Produtor rural holandês manda recado

*Gil Reis
Na última eleição holandesa, o eleitor rural deu exemplo de que a união faz a força e enviou um recado para os demais países do nosso planeta: “Não brinquem com o produtor rural”. Eu me atrevo a dizer que os ambientalistas não estão brincando com os produtores, mas sim praticando atos extremamente cruéis. Os ambientalistas agem manipulados pelos poderosos que pretendem reduzir a população mundial, sabotando a produção de alimentos para que os preços atinjam números estratosféricos e deixem os pobres sem acesso à comida.
Na edição de 23 de abril deste ano, a revista THE SPECTATOR publicou reportagem sob o título “Agricultores holandeses versus verdes: por que é importante”, de autoria de Eva Vlaardingerbroek. O texto nos dá a visão da reação do produtor naquele país. Transcrevo trechos:
“Não é sempre que as cédulas regionais na Holanda chamam a atenção da mídia internacional. Mas no mês passado foi exatamente isso que aconteceu. Em 15 de março, foram realizadas as chamadas ‘eleições provinciais’. Embora tecnicamente sejam regionais, eles também determinam indiretamente a composição do senado holandês – e, se os partidos governantes perderem a maioria lá, as chances de conseguir aprovar uma legislação tornam-se muito pequenas. É parte de um conflito maior entre a agenda verde autoritária e a maioria silenciosa pagando por tudo. Desta vez, porém, as apostas foram maiores do que nunca – porque, por incrível que pareça, o governo holandês se voltou contra um dos grupos mais lucrativos, eficientes e notáveis de nossa sociedade: os agricultores.
O governo, uma coalizão de quatro partidos liderada pelo primeiro-ministro Mark Rutte e seu Partido Popular para a Liberdade e Democracia (VVD), decidiu que 30% de todas as fazendas de gado precisam ser fechadas até 2030 para reduzir pela metade as emissões de nitrogênio – que diz representar uma ameaça ao meio ambiente holandês, protegido pelos regulamentos ‘Natura 2000’ da União Europeia. Aparentemente, temos uma ‘crise de nitrogênio’ porque o gás faz com que certas plantas morram ou cresçam em áreas onde os burocratas da UE decidiram que não deveriam.
Os fazendeiros holandeses serão forçados a vender suas terras para o estado agora ou enfrentar expropriação mais tarde. Se a destruição da indústria agrícola da Holanda for realizada da maneira que o governo planeja, também haverá consequências para o abastecimento mundial de alimentos. Apesar de não sermos um país grande, somos o segundo maior exportador de produtos agrícolas do mundo, depois dos Estados Unidos. É uma posição notável de se manter, mas se depender de nossos líderes não teremos esse título por muito mais tempo.
O ataque aos agricultores faz parte de um conflito maior entre a agenda verde autoritária que está sendo impulsionada por nosso governo e a maioria silenciosa que paga por tudo, mas cuja opinião nunca é solicitada. Os eleitores holandeses – muitos dos quais geralmente não são excessivamente políticos, mas que entendem que nossos agricultores estão alimentando nossa nação e o resto do mundo – estão ficando cansados das políticas globalistas de “salvar o planeta” com carne sintética, insetos comestíveis, painéis solares e parques de turbinas eólicas.
Quando mundo rural se une em defesa de suas pautas, qualquer país muda”
E assim, em 15 de março, as eleições resultaram em uma vitória esmagadora para o partido BoerBurgerBeweging (BBB) – que se traduz como ‘Movimento Agricultor-Cidadão’. O BBB conquistou 17 das 75 cadeiras, tornando-se o maior partido do Senado. O VVD de Rutte venceu apenas dez. Foi um resultado inédito, visto que esta foi a primeira vez que o BBB concorreu a uma vaga no Senado. Foi também, nas palavras da fundadora e líder do partido, Caroline van der Plas, um ‘grande e gordo dedo do meio’ para o establishment.
Após sua vitória surpreendente, o BBB está enfrentando uma enorme pressão do governo holandês e da UE. Na noite da eleição, Christianne van der Wal, a ‘ministra do nitrogênio’ (em que mundo vivemos!) teve a ousadia de declarar que, apesar da vitória do BBB, ‘não há escolha a não ser seguir em frente’ com as políticas do nitrogênio e planos de expropriação. Duas semanas depois, a Comissão Europeia – um órgão não eleito – proclamou que ‘é necessária vigilância contínua para garantir que a Holanda cumpra seus compromissos de redução de emissões’.
O governo poderia, portanto, citar a resposta da UE como a razão para levar adiante suas políticas altamente impopulares. Na realidade, ainda está tão apegado à ideia de uma crise de nitrogênio como sempre, independentemente do que a Comissão Europeia diga.
Van der Plas, então, está em uma posição altamente difícil. Como ela cumprirá suas promessas ao eleitorado quando nem o governo nem a UE estão dispostos a ceder? Se ela não entregar, os eleitores do BBB a verão como uma traidora; se ela não se comprometer, os partidos governantes farão tudo ao seu alcance para descrevê-la como uma extremista irracional.
É um ato de equilíbrio delicado. Já existem apoiadores do BBB que temem que ela esteja vacilando. Um motivo de preocupação é que ela não descarta oficialmente a narrativa da crise do nitrogênio. Em vez disso, ela defende o uso de modelos mais confiáveis para calcular as emissões de nitrogênio e mais tempo para implementar os regulamentos. Além disso, Frans Timmermans, vice de Ursula von der Leyen na Comissão Europeia e o mentor por trás do Acordo Verde Europeu, parecia um pouco satisfeito com ela depois que eles se encontraram em Haia recentemente, chamando suas conversas de ‘encorajadoras’.
No entanto, o fato de Van der Plas nunca ter rejeitado explicitamente as alegações de crise do governo pode ser parte de uma estratégia astuta e de longo prazo para torná-la aceitável aos olhos de mais eleitores. Ela é vista como uma voz moderada em seu partido e, portanto, é uma potencial unificadora em um cenário político dividido. Não é improvável que depois dos resultados do mês passado o gabinete não sobreviva ao seu mandato e as eleições gerais marcadas para 2025 tenham que ser antecipadas. Com base nas pesquisas atuais, o BBB se tornaria o maior partido da Câmara dos Deputados; e Van der Plas se tornaria a primeira primeira-ministra da Holanda.”
Pois é, quando mundo rural se une em defesa de suas pautas, qualquer país muda e aos políticos não resta alternativa a não ser segui-lo. Para que os produtores se unam é preciso abandonar as posições extremadas, ninguém gosta ou segue extremistas. Todos precisam de muita calma e relembrar que a única ideologia do agro é a produção. Os produtores precisam deixar as discussões ideológicas para os momentos de lazer na mesa de um bar tomando uma cachacinha ou qualquer outra bebida alcóolica, fumando um cigarrinho (industrializado ou de palinha) e, lá sim, “quebrar o pau” com os amigos que pensem diferente se for preciso.
“Deixe-me dizer em que acredito: no direito do homem de trabalhar como quiser, de gastar o que ganha, de ser dono de suas propriedades e de ter o Estado para lhe servir e não como seu dono. Essa é a essência de um país livre, e dessas liberdades dependem todas as outras” – Margareth Thatcher (1925/2013), política britânica que exerceu o cargo de primeira-ministra do Reino Unido de 1979 a 1990 e líder da oposição entre 1975 e 1979. Foi a primeira-ministra com o maior período no cargo durante o século XX e a primeira mulher a ocupá-lo.
*Consultor em Agronegócio
**Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do AGROemDIA

