Não há uso seguro para agrotóxicos, dizem especialistas

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Produtores têm, em muitos casos, dificuldade de seguir orientação dos fabricantes – Gov. PR 

 

Não existe uso seguro para agrotóxicos, segundo especialistas ouvidos durante audiência pública da Comissão de Seguridade Social e Família da Câmara dos Deputados. Além de fazer esse alerta, eles também condenaram o projeto que facilita o registro desses produtos e sugeriram maior controle sobre o uso e aquisição de pesticidas.

Outra proposta apresentada pelos especialistas na audiência, realizada nessa terça-feira (26), foi a de mais treinamento para os profissionais da saúde, objetivando melhorar o diagnóstico de doenças relacionadas ao uso desses produtos e as estatísticas sobre acidentes.

Segundo a médica sanitarista Jandira Maciel da Silva, do Grupo de Estudo de Saúde e Trabalho Rural da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), há poucas informações sobre o uso dos agrotóxicos pelos pequenos produtores, que em geral não sabem informar a quantidade e periodicidade do manuseio dos pesticidas.

Tal situação, acrescentou a sanitarista, dificulta diagnóstico relativo a queixas sobre problemas de saúde como formigamento no corpo, fraqueza, impotência sexual e outras. “Precisamos avançar na notificação compulsória de problemas causados por agrotóxicos. Mas para isso temos que melhorar a capacitação dos profissionais de saúde e o diagnóstico.”

Agricultura familiar

O pesquisador Pedro Henrique Abreu, que faz doutorado em Saúde Coletiva na Unicamp, ressaltou que é impossível para o pequeno produtor seguir as condições de uso descritas nas orientações dos fabricantes, especialmente no que diz respeito a transporte, armazenamento e uso de roupas adequadas.

“Não é possível utilizar agrotóxicos de forma segura na agricultura familiar camponesa no Brasil. Não é questão de capacitação nem de fiscalização”, observou Abreu. Citou omo exemplo recomendações restritivas sobre o uso de roupas de proteção, que não são acessíveis aos pequenos produtores e são desconfortáveis para uso sob o sol.

Suicídios

O debate foi feito realizado a pedido do deputado Padre João (PT-MG). De acordo com ele, pesquisas recentes têm relacionado o uso de agrotóxicos a suicídios de trabalhadores do campo. “Existe um conjunto de fatos que comprovam a relação do agrotóxico com doenças e até mesmo com o suicídio.”

A relação entre suicídios e uso de agrotóxicos também foi mencionado por Carla Bueno, representante da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e pela Vida, promovida por várias entidades. O fenômeno, enfatizou, pode estar acontecendo em regiões produtoras de fumo do Rio Grande do Sul. “Entre os locais com maior índice de suicídio estão os municípios que produzem fumo.”

André Fenner, coordenador do Programa de Promoção da Saúde e Trabalho da Fundação Oswaldo Cruz, explicou que produtos químicos usados como agrotóxicos, como organofosforatos e carbamatos, são neurotóxicos e causam depressão do sistema nervoso central. Mas ele admitiu a dificuldade de atribuir efeitos crônicos a um único produto. “Os estudos atuais não consideram o efeito da mistura de produtos.”

Anvisa

Na semana passada, a Anvisa decidiu pelo banimento do uso do agrotóxico Paraquat, herbicida usado para matar ervas daninhas e que pesquisas relacionam a mutações genéticas. O órgão deu prazo de três anos para que os produtores deixem de usar o produto.

“É um desafio muito grande porque esse produto está inserido em um sistema produtivo complexo”, disse Carlos Ramos Venâncio, da coordenação de Agroquímicos do Ministério da Agricultura.

Venâncio, porém, apresentou dados que contestam o uso abusivo de pesticidas no país. “Os agrotóxicos representam 30% do custo da produção. Por isso, o agricultor vai querer usar o mínimo possível”, disse.

Além do Paraquat, a Anvisa analisa a possibilidade de banir outros produtos, como o carbuforano, usado no tratamento de sementes ou diretamente no solo, de acordo com Graziela Costa Araújo, representante da agência no debate.

 

 

 

AGROEMDIA

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