No Pantanal, moringa e mandioca compõem ração de galinhas

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Embrapa cria alimentação alternativa para galinhas pantaneiras  – Nicoli Dichoff/Embrapa

O uso de milho e de farelo de soja na ração de galinhas, comum em outras partes do Brasil, é mais difícil no Pantanal de Mato Grosso do Sul. Na área pantaneira, fatores como logística de transporte, chuvas irregulares e ataque de predadores nas lavouras, como periquitos e outros pássaros, inviabilizam a utilização desses insumos. Por isso, a Embrapa Pantanal desenvolveu uma alternativa para facilitar a alimentação dos animais no bioma: a ração feita de moringa e mandioca, que pode substituir cerca de 50% do milho e do farelo de soja da alimentação tradicional, oferecendo bons resultados de engorda a custos menores para pequenos produtores.

Os estudos que levaram ao desenvolvimento dessa alternativa tiveram início em 2013, quando os pesquisadores da Embrapa Raquel Soares e Frederico Lisita discutiram formas de alinhar as necessidades nutricionais dos animais da região aos recursos disponíveis. Os cientistas concluíram que esses alimentos poderiam nutrir as galinhas de maneira semelhante ao milho e à soja. A mandioca é naturalmente cultivada em abundância no bioma pantaneiro; já a moringa tem múltiplos usos: além de nutritiva, pode servir como pasto apícola e apresenta boa adaptabilidade às condições ambientais locais.

O primeiro projeto na área foi realizado através do Agricultural Innovation Market Place, plataforma internacional que viabiliza cooperações de pesquisa entre profissionais brasileiros e da América Latina, África e Caribe. A ração de moringa e mandioca foi testada em Camarões (África) para nutrir galinhas poedeiras criadas em sistema semiextensivo. A produtividade, saúde dos animais e qualidade dos ovos não foram prejudicadas pela substituição, de acordo com Raquel, e o sabor da gema permaneceu semelhante ao dos ovos postos por galinhas alimentadas tradicionalmente. A única diferença estava na coloração da gema, mais forte que a dos ovos comuns.

A pesquisadora ressalta ainda que, com a oferta da ração alternativa em um sistema semiextensivo, é esperado que os animais também consumam leguminosas e insetos ao ciscar, tendo uma maior diversificação alimentar.

A mandioca, acrescenta Frederico, é um alimento energético com baixo custo de produção que oferece os amidos necessários à dieta dos animais, atuando na substituição do milho. Já a moringa, que substitui parte do farelo de soja, é responsável por fornecer proteína à ração – a quantidade da substância pode chegar a 30% nas folhas da planta. Ela também é rica em vitamina C, betacaroteno, fósforo, ferro, potássio e cálcio, sendo inclusive recomendada para mulheres em lactação e para o consumo humano em geral. A moringa possui ainda substâncias antioxidantes, pigmentos carotenoides e pode enriquecer a alimentação de outros animais: equinos, suínos, caprinos e bovinos, ajudando a nutri-los nos períodos de seca.

Agricultura familiar

Ao investigar formas de se processar a moringa e a mandioca para a nutrição animal alternativa, com foco na agricultura familiar, a pesquisa chegou a uma formulação de ração que apresenta eficiência na engorda e aceitação por parte das galinhas e frangos caipiras. O método visa reduzir custos, uso de mão de obra especializada e a necessidade de equipamentos resultando em facilidade na produção. A formulação recomendada atualmente tritura as raízes de mandioca (integrais, com casca) em uma picadeira de forragem. Nesse caso, o produtor pode aproveitar a mandioca mais antiga, que passou do ponto para ser vendida na feira.

“Três quilos de mandioca fresca rendem, em média, um quilo de mandioca seca em pó. Cada galinha, se for criada ´solta´ no sistema, pode comer até cerca de 120g de ração com 70% de mandioca na formulação. Vamos arredondar esse consumo para 100g de mandioca seca por dia consumida por animal. Dessa forma, devemos produzir 300g de mandioca fresca diariamente para que ela se transforme em 100g de material seco. Multiplicando os 365 dias de um ano por 300g, temos um uso de 110 quilos de raízes de mandioca por galinha, anualmente”, esclarece o pesquisador.

Esse material, de acordo com Frederico, deve ser deixado ao sol para secar por cerca de dois dias, dependendo da temperatura, da umidade relativa do ar e do vento. “Deve-se dispor a mandioca triturada no secador solar, bem distribuída, com no máximo dez centímetros de espessura, revolvendo o material a cada duas horas para permitir uma secagem uniforme”, diz.

Quando o material atingir o ponto de feno, com cerca de 15% de umidade, pode ser moído para se transformar em farinha e ser armazenado. “Para saber qual é o ponto de feno, basta pegar parte do material, colocar em um copo de vidro, adicionar um punhado de sal de cozinha e agitar. Se o sal ficar aderido ao feno, significa que ele ainda não está pronto e precisa de maior exposição ao sol. Se o sal não aderir e cair no fundo do copo, o processo está completo.”

Da moringa se utilizam talos finos e folhas, que também são triturados (separados da mandioca) na máquina e secados ao sol para armazenamento – ou fornecidos in natura, à vontade, para os frangos. “Quando o tempo está quente, bastam poucas horas de sol para que as folhas de moringa atinjam o teor correto de umidade”. Se a moringa for destalada (usando apenas as folhas para produzir a ração, sem os talos), não há necessidade de passar o material pela picadeira, afirma Frederico. Nesse caso, é possível deixar as folhas no secador solar e depois triturá-las no liquidificador. “É importante que a ração tenha um alto teor de folhas, já que estas são ricas em proteína”. O ponto de secagem é o de feno, semelhante ao da mandioca, com cerca de 15% de umidade.

Segundo o pesquisador, a ração deve conter 70% de mandioca e 30% de moringa. “No caso de galinhas e frangos do tipo caipira em sistema tradicional [quando as aves são criadas soltas e recebem apenas milho como suplementação alimentar], avalia-se que uma ração composta com essa percentagem contribua no aumento da postura de ovos e na diminuição do tempo de abate, bem como em maior ganho de peso”, assinala o pesquisador.

Ele afirma que essa fórmula de ração alternativa tem potencial para fazer com que o frango caipira atinja seu peso de abate, que fica em torno de 2,5 kg, em cerca de três meses. “Animais alimentados apenas com o milho levam o dobro do tempo para chegar a esse valor”, diz. Frederico ressalta que, depois de pronta, é preciso acrescentar um pouco de água à ração seca e fazer pequenos bolinhos com ela. Dando maior consistência ao alimento, as galinhas caipiras se interessam por ciscá-lo.

Saiba mais aqui.

Da redação, com informações da Embrapa

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