Covid-19: Sem vendas, setor de base florestal pode demitir 200 mil empregados

Foto: Gabriel Faria/Embrapa

Com as vendas suspensas e sem perspectivas de retomada do mercado nacional e internacional, devido à crise provocada pela pandemia do novo coronavírus (Covid-19), o setor da base florestal teme perder a safra 2020, que deveria começar em maio. Pelo menos 200 mil empregos diretos gerados na produção de madeira e de outros produtos derivados do manejo florestal sustentável brasileiro estão ameaçados, de acordo com o Fórum Nacional das Atividades de Base Florestal (FNBF).

No Norte do país, as indústrias deram férias coletivas ou cancelaram os contratos dos trabalhadores e armazenam os estoques de matérias-primas e produtos finais, acrescenta o FNBF, entidade que congrega mais de 3,5 mil empresas de todo o país. Nesse cenário, o fórum busca alternativas para evitar a falência de seus associados.

Segundo o presidente do FNBF, o empresário Frank Rogieri de Souza Almeida, o setor está se articulando politicamente nas esferas estaduais e nacional para a aprovação de leis que possam reduzir os impactos da crise financeira provocada pela pandemia.

“Estamos nos reunindo para apresentar uma agenda de propostas que possa dar suporte aos projetos de manejo e às indústrias de todo o país. Suspensão de impostos, linhas de crédito e prorrogação de prazos devem ser apresentados como sugestões”, diz Frank Rogieri.

No momento, observa o presidente da FNBF, o mercado opera com cerca de 10% a 15% do volume de vendas registrado em fevereiro. Neste contexto, assinala, a demissão deverá ser a única a saída para muitas empresas, caso não haja sinalização de reaquecimento do mercado.

“Se não houver a retomada das atividades, não poderemos começar as operações de tora, pois são produtos perecíveis e que não podem ficar parados sem escoamento. Sem matéria-prima, não tem produção e as atividades ficam suspensas.”

Suspensão de contratos de trabalho

Nas indústrias da família Paluchowski, em Sinop (a 500 quilômetros ao norte de Cuiabá), a alternativa foi recorrer à Medida Provisória (MP) 936 para suspender os contratos de trabalho por 60 dias. “Há 30 dias, não embarcamos nada. Nosso pátio tem pelo R$ 1,2 milhão em mercadorias paradas e correndo o risco de estragar. Nossos clientes em São Paulo não têm estimativa de quando vão voltar a comprar”, informa Rodrigo Paluchowski, um dos sócios das três indústrias e de dois projetos de manejo da família que atendem o setor da construção civil.

Em Santarém (município paraense a 1.376 quilômetros de Belém), os 55 dos 75 funcionários do empresário Liceu Veronese receberam férias coletivas. Além de ter as vendas de laminados suspensas, a indústria também deixou de receber pelos produtos já comercializados. “Nossos clientes no Sul do país dizem que pararam de receber e não têm como nos repassar os pagamentos. Dia 6 de maio, os funcionários deverão voltar, mas não sabemos se retomaremos as atividades ou se teremos que demitir.”

Além de não ter para quem vender, o proprietário de uma fábrica de pisos em Alta Floresta (a 820 quilômetros ao norte de Cuiabá), Leandro Serafim, pontua que a indústria estará descapitalizada para iniciar a operação dos projetos de manejo. A fábrica dele operou até esta última semana de abril para cumprir os contratos que já tinham sido faturados para maio.

“Nosso faturamento mensal vai cair consideravelmente a partir de maio.  Como vamos iniciar os projetos assim?”, pergunta o empresário, que dará férias coletivas a mais de 100 funcionários. A empresa de Serafim tem negócios diretos com mais de 35 países.

Números da cadeia produtiva

O setor de base florestal é responsável pela movimentação de 3% do PIB brasileiro e exportou o equivalente a US$ 277 milhões em madeira nativa no ano passado, sem considerar os embarques dos produtos provenientes de floresta plantada.

Apesar do número já ser expressivo, a cadeia produtiva tem grande potencial de crescimento. O país possui 40% das florestas tropicais do mundo, mas produz apenas 10% da madeira nativa e a participação no mercado internacional de madeira nativa é de apenas 2%.

Conforme o Centro das Indústrias Produtoras e Exportadoras de Madeira do Estado de Mato Grosso (Cipem), a madeira oriunda de florestas naturais é a principal fonte de arrecadação de recursos e de criação e manutenção de empregos em muitos municípios da Região Amazônica.

O FNBF é uma entidade criada em 1999 com o objetivo de defender e representar todo o setor relacionado à atividade florestal perante o governo federal, entidades e sociedade de uma forma geral, buscando sempre o devido reconhecimento e desenvolvimento do setor. Tem como missão identificar e discutir questões relevantes que contribuam para o desenvolvimento econômico, social e ambiental do setor de floresta brasileiro.

Atualmente, fazem parte do FNBF 24 entidades sediadas no Acre, Mato Grosso, Pará, Paraná, Rio Grande do Sul, São Paulo, Rondônia e Roraima.

 

AGROemDIA

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