Artigos

Sem a agropecuária, a fome

Gil Reis*

Finalmente a agropecuária e o agronegócio estão abandonando a tolerância e engrossando a voz para contestar, com argumentos sólidos, o discurso destrutivo dos “chacais ambientalistas”. Recentemente, em uma reunião da Secretaria de Defesa Agropecuária (SDA), onde discutíamos a rastreabilidade sanitária dos bovinos brasileiros, fiz um pronunciamento que considero definitivo: “O ambientalismo é um modismo que passará. O que a humanidade quer e precisa é de alimentos saudáveis e accessíveis”.

O site ‘O Cético Diário (THE DAILY SCEPTIC)’ publicou, em 8 de agosto de 2024, o artigo “Sem fazendas, sem comida”, de autoria do Dr. David Bell, médico clínico e de saúde pública, com doutorado em saúde populacional e experiência em medicina interna, modelagem e epidemiologia de doenças infecciosas. Transcrevo uns poucos trechos:

“Vivemos em um mundo onde oligarcas acumulam terras, usam seus ativos de mídia para denegrir alimentos naturais e investem em alternativas falsas. Do outro lado, profissionais ricos que se autodenominam lutadores pela liberdade viajam pelo mundo e pela internet insistindo que devemos comer alimentos orgânicos e locais. Enquanto isso, a segurança alimentar de muitos dos mais de oito bilhões de nós permanece à mercê do clima, doenças e insetos. Nenhum dos lados oferece uma solução viável ou muito benefício para muitos além deles.

Do conforto de grandes aviões a jato feitos em enormes fábricas, agora é possível ganhar curtidas postando fotos do gado orgânico e bem bonitinho que deixamos em casa. Elas podem ser complementadas com fotos do arroz tailandês, café costarriquenho e abacates mexicanos do nosso local de brunch favorito. Essa abordagem à alimentação e agricultura é um hobby, e um bom hobby. Mas o mundo não pode sustentar oito bilhões desses hobbies.

Nós nos alimentamos muito mais e vivemos muito melhor do que os malthusianos do passado previram porque cultivamos mais alimentos e os armazenamos e transportamos de forma mais eficaz do que eles pensavam que poderíamos. Isso não é uma coisa ‘elitista’, é bem o oposto. Como o resto da vida, precisamos continuar a progredir, mas manter esse progresso em todas as nossas mãos, em vez de em algumas poucas movidas pela ganância — que é o desafio inevitável de todo o progresso humano, e um desafio que nossas agências estão falhando agora. Mas, na luta pela liberdade alimentar, ainda precisamos alimentar mais de oito bilhões. Isso significa investir em maquinário agrícola de grande escala e infraestrutura de fornecimento e gestão de alimentos — em grandes empresas agrícolas.

Se fôssemos realmente agricultores de subsistência, como a maioria dos pequenos agricultores são globalmente, agora enfrentaríamos a fome ou a perda de nossas terras e renda futura – como as pessoas no Ocidente também enfrentaram antes da revolução industrial transformar a agricultura, e como centenas de milhões em outros países ainda enfrentam. É por isso que agora temos grandes fazendas com muito equipamento: para que elas possam ser resilientes.

Nova York e a Grande Londres são aproximadamente três vezes maiores que a nossa cidade mais próxima, e o mundo tem uma dúzia de outras cidades com mais de 20 milhões de pessoas. Elas são lotadas — mais da metade da humanidade vive em áreas urbanas — e todas precisam de alimentação, ou morrerão. Elas não conseguem cultivar sua própria comida — pelo menos não o suficiente para viver. Elas estão ocupadas fazendo aquelas coisas das quais o resto de nós depende, e quase não têm espaço. Elas podem se aventurar por diversão e saúde, mas sua sobrevivência depende de uma indústria massiva de cultivo, transporte, preservação e entrega de grandes quantidades de comida.

Há muito tempo, a maioria das pessoas no Ocidente subsistia da terra. A vida era geralmente confinada à aldeia local, as mulheres geralmente morriam no parto e as crianças antes do quinto aniversário. Muitos nunca deixaram as proximidades de sua aldeia, pois não tinham economias, meios de transporte ou tempo livre para fazê-lo. As temporadas ruins consecutivas geralmente significavam fome em massa. Nos últimos duzentos anos, nossa população aumentou enormemente e, apesar das previsões dos malthusianos, conseguimos não apenas nos alimentar, mas cada vez mais nos alimentar em excesso.

Mas, se quisermos viver como a maioria gostaria, e não morrer desnecessariamente jovens, e alimentar nossas grandes cidades, precisaremos expandir a maioria dos apetrechos e inovações que provaram que os antigos malthusianos estavam errados. O fornecimento local por si só traz fome local quando as coisas ficam ruins, a menos que haja uma alternativa para vir ao resgate que seja capaz de preservar e transportar alimentos de outro lugar. As pessoas que fazem nossos aviões e mantêm nossa internet também precisam comer — barato o suficiente para que elas também possam voar e navegar na web como nós. Se acreditamos na igualdade e liberdade básicas, então precisamos também apoiar as aspirações de agricultores de semi-subsistência em dificuldades em países mais pobres que sonham em fazer o mesmo.

Liberdade alimentar deve significar mercados abertos, direitos dos agricultores e garantir que essa parte absolutamente vital do apoio à humanidade permaneça nas mãos de muitos, não de poucos. Precisamos de grandes fazendas produtivas, e precisamos delas administradas por pessoas que entendam a terra, em vez de fundos de investimento distantes, empreendedores de software ou bajuladores do último pensamento de grupo fascista de Davos.

A agricultura de hobby continuará a ser uma alternativa viável e boa para os afortunados e ricos, mas tentar desmantelar a ‘Revolução Verde’ agrícola está perigosamente perto do despovoamento intencional. Devemos lutar para reduzir seus danos ambientais, onde quer que possamos mostrar que isso não deixará milhões de pessoas com fome. Mas a luta deve ser principalmente por um caminho para sair da pobreza e da liberdade de escolha, não uma luta pela utopia de alguns privilegiados.”

Apesar do silêncio da maior parte da humanidade em relação ao discurso destrutivo dos “chacais ambientais” não significar apoio ou concordância, precisamos nos manifestar e contestá-lo. É preciso muita cautela, em direito usamos o aforismo ‘que quem cala consente’, temos que ficar atentos, pois os chacais se aproveitam deste aforismo para difundir ‘mundo afora’ que os habitantes do nosso planetinha os apoiam.

“Talvez alguns perguntem: porque programas supremacistas da ONU? A resposta é muito simples, é que alguns programas da ONU, que posa de senhora do mundo, pregam nas entrelinhas, muitas vezes também clara e desabridamente, a falsa supremacia da civilização europeia em alguns programas em termos de direitos humanos, aquecimento global, ciência e outros mais. A postura da ONU em apoio à supremacia da civilização europeia chega a ser um acinte que se configura em um grande bullying mundial, tentando desmerecer as demais civilizações. Pasmem todos, o ‘parlamento europeu’ se atreve a ditar regras para os demais países. Existe algum acordo internacional nomeando a União Europeia e seu parlamento como xerifes do planeta?”

*Consultor em Agronegócio
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do AGROemDIA

AGROemDIA

O AGROemDIA é um site especializado no agrojornalismo, produzido por jornalistas com anos de experiência na cobertura do agro. Seu foco é a agropecuária, a agroindústria, a agricultura urbana, a agroecologia, a agricultura orgânica, a assistência técnica e a extensão rural, o cooperativismo, o meio ambiente, a pesquisa e a inovação tecnológica, o comércio exterior e as políticas públicas voltadas ao setor. O AGROemDIA é produzido em Brasília. E-mail: contato@agroemdia.com.br - (61) 99244.6832

Deixe uma resposta

Descubra mais sobre AGROemDIA

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading