Queda de produtividade no Brasil
Gil Reis*
Quando a grande mídia publica a verdade não merece crítica e somente me resta pedir ao leitor que raciocine atentamente sobre o texto publicado. O jornal Folha de São Paulo publicou, em 16 de junho de 2024, a matéria “Produtividade trava crescimento, e nível brasileiro é 1/4 do americano”. Transcrevo trechos:
“Especialistas veem situação ‘trágica’; com queda da população ativa, país tende a empobrecer. Os últimos anos foram trágicos para a produtividade do trabalho no Brasil. O fator será cada vez mais determinante para que o país cresça e enriqueça diante da tendência de diminuição de sua população economicamente ativa —o que tende a jogar a produtividade para baixo. No maior setor da economia, o de serviços, que representa um terço do Produto Interno Bruto (PIB), tem havido inclusive queda na taxa de produtividade desde 2010. Em resumo, sem a explosão de eficiência no agronegócio e a melhora na qualidade da mão de obra nos últimos anos, o Brasil estaria em situação ainda mais dramática.
Entre 2010 e 2023, a produtividade geral por hora trabalhada no Brasil cresceu apenas 0,3% ao ano, puxada principalmente pelo agro, com alta anual de 5,8%. No gigantesco setor de serviços, houve queda de 0,3% ao ano; e na indústria, alta de apenas 0,1%. A taxa de produtividade pode ser decomposta em três componentes: 1) capital em uso (máquinas e equipamentos utilizados pelo trabalhador), que evolui pouco no Brasil; 2) o Índice de Capital Humano (escolaridade e experiência de quem trabalha), que registrou avanço significativo; e 3) a Produtividade Total dos Fatores, que mede a eficiência na utilização do capital em uso e do capital humano, que está em queda nas últimas décadas.
Segundo Fernando Veloso, coordenador do Observatório da Produtividade Regis Bonelli, enquanto o governo busca políticas para reindustrializar o país, faria muito mais sentido focar no aumento da eficiência no grande setor de serviços, que vem tendo desempenho negativo. Ele destaca ainda que produtividade cresce muito pouco apesar do aumento no Índice de Capital Humano, com trabalhadores mais escolarizados e experientes. ‘Chama a atenção o fato de este item ter dado a maior contribuição [para a produtividade] desde 1995. Depois, vêm as horas trabalhadas, juntamente com o estoque de capital em uso. Se não fosse a educação, com todos os seus problemas, o resultado teria sido muito pior’, diz Veloso.
Em sua opinião, além do baixo investimento na compra de máquinas e equipamentos modernos, o principal obstáculo para a produtividade é o ambiente de negócios. É como se a melhora na qualidade da mão de obra nos últimos anos fosse desperdiçada em um ‘atoleiro econômico’ em que operam as empresas. Isso tem levado o Brasil a se distanciar cada vez mais dos níveis dos EUA. Se nos anos 1980 um trabalhador brasileiro alcançava 46% da produtividade de um norte-americano, hoje ele produz um quarto (25,6%). É o mesmo nível de sete décadas atrás, segundo dados do Conference Board. Significa que o trabalhador brasileiro leva uma hora para fazer o mesmo produto ou serviço que um americano realiza em 15 minutos.
Para Naercio Menezes, professor do Insper e da Faculdade de Economia e Administração da USP, a principal medida do bem-estar dos brasileiros, o PIB per capita (o tamanho da economia dividido pela população), dependerá cada vez mais do aumento da produtividade para evoluir. Isso porque haverá cada vez menos pessoas trabalhando no futuro. Entre 1981 e 2008, com o aumento da participação das mulheres no mercado de trabalho e um número maior de adultos trabalhando em relação a crianças e idosos que não trabalham (a chamada razão de dependência demográfica), o percentual de trabalhadores na população (ajustado pelo total de horas trabalhadas) aumentou continuamente.
‘Mas esse processo passou a ser revertido desde o final da década passada, o que significa que a taxa de pessoas que trabalham vai se reduzir no futuro, fazendo com que o PIB per capita dependa cada vez mais da produtividade’, afirma. Hoje, a taxa de investimentos no país equivale a 16,9% como proporção do PIB. Só para manter as condições de máquinas e infraestrutura no nível atual, sem deterioração, essa taxa deveria superar 20%. Na Coreia do Sul, altamente produtiva, ela alcançou 31,7% do PIB em 2023.
Nas contas de Menezes, entre 2003 e 2013, o PIB per capita cresceu 32%, o maior aumento em anos recentes, com forte aumento da produtividade. ‘Mas, de 2013 até agora, o PIB per capita, a produtividade e as horas trabalhadas estão no mesmo nível. Com isso, nos últimos 40 anos a produtividade brasileira cresceu apenas 20%, ante 65% nos Estados Unidos’, diz. Normalmente, empresas mais expostas à competição internacional tendem a ser mais produtivas. Assim como as firmas que empregam mão de obra formalizada, que normalmente são mais organizadas e eficientes. Mas, no Brasil, dos 100,2 milhões de ocupados, 38,9 milhões estão na informalidade —outro entrave para a produtividade.
Assim como Menezes, Giambiagi destaca que, por conta do envelhecimento da população e queda na taxa de fecundidade, o Brasil terá nos próximos 20 anos o mesmo número de pessoas em idade de trabalhar do que hoje. ‘Isso significa o seguinte: que todo, e não estou dizendo a maior parte, que todo o aumento do PIB dos próximos 20 a 25 anos terá que vir da produtividade’, afirma. Olhando para o passado, o Brasil aumentou bastante a produtividade somente nos anos em que a população crescia e migrava do campo para a cidade, entre as décadas de 1950 e 1980, quando um trabalhador substituía, por exemplo, a enxada por uma máquina —tornando-se muito mais produtivo.
Para Menezes, do Insper, no médio e longo prazos o foco deveria estar na qualidade da educação. ‘Cerca de 30% da população de 15 a 64 anos são analfabetos funcionais e apenas 12% são capazes de interpretar textos, tabelas e gráficos mais complexos. Estas porcentagens se mantiveram estáveis nos últimos 20 anos, apesar do aumento da escolaridade’, diz, citando dados dos Institutos Ação Educativa e Paulo Montenegro.”
A frase inicial da matéria “Especialistas veem situação ‘trágica’; com queda da população ativa, país tende a empobrecer. Os últimos anos foram trágicos para a produtividade do trabalho no Brasil. O fator será cada vez mais determinante para que o país cresça e enriqueça diante da tendência de diminuição de sua população economicamente ativa” traz a resposta à maior parte das respostas que poderíamos fazer.
Os programas sociais implantados no Brasil que deveriam aumentar o retorno da população inativa transformando-as em ativas novamente, aqui em nosso país acontece o inverso. As pessoas que se beneficiam com tais programas não querem retornar ao trabalho.
Vejamos o que diz Ronald Reagan, ex-presidente dos EUA, a respeito dos programas sociais:
“Não devemos julgar os programas sociais por quantas pessoas estão neles, mas quantas estão saindo.” E continua “O melhor programa social é o emprego.”
*Consultor em Agronegócio
**Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do AGROemDIA

