Pandemia: Relato sobre os dias confinamento

Gil Reis é consultor em agronegócio

Gil Reis*

Eram precisamente 23h45h quando atendi a ligação do João Carlos Rodrigue, um amigo que comanda um dos melhores veículos de comunicação dedicado ao agro, o AGROemDia, para a nossa conversa diária de troca de ideias e que ocorre normalmente no final da noite e início da madrugada.

Depois de algumas ideias, onde abordamos todo o tipo de assunto relacionado ao agro e política nacional, ele me disse: “Gil, tens me contado sempre como tem sido o teu dia a dia de confinado e creio que precisas escrever a respeito”. Pronto. Comprei de imediato a ideia que é a gênese deste artigo.

Tenho 73 anos e sou do grupo de risco, tanto pela idade como pelo fato de ser um fumante que não tem a mínima vontade de desistir do vício. Todos precisam entender que não se chega nesta idade impunemente, acumulamos perdas e ganhos e creio, sem falsa modéstia, que o meu saldo de ganhos tem sido muito superior às perdas.

Minha formação até a universidade foi toda através das excelentes escolas públicas do passado e a cultura foi adquirida, principalmente, em alguns milhares de livros físicos, em viagens pelo Brasil e exterior, além dos debates com pessoas competentes e inteligentes.

Sou um dos confinados privilegiados, diretor acionista de uma excelente empresa e executivo de uma associação nacional de empresas extremamente competentes e sérias. Todas as atividades que exerço são consideradas essenciais, e o trabalho “home office” tem sido uma realidade há mais de uma década.

Mantenho o meu confinamento não por ser do grupo de risco ou por recomendações da “ciência” ou ainda porque o governador do Pará, estado onde tenho a minha residência permanente decretou “lockdown” e sim por medo, primário e irracional do contágio. Vejam bem, apesar do meu nível cultural e de minhas crenças ou falta delas tenho MEDO, fico imaginando como será o recomeço das atividades normais, o tal normal que não tenho nem ideia de como será e quanto tempo levará para chegar.

Pior que o vírus, que é uma pandemia, é a epidemia da “praga do medo, disseminada a nível planetário através de todos os meios de comunicação possíveis e imagináveis, até filmes, uma verdadeira “Guerra Mundial Z.

Há anos, frequento Brasília semanalmente de segunda a quarta-feira para tratar da defesa de assuntos do agro e estou privado disso. Não adianta dizerem que as videoconferências substituem as reuniões e os debates físicos porque não substituem, são um arremedo de substitutivo. Para onde foram as interações pessoais, o “olho no olho”, as conversas de corredores e bastidores? Este é um dos maiores prejuízos do confinamento, mas não pensem que desdenho das videoconferências. “Quem não tem cão caça com gato”. Elas são extremamente necessárias na falta de outro instrumento.

Meu falecido, saudoso e inteligente pai dizia: “Se fecham mais negócios em uma mesa de bate papo do que em escritórios, a interação pessoal, a informalidade e o olho no olho tornam as conversas mais verdadeiras e produtivas.

Outro sentimento que nos acomete é a saudade da presença pessoal dos amigos e dos lugares onde fizemos as amizades. Tenho grandes amizades em boa parte do Brasil e do mundo. Temos que enfrentar, além da mesmice do dia a dia, não que não haja muito trabalho. Ao contrário. Mas, neste confinamento, descobre-se que o sábado e o domingo perderam o fascínio, não há contrastes, tudo o que se fazia nestes dias deixou de se fazer, tornaram-se dias iguais a todo os outros. O que se ganha é realmente mais tempo para reflexões.

Há hoje uma supervalorização da ciência. Como advogado, sei que uma das grandes fontes jurídicas é o Direito Consuetudinário, o costume. A humanidade tem milhares de anos de experiência e experimentações em todos os assuntos que envolvem a vida, a ciência se originou a partir desses conhecimentos que estão sendo desprezados hoje.

Ainda é muito recente a queima em praças públicas de mulheres chamadas de “bruxas” por praticarem medicina caseira e de cientistas por contrariarem dogmas de religiões. Não devemos desprezar os conhecimentos científicos, contudo, sem desmerecer o conhecimento dos homens e mulheres que praticam a medicina no dia a dia cuidando dos doentes e observando as suas reações, muitas vezes, com o preço da própria vida”.

Há muito que precisa ser feito ainda para a construção de um novo Brasil que almejamos, mas o que mais me incomoda e me causa angústia é ter perdido a mobilidade. Não posso ir às ruas lutar nos mais diversos ringues para a conquista de meus objetivos pessoais e do agro. O país precisa de nós e de nossa luta diária em todos os seus rincões.

A maior dificuldade no confinamento, para alguém que não é afeito, é a prática de exercícios físicos e o maior sacrifício é o controle da boca, a fome que o isolamento provoca é imensa.

Enquanto estou confinado, a minha bandeira maior que é a extinção de uma realidade criada pela declaração absurda de constitucionalidade do Funrural pelo STF, por uma pífia maioria de 6 a 5, originando um passivo retroativo biliardário para produtores e adquirentes, desmentindo e tornando sem efeito duas decisões anteriores unânimes do pleno daquele tribunal que declaravam tal contribuição social inconstitucional, o que foi confirmado depois, como preceitua a Constituição, pelo Senado Federal através da Resolução n° 15.

Na área da economia, basta um pouco de bom senso das autoridades que a comandam, se realmente quiserem uma rápida recuperação do país basta olhar mais para o agro, pois os produtores e fornecedores da cadeia de alimentos não foram atingidos pela “síndrome do medo” e continuam trabalhando heroicamente e alimentando nosso povo e ¼ da população mundial!

As nossas autoridades têm que perceber que o binômio saúde/economia precisa andar juntos sob pena de consequências apocalípticas. No caso do fim dos confinamentos e o recomeço de todas as atividades se fará necessária uma enorme campanha para eliminar o medo da população, sob pena de levarmos de seis meses a um ano para que se estabilize a economia. O povo não voltará ao trabalho por puro medo.

*Consultor em agronegócio

AGROemDIA

O AGROemDIA é um site especializado no agrojornalismo, produzido por jornalistas com anos de experiência na cobertura do agro. Seu foco é a agropecuária, a agroindústria, a agricultura urbana, a agroecologia, a agricultura orgânica, a assistência técnica e a extensão rural, o cooperativismo, o meio ambiente, a pesquisa e a inovação tecnológica, o comércio exterior e as políticas públicas voltadas ao setor. O AGROemDIA é produzido em Brasília. E-mail: contato@agroemdia.com.br - (61) 99244.6832

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