Façam o que digo, mas…

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Waldir Roque é professor titular da Universidade Federal da Paraíba – Arquivo pessoal

Waldir Leite Roque*

Quando um novo ano se inicia as palavras esquecer e renovar se tornam mais presentes e fortes. Uns querem esquecer as mazelas passadas, outros querem renovar as virtudes no futuro, mas a maioria quer mesmo é ambas: esquecer e renovar. Com o renovar surge sempre uma pontinha de esperança de que a vida irá melhorar. O melhorar nem sempre é tornar algo que já era bom em algo muito melhor. No Brasil, muitos já se contentam com melhorar ser simplesmente deixar de acontecer coisas ruins, como a falta de segurança pública, a falta de atendimento médico-hospitalar, a falta de boas escolas, a falta de empregos, a corrupção desenfreada etc etc.

Nos anos em que um novo governo toma posse, a pontinha de esperança, para muitos, torna-se uma gotinha de esperança. Não por se ter uma visão clara das propostas factíveis dos futuros governantes, mas devido à própria natureza humana de querer acreditar que o futuro poderá ser melhor e que um governo sério pode fazer a economia voltar a crescer, gerando empregos e uma melhor distribuição da renda.

O que se quer é que a esperança se torne realidade, pois quem não gostaria de ver o Supremo Tribunal Federal com mais agilidade e coesão na interpretação da Constituição, hoje parece que há uma constituição para cada ministro. Quem não gostaria de ver o Brasil menos burocrático e muito mais eficiente no atendimento ao cidadão, que paga impostos altíssimos sem o retorno condizente, quem não gostaria de ver um Congresso Nacional sem tantas benesses e com políticos honestos, quem não gostaria de ver todos os municípios com elevados índices de desenvolvimento humano. Como tudo parece estar longe de ser realidade, ao invés de uma gotinha devemos mesmo é termos um mar de esperanças por um Brasil melhor.

Jair Bolsonaro elegeu-se presidente da República com votos obtidos não exatamente por mérito como deputado federal, uma vez que não teve, durante os vários anos de mandato, grande expressividade como autor de projetos aprovados, beneficiando a população. Também não se elegeu simplesmente pelos seus discursos acalorados ou por ter como berço profissional as Forças Armadas. Não foi também por exclusividade de ter utilizado as redes sociais para levar a sua mensagem e ideias como plataforma de governo. Certamente todos esses fatores contribuíram para o somatório dos votos que o elegeu, mas uma parcela significativa, e que não está expressa entre as apontadas, foi decorrência do voto de indignação contra os governos do Partido dos Trabalhadores, ou seja, não tinha aderência direta com o candidato.

Já vimos casos anteriores de presidentes que pregavam, durante a campanha, contra a corrupção e marajás, que pregavam contra as forças nefastas do capitalismo, prometeram mundos e fundos e no final sucumbiram pelos seus próprios erros. O governo Bolsonaro não é diferente. Houve promessas para pôr a casa em ordem, fazer a economia crescer, desburocratizar, diminuir a presença do Estado na vida do cidadão e dos setores produtivos (indústria, agronegócio, serviços), acabar com a corrupção em todos os níveis e montantes, seguir ao pé da letra o que diz a nossa Constituição, acabar com o famigerado toma lá- dá cá, mecanismo de favorecimentos e cumplicidades entre o Poder Executivo e os poderes Legislativo e Judiciário, entre outras.

Com vista à consecução dessas finalidades, o Presidente vem implementando todo o arcabouço que imagina fará com que seu programa de governo seja efetuado sem deslizes. O governo tem alegado que é importante a presença de militares de alta patente na direção, em suas palavras no comando, dos órgãos públicos, desde o primeiro escalão até o enésimo escalão para que haja capilaridade e controle efetivo das ordens. Isto vem sendo adotado, ainda sem resultados aparentes, afinal estamos no período dos primeiros 100 dias de governo. Mas quando se trata de um problema que, mesmo marginalmente, está ligado ao próprio Bolsonaro, ou melhor, a familiares, parece que os axiomas não se aplicam. Estamos ainda nas preliminares do governo, porém já há algo incômodo no ar do Planalto e que é melhor que seja esclarecido o quanto antes, pois os eleitores passarão a perceber que a máxima “façam o que digo, mas não esperem que eu faça o que digo” se aplica também a esse governo.

*Prof. Titular da Universidade Federal da Paraíba (UFPB)

 

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