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Consequências das sanções contra a Rússia

Gil Reis*

Eis que a União Europeia continua em seu trabalho de controle e manipulação dos povos do nosso planeta. Há no velho continente o desejo de volta ao passado, quando transformou meio mundo em colônias. Não há qualquer desejo meu em defender a Rússia perante o conflito com a Ucrânia e vice versa. Simplesmente levanto a questão que as sanções contra a Federação Russa impactam sobre a América Latina, notadamente em relação ao Brasil. Somente não percebe as consequências para o nosso país e para a própria América Latina quem não quer ver.

O Brasil tem uma posição invejável em relação à produção de fertilizantes, entretanto, não se trata de simplesmente produzir. O que sempre estará balança será o preço da concorrência internacional que viabilizará ou não a produção nacional. Afinal, o preço é quem determina a posição dos nossos produtos no mercado internacional.

O site Comunidad Saker Latinoamérica publicou, em 25 de setembro de 2024, reportagem sob o título “O impacto alimentar global das sanções contra a Rússia”, que explica o que vem acontecendo. Transcrevo trechos:

“A Federação Russa é o principal exportador mundial de fertilizantes nitrogenados, o segundo fornecedor de potássio e o terceiro exportador de fertilizantes fosfatados. As sanções da União Europeia (UE) contra a Rússia e a Bielorrússia interferem na dinâmica de exportação destes países e causam obstáculos no fornecimento de produtos agrícolas e fertilizantes à América Latina, África e Ásia. Isto é expresso pela embaixada da Federação Russa em um artigo publicado em seu portal oficial, onde expõe como estas medidas de guerra econômica e comercial contra o país colocam em risco a produção alimentar em escala global.

A Rússia é um produtor indispensável para a segurança alimentar global, não só porque é o país maior fornecedor de trigo, mas também porque desempenha um papel importante no comércio internacional de fertilizantes. A Federação é o principal exportador mundial de fertilizantes nitrogenados, o segundo fornecedor de potássio e o terceiro exportador de fertilizantes fosfatados. O artigo publicado pela embaixada sistematiza as consequências da política anti-russa no mercado de produtos agrícolas e fertilizantes, e revela que existe uma proibição geral das importações para a UE, bem como da prestação de serviços relacionados com a sua transferência.

‘As empresas europeias e internacionais com participação da UE estão proibidas de facilitar o fornecimento destes fertilizantes sancionados a países terceiros’, afirma, pelo que os países do Sul Global são afetados. O fato de sanções seletivas terem sido aplicadas contra empresas russas produtoras e exportadoras de fertilizantes, bem como contra os seus principais acionistas e dirigentes, causou problemas na entrega e comercialização de produtos nos mercados internacionais. Houve atrasos não só nos fertilizantes potássicos, mas também nos fertilizantes azotados e fosfatados que não estão sujeitos ao regime de sanções.

Interrupção nas cadeias de comercialização. As sanções da UE criam dificuldades nos pagamentos e na logística para o fornecimento de produtos agrícolas e fertilizantes porque os maiores bancos russos estão desligados do sistema Swift. ‘Em particular, algumas contrapartes são forçadas a rejeitar transações diretas devido a dificuldades em efetuar pagamentos para contas russas’, afirma o artigo acima mencionado. Ao mesmo tempo que exclui a Rússia do sistema de pagamentos internacionais, chantageia países terceiros com a ameaça de sanções secundárias por fugirem às restrições, uma lógica que também se aplica a qualquer operador econômico que não as cumpra.

O objetivo da UE é prejudicar ao máximo as capacidades agrícolas da Rússia, um plano que irá executar mesmo sabendo que o país euro-asiático é um ator-chave na produção de alimentos para o mundo, mas sobretudo no contexto das consequências negativas da pandemia, os efeitos do aquecimento global e dos desastres naturais que reduziram a produção agrícola. Como se não bastasse, com as sanções que influenciam a produção agrícola, Bruxelas utiliza o sistema multilateral de comércio alimentar em seu benefício, enquanto a insegurança alimentar está aumentada em outras regiões.

As medidas da UE limitam o acesso da produção agrícola russa ao mercado europeu, o que causa danos indiretos à segurança alimentar global porque incentiva o aumento do preço dos produtos. A Rússia expõe dois fatos chave que indicam o açambarcamento de produtos agrícolas. Por um lado estão os corredores de solidariedade no quadro do conflito para uma exportação massiva de produtos agrícolas ucranianos para a UE, para processamento e posterior reexportação, a maior parte dos quais foi utilizada para consumo interno europeu. Por outro lado, houve o aumento das suas importações de fertilizantes russos em 2023 para retirar fornecimentos que iriam para países terceiros em caso de funcionamento normal do mercado.

A Rússia não descarta a possibilidade de substituir os fornecedores de fertilizantes por outros exportadores, o que também teria consequências negativas para os países mais pobres. ‘Não se pode excluir que a UE simplesmente comece a comprar fertilizantes destinados a países necessitados de outras regiões’, argumenta o texto. As sanções de Bruxelas geram consequências negativas para a economia mundial porque quebram as cadeias logísticas, causam dificuldades nos pagamentos e atrasam a entrega de remessas agrícolas e fertilizantes da Rússia e da Bielorrússia para países terceiros, criando escassez artificial de produtos, aumentando os preços e uma situação de inacessibilidade para os consumidores.”

É preciso que o leitor entenda que o governo não estava preparado para o nível de crescimento da nossa agropecuária. Não existe nenhum milagre: o produtor brasileiro era limitado pelo consumo do mercado doméstico e quando os compradores internacionais perceberam a pujança da nossa produção agropecuária e os nossos preços competitivos voltaram os olhos para nós. A crise que enfrentamos hoje não é de produção, mas de infraestrutura. Enquanto houver compradores para os nossos produtos alimentares, os produtores produzirão em quantidades necessárias.

Existem óbices, naturalmente, desde o problema de fertilizantes. Por isso, as sanções contra a Federação Russa até a enorme campanha contra a forma como produzimos movida por ambientalistas financiados pela concorrência internacional. Não podemos esquecer jamais que o mundo está faminto e precisa dos alimentos que produzimos. A competência dos produtores rurais brasileiros é inegável e dispostos a enfrentar todas as adversidades.

As adversidades existem, porém, é a forma como as enfrentamos que definem a nossa competência. O mundo precisa entender que o produtor rural brasileiro está disposto a alimentar o planeta desde que paguem o preço justo.

“Não são as crises que mudam o mundo, e sim nossa reação a elas.” – Zygmunt Bauman (1925-2017), sociólogo polonês

*Consultor em Agronegócio

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do AGROemDIA

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