Cotonicultura brasileira é campeã de produtividade sem irrigação

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Foto: Clauber Cleber Caetano/PR

O Dia Mundial da Água não é apenas um momento de reflexão para os cotonicultores brasileiros, mas também uma data comemorativa. Afinal, o Brasil conquistou e mantém o status de campeão mundial em produtividade nas lavouras de algodão em regime de sequeiro, como é chamado o cultivo sem irrigação, conforme a Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa).

Na safra 2016/2017, dos 940 mil hectares plantados com a commodity, apenas 40 mil (4,3%) foram irrigados.  No ranking geral da produtividade, o país ocupa o quarto lugar, com 1,6 mil quilos de pluma por hectare, atrás de Israel, que colheu 1,76 mil quilos, mas irriga 100% das suas áreas; da Austrália (1,74 Kg/ha), onde a irrigação chega a 95%; e da China (1,66Kg/ha), que tem 80% das lavouras dependentes da adição artificial de água.

Segundo o presidente da Abrapa, Arlindo de Azevedo Moura, a cotonicultura brasileira encontrou nas últimas décadas soluções para produzir cada vez mais algodão por hectare, usando apenas a água da chuva. A mais importante delas foi a concentração da cultura no bioma do Cerrado, que tem estações secas e chuvosas bem definidas. “Essa é uma vantagem para o calendário da produção, pois o algodão é plantado e se desenvolve na época das chuvas, ficando a colheita para o período de seca. A agricultura de sequeiro consome não apenas menos água, como também energia”, diz.

De acordo com o pesquisador Eleusio Curvelo Freire, autor de diversos livros sobre o algodão, consultor da Abrapa e coordenador científico do Congresso Brasileiro do Algodão (CBA), um dos maiores mitos sobre a produção da fibra é que ela requer muita água.

“Na verdade, o algodoeiro é uma planta bem resistente à seca e somente precisa de água mais intensamente nos períodos de plantio e florescimento. Depois das maçãs abertas, quanto menos, melhor”, explica o pesquisador. Além de aproveitar estrategicamente as condições naturais para o plantio, acrescenta ele, a cotonicultura brasileira, majoritariamente empresarial, utiliza “variedades tecnológicas de algodão, que, entre outras características, trazem a resistência ao stress hídrico”.

Arlindo Moura salienta que cuidar da água, para o agricultor, é garantir a sustentabilidade, inclusive econômica, além de ambiental. “Não há como uma atividade agrícola perdurar sem água. O mesmo ocorre com o cuidado com o solo, que é um bem limitado, passível de esgotamento. Fazemos rotação de cultura, plantio direto na palha e investimos em tecnologias para diminuir a necessidade de defensivos e para que possamos produzir mais, em menos espaços, sem abertura de novas áreas”, exemplifica.

“Queremos ver nossos sucessores dar continuidade ao trabalho que desenvolvemos e isso só é possível com a conservação do patrimônio natural”, afirma Moura. Ele ressalta ainda que o cumprimento à risca da legislação ambiental e da trabalhista é condição indispensável para o setor algodoeiro, que exporta em torno de 70% da produção. O atendimento às leis e normas é diretamente atrelado também ao crédito agrícola. “E sem crédito a gente não planta”, assinala.

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Foto: Carlos Rudiney Mattoso/Abrapa

Compromisso com a água

O Brasil é o maior produtor mundial de algodão sustentável. Em 2017, aproximadamente, 30% de toda a fibra licenciada pela entidade suíça, de respaldo internacional, Better Cotton Initiative (BCI), saíram de lavouras brasileiras. Desde 2013, a BCI opera em benchmarking com o programa Algodão Brasileiro Responsável (ABR), gerido pela Abrapa e estabelece as diretrizes, além de certificar as boas práticas em sustentabilidade na cotonicultura.

O ABR é resultado de iniciativa desenvolvida pela Associação Mato-grossense dos Produtores de Algodão (Ampa), em 2005, e foi replicado nacionalmente pela Abrapa, a partir de 2009. Só na safra 2016/2017, 76% da pluma produzida no Brasil e 74% da área plantada foram certificadas. No período, o país produziu 1,2 milhão de toneladas de pluma em 682 mil hectares de lavouras.

“Tanto o ABR quanto a BCI têm, como um dos principais itens de exigência para a certificação, o compromisso com a preservação da qualidade da água dentro das propriedades. Nenhum tipo de contaminação é permitido, e o uso dos recursos hídricos nas lavouras de algodão, quando irrigadas, tem de ser racional. Isso coloca os produtores de algodão do Brasil na dianteira do movimento em prol da preservação do meio ambiente e da água”, enfatiza Arlindo Moura.

 

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