Conheça o avô da ciência da computação
Gil Reis*
A maior parte das pessoas simplesmente usa o que o mundo oferece sem qualquer interesse ou curiosidade sobre suas origens, o que é muito natural. Somente alguns articulistas e curiosos como eu se interessam em buscar a origem das coisas. Faz parte do comportamento normal ir ao supermercado ou às mercearias comprar alimentos sem ter a curiosidade de saber de onde vem a alface, o tomate, a cebola, o feijão, arroz e a carne. Para piorar acreditam que os defensivos agrícolas são tóxicos e os combustíveis fósseis destroem o planeta. Ninguém informou a elas que os defensivos e os combustíveis fósseis foram os responsáveis pela civilização como conhecem e promoveram o crescimento da população de 2 bilhões para 8 bilhões de habitantes em menos de 200 anos.
Receberam a internet, a mídia social, a computação, os smartphones e demais instrumentais da vida atual sem a mínima noção das origens. O site THE CONVERSATION publicou, em 13 maio de 2024, a reportagem “O que são, para que servem e quem foi o inventor persa dos algoritmos?” Assinado por Debbie Passey, o texto narra como surgiram os algoritmos:
“Os algoritmos se tornaram parte integrante de nossas vidas. Dos aplicativos de mídia social à Netflix, os algoritmos aprendem suas preferências e priorizam o conteúdo que lhe é mostrado. O Google Maps e a inteligência artificial não são nada sem os algoritmos. Então, todos nós já ouvimos falar deles, mas qual é a origem da palavra ‘algoritmo’. Mais de 1.000 anos antes da internet e dos aplicativos de smartphones, o cientista e polímata persa Muhammad ibn Mūsā al-Khwārizmī inventou o conceito de algoritmos.
De fato, a própria palavra vem da versão latinizada de seu nome, ‘algorithmi’. E, como você pode suspeitar, ela também está relacionada à álgebra. Al-Khwārizmī viveu de 780 a 850 d.C., durante a Era de Ouro Islâmica. Ele é considerado o ‘pai da álgebra’ e, para alguns, o ‘avô da ciência da computação’. No entanto, poucos detalhes são conhecidos sobre sua vida. Muitas de suas obras originais em árabe se perderam no tempo. Acredita-se que al-Khwārizmī tenha nascido na região de Khwarazm, ao sul do Mar de Aral, no atual Uzbequistão. Ele viveu durante o Califado Abássida, que foi uma época de notável progresso científico no Império Islâmico.
Al-Khwārizmī fez importantes contribuições para a matemática, geografia, astronomia e trigonometria. Para ajudar a fornecer um mapa-múndi mais preciso, ele corrigiu o livro clássico de cartografia de Ptolomeu, Geographia. Ele produziu cálculos para rastrear o movimento do sol, da lua e dos planetas. Ele também escreveu sobre funções trigonométricas e produziu a primeira tabela de tangentes. Não há imagens da aparência de al-Khwārizmī, mas, em 1983, a União Soviética emitiu um selo em homenagem ao seu aniversário de 1.200 anos.
Al-Khwārizmī era um estudioso da Casa da Sabedoria (Bayt al-Hikmah) em Bagdá. Nesse centro intelectual, os estudiosos traduziam o conhecimento de todo o mundo para o árabe, sintetizando-o para fazer progressos significativos em uma série de disciplinas. Isso incluía a matemática, um campo profundamente ligado ao Islã. Al-Khwārizmī era um polímata e um homem religioso. Seus escritos científicos começavam com dedicatórias a Alá e ao Profeta Muhammad. E um dos principais projetos que os matemáticos islâmicos empreenderam na Casa da Sabedoria foi desenvolver a álgebra.
Por volta de 830 d.C., o califa al-Ma’mun incentivou al-Khwārizmī a escrever um tratado sobre álgebra, Al-Jabr (ou The Compendious Book on Calculation by Completion and Balancing). Essa se tornou sua obra mais importante. A essa altura, a ‘álgebra’ já existia há centenas de anos, mas al-Khwārizmī foi o primeiro a escrever um livro definitivo sobre ela. Sua obra foi concebida para ser uma ferramenta prática de ensino. Sua tradução latina foi a base dos livros didáticos de álgebra nas universidades europeias até o século XVI.
Na primeira parte, ele apresentou os conceitos e as regras da álgebra e os métodos para calcular os volumes e as áreas das formas. Na segunda parte, ele apresentou problemas da vida real e elaborou soluções, como casos de herança, a divisão de terras e cálculos para comércio. Al-Khwārizmī não usava a notação matemática moderna com números e símbolos. Em vez disso, ele escrevia em prosa simples e empregava diagramas geométricos: Quatro raízes são iguais a vinte, então uma raiz é igual a cinco e o quadrado a ser formado por ela é vinte e cinco.
Na notação moderna, escreveríamos isso da seguinte forma: 4x = 20, x = 5, x2 = 25
Avô da ciência da computação. Os escritos matemáticos de Al-Khwārizmī introduziram os numerais hindu-arábicos para os matemáticos ocidentais. Esses são os dez símbolos que todos nós usamos hoje: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 0. Os numerais hindu-arábicos são importantes para a história da computação porque usam o número zero e um sistema decimal de base dez. É importante ressaltar que esse é o sistema numérico que sustenta a moderna tecnologia de computação.
A arte de Al-Khwārizmī de calcular problemas matemáticos estabeleceu a base para o conceito de algoritmos. Ele forneceu as primeiras explicações detalhadas sobre o uso da notação decimal para realizar as quatro operações básicas (adição, subtração, multiplicação, divisão) e calcular frações. Esse era um método de computação mais eficiente do que o uso do ábaco. Para resolver uma equação matemática, al-Khwārizmī percorria sistematicamente uma sequência de etapas para encontrar a resposta. Esse é o conceito subjacente de um algoritmo.
Algorismo, um termo latino medieval nomeado em homenagem a al-Khwārizmī, refere-se às regras para a execução da aritmética usando o sistema numérico hindu-arábico. Traduzido para o latim, o livro de al-Khwārizmī sobre os numerais hindus foi intitulado Algorithmi de Número Indorum. No início do século XX, a palavra algoritmo chegou à sua definição atual e ao seu uso: ‘um procedimento para resolver um problema matemático em um número finito de etapas; um procedimento passo a passo para resolver um problema’.
Muhammad ibn Mūsā al-Khwārizmī desempenhou um papel central no desenvolvimento da matemática e da ciência da computação como as conhecemos hoje. Na próxima vez que usar qualquer tecnologia digital, desde seu feed de mídia social até sua conta bancária on-line e seu aplicativo Spotify, lembre-se de que nada disso seria possível sem o trabalho pioneiro de um antigo polímata persa.”
Debbie Passey nos traz de forma simples e coloquial a história de feitos na matemática e álgebra do polímata persa Muhammad ibn Mūsā al-Khwārizmī e sua enorme contribuição para a ciência atual. A despeito do que todos possam pensar, os conhecimentos que usamos hoje não surgiram no dito mundo ocidental – apesar da pose, as suas origens remontam ao Oriente médio e à Ásia. Os cientistas europeus absorveram e desenvolveram conhecimentos já existentes que foram importados. Pasmem os senhores, desde o macarrão, o carrinho de mão, a imprensa e o papel são invenções chinesas, mas isto é outra história que trarei em breve.
“A evolução do Homem passa, necessariamente, pela busca do conhecimento” – Sun Tzu
*Consultor em Agronegócio
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do AGROemDIA

