
A partir daí, a música brasileira nunca mais foi a mesma. O programa era produzido por músicos, compositores e cantores jovens cabeludos e voltado para os jovens como eles. Sucesso total. Segundo o escritor Ricardo Pugialli, a música produzida por esses jovens expressava “seus sentimentos, emoções, vivências, em composições próprias, ou em versões de sucessos americanos, ingleses, italianos, com letras que não guardavam relação com as originais. As letras eram ingênuas? Sim, pois os jovens também o eram.” Aquele tempo era da ditadura, regime que a Jovem Guarda passou longe. Nada de envolvimento político; daí a turma mais intelectualizada da Bossa Nova olhar de esguelha para aqueles meninos cabeludos.
Erasmo era filho de baianos e vascaíno fanático. A mãe dele se declarava viúva para que o filho não tivesse traumas pelo fato de ser mãe solteira. Ele foi conhecer o pai na Bahia aos 23 anos. Cresceu sem traumas. Cresceu no bairro da Tijuca, no Rio de Janeiro, onde conviveu com Tim Maia, Jorge Benjor e Wilson Simonal e outros tantos da turma considerada “juventude transviada”. À noite, muita farra. Dormia tarde. Um dia, por insistência da mãe, dona Diva, arrumou um emprego de recepcionista. Cochilava na recepção e foi demitido. Acordou para a música, sua vocação. Foi Tim Maia que o ensinou os três acordes básicos do rock ao violão: mi maior, ré e lá. Deslanchou.
Antes de seguir a carreira solo, Erasmo Carlos passou por alguns conjuntos musicais como os Sputniks, The Snakes e Renato e seus blue caps. Não emplacou. O que progrediu mesmo foi sua parceria com Roberto Carlos e sua exitosa carreira solo. Gravou dezenas de discos e compôs para si e para outros centenas de músicas, músicas de muito sucesso em sua voz e de intérpretes, como Roberto Carlos, Gal Costa, Maria Betânia, Gilberto Gil, Tim Maia, Nara Leão, Marisa Monte, Lulu Santos etc. Marcou gerações e conquistou milhares de fãs aqui no Brasil e por este mundo afora.
Nem tudo, porém, foram flores na vida do “Tremendão”. Sofreu com o suicídio de sua amada Narinha, em 1995. Depois veio o acidente de seu filho mais velho Alexandre, em 2014, morto em um acidente de moto. Antes desses percalços em sua vida, Erasmo compôs com Roberto Carlos a canção de sucesso “É preciso saber viver”. Certa feita, Erasmo disse numa entrevista à TV que “só um ser é capaz de dar o remédio para passar a dor de perder alguém que a gente tanto ama. Esse Ser tem nome: é Deus. E o remédio é o tempo, que transforma essa dor, esse luto, essa saudade em lembranças.” Nessa mesma entrevista, o Gigante Gentil, (1,93 de altura) disse que nunca gostou de gente raivosa, de pessoa que odeia, que não tenha boa índole. “Gosto de pessoa de pensamento positivo, que trabalha, que canta e que encanta”. Olha o que ele disse: “A esperança é um sentimento de fé, e o amor é minha arma”.
Tremendão, você é uma brasa, mora! Uma brasa que não se apaga porque sua música e a sua poesia ficarão acesas eternamente conosco, em nossos corações e mentes.
*Jornalista

