Sanidade animal na produção de caprinos e ovinos: reflexões sobre novos contextos e cenários

Foto: Embrapa

Por Francisco Selmo Fernandes Alves*, Raymundo Rizaldo Pinheiro*, Alice Andriolli* e Samilly Mesquita Alves**

A produção de caprinos e ovinos no Brasil vem criando novas possibilidades de mercados e gerando desenvolvimento. Cada vez mais, a sociedade exige alimentos de qualidade e seguros, o que gera novos contextos, cenários e reflexões quanto aos sistemas de produção dessas espécies, visando à saúde, ao bem-estar animal e à prevenção/controle na transmissão de doenças animal-humano-animal.

Reflexões sobre novos contextos e cenários

No Brasil, os diversos sistemas de produção de caprinos e ovinos para leite e carne são ambientes propícios ao aparecimento de enfermidades de ordem infecciosa, parasitária ou metabólica. Em razão de causas multifatoriais, manejos inadequados, convivência dos animais com outras espécies domésticas e, em alguns momentos, com animais silvestres ou selvagens. Mesmo não sendo possível eliminar todos os riscos dos contatos dos animais no campo e instalações, com as pessoas, outras espécies, da movimentação dos animais por meio de vendas, feiras, empréstimos, trocas e exposições, se faz necessário seguir recomendações de boas práticas agropecuárias como objetivo de prevenir e mitigar o aparecimento das enfermidades, além de outras questões associadas aos animais e de segurança alimentar.

De forma em geral é importante que as instituições orientem para os novos cenários de produção animal e a presença das enfermidades. Como desafios, deve-se intensificar pesquisas na área de sanidade; na relação de doenças com as outras espécies e a saúde pública; a capacitação da assistência técnica e extensão rural; a presença de novas enfermidades e suas complexidades com o meio ambiente; a atuação das agências estaduais e escritórios locais; o controle de trânsito de animais; a inspeção de produtos de origem animal e a vigilância epidemiológica. Como também o apoio aos técnicos de campo em agropecuária e veterinária atuando com conhecimentos adequados e procedimentos padrões em sanidade animal de caprinos e ovinos, com o objetivo de reduzir o risco de transmissão de doenças por contato animal-humano-animal nos ambientes, entre pessoas e produtos alimentares.

Por isto, e de forma em geral, a sanidade e as doenças dos caprinos e ovinos deverão ser mais estudadas e pesquisadas nas diferentes regiões e ambientes do Brasil. Os métodos de diagnóstico, prevenção e controle devem ser aprimorados frente aos novos desafios impostos pela pressão por produtividade, com vista a ampliar a base do conhecimento e entender as inter-relações com outras enfermidades e vetores, entre animais e os seres humanos.

Em relatório sobre epidemias emergentes, a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) chama a atenção para as doenças de origem animal e os seres humanos, as zoonoses, cujo índice de transmissibilidade é de 75%, sendo algumas regiões no Brasil propícias ao aparecimento de novas e potenciais enfermidades conforme questões climáticas, ambientais e sociais.

Segundo a OIE (2020), algumas doenças de origem animal que podem ser transmitidas ao homem, como gripe aviária, raiva, febre do Rift Valley e a brucelose, representam riscos mundiais para a saúde pública. Outras doenças que são transmitidas principalmente de pessoa para pessoa, também circulam em animais ou têm um reservatório de animais e podem causar sérias emergências de saúde, como a recente epidemia do vírus Ebola. Hoje,  estima-se que 60% das enfermidades infecciosas humanas são zoonoses; cinco novas doenças infecciosas humanas aparecem todo ano e destas três têm animal como origem; 80% dos agentes com potencial bioterrorista são patógenos zoonóticos; e 75% das doenças infecciosas humanas emergentes (incluindo COVID-19, Ebola, HIV e influenza) têm um animal como origem.

O fato requer atenção por parte de todos, pecuaristas, produtores e técnicos para a realização de constante inspeção e avaliação dos rebanhos frente aos novos cenários mundiais quanto às doenças emergentes e reemergentes. Atenção em observar animais com manifestação clínica (sintomático), e os assintomáticos, além daqueles que apresentem duas ou mais enfermidades, infecções conjuntas denominadas coinfecções.

Múltiplos fatores aumentam a probabilidade de transmissão das doenças em animais, pela questão do manejo sanitário inadequado, presença de hospedeiros, dos pastos, alimentos e água contaminados ou por falta da conscientização e comportamentos das pessoas sobre o risco das doenças.

Diante dos cenários e contextos quanto ao aparecimento e formas de transmissão das doenças no mundo atual, alguns procedimentos padrões fundamentais para a produção de caprinos e ovinos com objetivo da prevenção e controle de enfermidades podem ser observados, como atos simples de limpeza e higiene das pessoas e do ambiente, um programa de manejo sanitário e a supervisão rigorosa das atividades na propriedade e rebanho podem mitigar a transmissão/infecção de patógenos aos animais e melhorar as condições de saúde dos rebanhos. Além de incorporar nas propriedades, com apoio das instituições de assistência técnica, as boas práticas agropecuárias servindo como guia e plano de trabalho em sanidade animal.

O aparecimento de novas doenças e suas relações entre homem-animal-homem é uma realidade no mundo atual e requer estudos na identificação dos microrganismos, sua sobrevivência e viabilidade no ambiente, a virulência nas diferentes espécies/hospedeiros e a detecção precoce por meio de testes de diagnóstico rápidos e sensíveis, além da produção de novas vacinas, no sentido de se antecipar às perguntas e investigar o futuro.

A avaliação e validação das novas ferramentas, medicamentos, insumos e abordagens técnicas de manejos nas espécies animais, uso da inovação da informação como instrumento de articulação e cooperação com as instituições de pesquisa, ainda deve ser intensificada. Para isto, a busca em experiências e parcerias estratégicas nacionais e internacionais são importantes frente aos novos cenários e desafios em sanidade animal, em vigilância epidemiológica e para a defesa sanitária. Atenção deve ser intensificada quanto ao estudo e simulações de risco da entrada de patógenos emergentes e reemergentes em nosso País, bem como de eventos sanitários e monitoramento de ações relativas ao bioterrorismo aplicado aos animais. Diante dos fatos, novos cenários e contextos para os sistemas de produção de caprinos e ovinos no Brasil, devem ser mais discutidos e pesquisados.

Literatura consultada

CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION. Compendium of Measures to Prevent Disease Associated with Animals in Public Settings, 2009 – National Association of State Public Health Veterinarians, Inc. (NASPHV).

Disponível: https://www.cdc.gov/mmwr/preview/mmwrhtml/rr5805a1.htm, Acesso: 2020.

OIE. One Health. https://www.oie.int/en/for-the-media/onehealth/. Acessado em: 15 de abril de 2020.

*Francisco Selmo Fernandes Alves, Raymundo Rizaldo Pinheiro e Alice Andriolli são pesquisadores em sanidade animal da Embrapa Caprinos e Ovinos

**Samilly Mesquita Alves é doutoranda em melhoramento genético – Universidade Federal do Ceará

 

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