Tabela do frete causa prejuízo de R$ 10 bi aos setores de soja e milho em 20 dias

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Foto: Fotospúblicas

Nos 20 primeiros dias de vigência, a tabela de preços mínimos do frete rodoviário causou prejuízo de cerca de R$ 10 bilhões aos setores de soja e milho, segundo a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). O montante, conforme levantamento feito pela CNA a partir de informações recebidas de entidades de várias cadeias do agro e divulgado nesta quarta-feira (20), é resultado da elevação média de 40% no valor do frete.

Ainda de acordo com o levantamento da CNA – distribuído a jornalistas durante a audiência sobre a tabela do frete entre representantes de caminhoneiros e empresários com o ministro Luiz Fux, do Supremo Tribunal Federal (STF) –, em 15 dias de tabelamento 6,8 milhões de toneladas de soja e farelo deixaram de ser levadas aos portos e exportadas.

“Esse volume deixou de ser recebido dos produtores rurais por não haver espaço em silos e armazéns”, assinala o estudo da CNA. No período de 15 dias, acrescenta a nota, 1,9 milhão de toneladas de soja deixou de ser processada. Isso significa que 1,5 milhão de toneladas de farelo e 400 mil toneladas de óleo deixaram de ser produzidos. A nota técnica da entidade enfatiza também que 225 milhões de litros de biodiesel não foram produzidos.

O levantamento aponta ainda que as multas com os navios parados nos portos já passam de R$ 135 milhões no mesmo período.

“Vários integrantes do mercado de grãos têm afirmado que o impasse em relação à tabela do frete vem reduzindo os negócios, na medida em que há aumento de custos”, informa a Agência Reuters.

A agência acrescenta que a chegada de caminhões com grãos aos portos de Santos (SP) e Paranaguá (PR), por onde é escoada boa parte da safra agrícola brasileira, está menor na parcial de junho em meio às discussões sobre o tabelamento de fretes, embora algumas logísticas e negócios pontuais tenham impedido uma retração ainda maior, segundo representantes portuários.

A infraestrutura de recebimento de produtos via ferrovia tem limitado as perdas do setor na exportação, frisa a Reuters.

Diante desse cenário, a CNA defende uma solução rápida para o tabelamento do frete. “Temos um problema emergencial. Estamos com cinquenta por cento da produção parada. Quanto mais tempo passa, maior o prejuízo. Hoje, o impacto é de meio bilhão de reais por dia só na soja e milho. Por isso, a necessidade urgente de solução para esse problema”, pontua o chefe da assessoria Jurídica da CNA, Rudy Maia Ferraz, que representou a entidade na reunião com o ministro do STF.

Abaixo, o levantamento da CNA:

INFORMAÇÕES:

  • Abiarroz: Associação Brasileira da Indústria do Arroz
  • Abiove: Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetai
  • Abrafrutas: Associação Brasileira dos Produtores Exportadores de Frutas e Derivados
  • Acebra: Associação das Empresas Cerealistas do Brasil
  • Cecafé: Conselho dos Exportadores de Café do Brasil
  • CNA: Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil
  • ESALQ LOG/USP: Grupo de Pesquisa e Extensão em Logística Agroindustrial – Universidade de São Paulo
  • Fiep (calcário): Federação das Indústrias do Estado do Paraná
  • IBÁ: Indústria Brasileira de Árvores
  • Sistema Ocepar

 

REFLEXO TABELA DE PREÇO MÍNIMO DE FRETES:

 Portos e Terminais Portuários (15 dias de tabela)

  • 60 navios parados nos portos.
  • Ao custo de demurrage de US$ 25 mil a 35 mil por dia, representa U$S 1,5 milhão a 2,1 milhões de dólares por dia.
  • Em 15 dias de tabela, o prejuízo encontra-se entre U$S 22,5 milhões e U$S 31,5 milhões (ou R$ 84,4 milhões e 118,1 milhões).

 

 

Prejuízo Tabela Frete

DEMURRAGE

Média: R$ 112,5 mil por dia/navio

60 navios/dia: R$ 6,7 milhões

Até o dia da Audiência STF:

R$ 135 milhões (20 dias)

 

 

Soja e Milho

  • Aumento do frete em 51% a 150% (quando não há frete retorno)
  • Aumento do frete 40% (previsão conservadora e quando há frete retorno)

 

 

Prejuízo Tabela Frete

SOJA E MILHO

R$ 0,5 bilhão por dia

Até o dia da Audiência STF:

R$ 10 bilhões (20 dias)

 

 

(15 dias de tabela)

  • 6,8 milhões de toneladas de soja e farelo deixaram de ser levadas aos portos e exportadas. Esse volume deixou de ser recebido dos produtores rurais por não haver espaço em silos e armazéns.
  • 1,9 milhão de toneladas de soja deixou de ser processado, o que significa que 1,5 milhão de toneladas de farelo e 400 mil toneladas de óleo deixaram de ser produzidos.
  • 225 milhões de litros de biodiesel deixaram de ser produzidos.

Os prejuízos financeiros foram estimados em US$ 2 bilhões (R$ 7,5 bilhões), sendo divididos em:

  • US$ 1,3 bilhão (R$ 4,8 bilhões), em frete, assumindo 40% de aumento no valor médio do frete.
  • US$ 675 milhões (R$ 2,3 bilhões), em receitas de biodiesel.
  • US$ 18 milhões (R$ 37,5 milhões), em custo financeiro da perda de receitas.
  • US$ 3 milhões (R$ 11,3 milhões) em multas e redirecionamento de navios.

 

Arroz

  • O transporte de arroz pelas rodovias do país, por exemplo, terá aumento de 35% a 50% no mercado interno e de 100% para exportações.
  • 50% do volume de embarque nos portos encontram-se represados.
  • Aumento do produto para o consumidor final é de 10%.
  • Variação do aumento do frete de 85%, na média, sendo em São Paulo o maior registro (113%).

 

Feijão

  • Transporte com majoração entre 14% a 25%.
  • Varejo fez correções de preços preventivas, em aumentos que variam, na gondola, entre 15% e 20%.
  • Atraso de embarques, cancelamentos de negócios ou ainda renegociação de valores para embarque fora do prazo.

 

Carnes

  • Na indústria de aves e suínos, o impacto do tabelamento sobre o custo do transporte foi calculado em 63%.
  • O frete de rações para alimentar os animais tende a aumentar 83%.

 

Calcário Agrícola

  • Aumento do frete em 30%.
  • Na estrutura de custos o frete do calcário representa 75,2%.
  • O preço final passou a ser majorado em cerca de 21%.
  • Comercialização reduziu em 50%.

 

Café

  • Tabela do frete mínimo aumentou em 100% o custo das empresas com o transporte interno de carga.
  • Na zona da mata, onde há pouca disponibilidade de carretas, estima-se que 80% do fluxo da região esteja comprometido.
  • Dificuldade na entrega de cafés para torrefadores internos situados em regiões distantes, havendo, em alguns casos, solicitação de postergação, além do comprometimento entre 50% a 60% do fluxo para os embarques rodoviários internacionais e de 80% a 90% (frota própria) para o transporte da carga aos portos brasileiros.
  • Embarques foram prorrogados e hoje observa-se grande dificuldade na obtenção de espaços para os containers nos navios, gerando despesas com detention e rollovers de carga para os embarcadores.

 

Floresta, Papel e Celulose

  • Em média, o custo médio de frete foi elevado em 36%.
  • Há uma variação na estimativa de aumento de preço dos produtos para o cliente final:
    • Celulose: 5% a 8%;
    • Papel: 15% a 20%;
    • Produtos madeireiros:  5% a 8%.

 

Fertilizantes

  • 20 dias de paralisação da logística de fertilizantes.
  • Carregamento atual encontra-se em 30% do padrão dos anos anteriores.
  • Carregamentos somente FOB (buscando no porto) e não CIF (indústrias de fertilizantes não estão entregando).
  • 33,0 milhões de toneladas a demanda nacional de fertilizantes:
  • 85% da demanda nacional de fertilizantes está vendida para as cooperativas, revendas e produtores e não há possibilidade de entrega.
  • 70% do fertilizante ainda necessita do transporte.
  • 35 navios parados com fertilizantes (aumento de custos de US$ 5 a 10/tonelada/dia).
  • Depois da paralisação iniciou a cobrança de demurrage (estadia do navio).
  • Não há armazenagem na retaguarda no Porto.

 

Frutas

  • Custo do frete elevado em 30%. As regiões do Nordeste são prejudicadas pela ausência de frete retorno.

 

Outros Prejuízos Estimados:

  • Insumos agrícolas: cerca de 70% são importados e deveriam estar na região produtora à disposição dos agricultores para o planejamento e o início do plantio da safra de verão. Corre-se o risco de grande número de produtores terem que plantar com pacote tecnológico defasado, o que causará menor produção e maiores custos de produção.
  • Armazenagem: o não escoamento da 1ª safra de milho e soja para os portos vai dificultar o recebimento e armazenagem da 2ª safra ou safra de inverno do milho e trigo que estão sendo colhidos (estima-se produção de 10 milhões de toneladas de milho e 3,3 milhões de toneladas de trigo).
  • Preços ao consumidor: aumento nos preços dos alimentos no mercado consumidor como por exemplo no setor de carne de frango (45%) e leite (50%), que serão elevados com o tabelamento.
  • Exportação: perda de mercado para os países mais exigentes em pontualidade e qualidade dos produtos.
  • Renda e empregos: dificuldade de recursos para pagamento dos compromissos, como por exemplo: financiamento junto aos agentes financeiros, pagamento de salários e impostos. Desemprego e fechamento de empresas.
  • Custo de frete: a tabela nos moldes atuais traz um acréscimo médio de cerca de 50% nos valores praticados no mercado antes da paralisação, sem considerar o pagamento do frete de retorno. Afeta contratos já realizados anteriormente com preços fixados com o comprador sem prever o aumento do frete.

 

ESALQ LOG (USP) – EFEITOS DO TABELAMENTO NA ECONOMIA

  • O mercado de fretes do agronegócio – principalmente de produtos de baixo valor agregado e baixa especificidade – tende para uma concorrência perfeita, em função dos produtos serem homogêneos, dada a facilidade de entrada e saída de agentes do mercado, bem como de muitos agentes ofertantes e demandantes de serviços de transporte.
  • A formação do frete tende a considerar uma série de variáveis (tipo de carga, distância, concorrência entre produtos e regiões, peculiaridades diversas), que não necessariamente são computadas no tabelamento.
  • O tabelamento traz uma série de impactos na atual estrutura de mercado, encarecendo o transporte de alguns setores do agronegócio brasileiro, nas análises comparativas dos preços de mercado e dos valores tabelados.
  • O tabelamento gera ineficiências alocativas dos recursos na economia, implicando perda de bem-estar, além de possibilitar a existência de um mercado paralelo.
  • O tabelamento mínimo do frete pode gerar desincentivos à diferenciação do transporte em termos de qualidade do serviço prestado.
  • O tabelamento aumenta a estrutura do preço do frete praticado no mercado, fomentando a verticalização das operações de transporte nas diversas organizações – o que pode contribuir para a redução da demanda do serviço de transporte terceirizado e consequentemente reduzir os níveis de preços de fretes.
  • O custo de transporte depende de uma série de fatores, tais como produtividade operacional, tipo de equipamento e de produto.
  • Nessa linha, é por demais simplista um tabelamento de um setor tão importante da economia que cria uma condição de produtividade operacional igual para todo o tipo de transporte no país, frente às dimensões continentais e heterogeneidade de infraestrutura do Brasil, além dos inúmeros tipos de carga movimentadas.
  • Aumentos nos preços de fretes rodoviários de forma artificial trazem uma série de impactos sistêmicos na economia, inclusive no aumento de preços de fretes de outros modais de transporte, tais como ferrovias e hidrovias – os quais muitas vezes precificam a sua atividade em função de descontos no transporte rodoviário de cargas.

 

 

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