Covid-19: Mais prevenção. Menos pânico

Gil Reis, consultor em agronegócios – Foto: Arquivo pessoal

Gil Reis*

Na pandemia do novo Corona vírus (Covid-19), o mais perigoso para o mundo não é o vírus, mas o pânico disseminado pela grande mídia internacional e pelas mídias sociais, a partir da incompetência da muito bem remunerada Organização Mundial da Saúde (OMS), em um ambiente que não estava preparado para uma “globalização viral”. 

Isolar todos ou não, eis a questão! Este é o mais novo Fla x Flu nacional. O problema é que, enquanto se discute parar ou não o país, está no meio o destino do povo e da nação.

Apesar da polarização, há pontos convergentes entre os adeptos dos isolamentos horizontal e vertical. Ambos são unânimes ao incluir os cidadãos acima de 60 anos e aqueles com doenças pré-existentes no chamado grupo de risco. Risco para qualquer tipo de virose, inclusive a do Covid-19. Logo, devem ficar reclusos em suas casas, asilos, abrigos etc para evitar o contato com as pessoas assintomáticas, potenciais transmissores do Corona vírus.

A unanimidade neste caso não é burra, mas muito lógica, apesar de enfatizarem apenas um argumento, o de preservar o sistema público de saúde, uma vez que os integrantes do grupo de risco, caso adoeçam, serão responsáveis pelo colapso do nosso combalido sistema público de saúde, cuja realidade é enfrentada cotidianamente pelo sofrimento do povo pobre em postos de saúde e hospitais.

Há também um grande componente sentimental embutido na discussão entre isolamento vertical e horizontal. Os cidadãos com mais de 60 anos, em sua grande maioria, são os amados e queridos avôs e avós. Logo, qualquer movimento mais abrupto que ponha em risco a vida deles encontra forte repulsa, o que é mais do que compreensível. Afinal, todos precisam ser protegidos.

Pelo andar da carruagem, o serviço público de saúde somente estará preparado para tal situação em 2021, correndo grande risco de ficar inoperante por falta de recursos públicos.

Os adeptos da horizontalidade levantam a bandeira do isolamento geral dos nossos cidadãos, exceto os que integram o grupo denominado essencial, formado por pessoas autorizadas a correr o risco da contaminação para servir os protegidos. O nó é determinar quais os setores e pessoas são essenciais. A propósito, todas as cadeias de todos os setores da economia desaguam em um mesmo lugar: o consumidor.

Já os adeptos da verticalidade argumentam que o país deve enfrentar a atual virose da mesma maneira que sempre encarou as demais recentemente, diante da realidade do nosso dia a dia. Por isso, alegam que todos os setores são essenciais para a sobrevivência do povo e do país hoje e amanhã.

Os defensores do isolamento vertical também reconhecem as consequências da virose. Dizem que grande parte da população será infectada, que alguns não terão sintomas, que outros adoecerão, de forma mais leve ou mais grave, e que muitos morrerão, como já estão morrendo. Esta é a tragédia de todas as viroses. O único ingrediente novo na atual tragédia é o pânico que tolda o raciocínio do nosso povo e de boa parte dos dirigentes.

Hoje, grande parte dos trabalhadores autônomos brasileiros está sem fazer negócios e os que perderam os empregos sem trabalhar, consequentemente, sem dinheiro para alimentar suas famílias, apesar das medidas alinhavadas desde o mês de março pelo governo federal e que somente agora tiveram a execução autorizada. Tais medida configuram o que já denominei de “Plano Marshal”. Um plano não para recuperar a economia, mas para evitar a sua ruptura.

Soma-se à gravidade da situação, outro problema que atrapalha o atual governo: a herança maldita deixada pelos governos anteriores. Temos uma infraestrutura destroçada para qualquer providência, inclusive para distribuir o dinheiro.

Nesse cenário, o isolamento geral afetou várias cadeias produtivas, inclusive as essenciais, porque o consumo perdeu força, com as restrições à movimentação do consumidor.   Com isso, a aviação ficou com a frota no chão por falta de passageiros, os caminhões começaram a parar por não ter carga para transportar e, em consequência disso, a produção também sofreu redução.

Contudo, há setores que não podem parar, como a agropecuária, responsável pela produção dos insumos mais importante à vida humano: os alimentos. Aliás, a atividade agrícola não parou, reforçando o compromisso dos produtores rurais, e também da agroindústria, com a população brasileira.

Ocorre que a produção agropecuária precisa chegar na ponta, ao consumidor, para fazer a roda da economia girar. E o consumo foi represado pelo isolamento geral, o que está causando um enorme problema socioeconômico, com o aprofundamento do desemprego e da inatividade de milhares de autônomos e micro, pequenos e médios empresários.

Isso está afetando setores como da agropecuária, porque não há quem absorva a produção. No caso da agro, a situação torna-se ainda mais greve porque a cadeia produtiva já convive com outros dois pesadelos: o endividamento rural e a cobrança bilionária do passivo do Funrural, um débito fabricado por uma decisão do Supremo Tribunal Federal (SFT).

Antes que a paralisia forçada de alguns elos da cadeia produtiva também inviabilize os setores que estão produzindo, é necessário que as autoridades federais, estaduais e municipais cheguem a um consenso mínimo para fazer o país voltar a andar. Para tanto, é preciso que os governos federal e estaduais, o Congresso Nacional e o STF resolvam logo suas diferenças para permitir a retomada do consumo.

Em meio à busca de entendimento para voltar à normalidade, espera-se que o governo federal também apresente soluções para o endividamento rural e o passivo do Funrural, porque estes são dois problemas com potencial para afetar o rendimento da produção rural, bem mais que o Covid-19, o que, de fato, representaria uma ameaça à segurança alimentar de nossa população.

Quanto à solução para combater o Codiv-19, não nos esqueçamos: a ciência demora muito mais que a burocracia brasileira, as tramitações de projetos no Congresso Nacional e as decisões Judiciário. Por isso, agora devemos nos valer da experiência heroica dos nossos médicos e enfermeiros que estão na linha de frente.

Lembremos também que a boa alimentação é o melhor medicamento para nossa saúde. É imperioso, portanto, que tenhamos liberdade para trabalhar para poder comprar os alimentos que vão a nossa mesa.

Mais prevenção. Menos pânico. Salvemos o Brasil.

*Consultor em agronegócios

 

 

 

 

 

AGROemDIA

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