Instabilidade cambial preocupa exportadores e pode ter impacto na inflação

Ivanir José Bortot, jornalista especializado em finanças públicas e macroeconomia

Ivanir José Bortot*

O Banco Central (BC) tem sido no mínimo negligente em sua política cambial. A volatilidade cambial com variações diárias de 1% a 2% para cima ou para baixo tem provocando muita dor de cabeça aos exportadores e importadores. Se as pessoas errarem de mão nestas operações, poderão arcar com um prejuízo equivalente à inflação de um ano, trazendo consequências para rentabilidade do seu negócio.

Sem falar que o câmbio tem papel fundamental na formação de todos os preços da economia e na relação de trocas entre o Brasil e o exterior. De fevereiro a junho de 2020, o dólar passou de R$ 4,20 para R$ 5,30. Um remédio, um insumo agrícola, matérias-primas e industriais estão cada vez mais impactados pela valorização do dólar. É verdade que quem está ganhando neste momento é o exportador, mas esta valorização do dólar terá reflexo no comportamento da inflação.

O presidente do BC, Roberto Campos Neto, disse há poucos dias que ainda não há uma causa clara para as oscilações e desvalorização do real. Sem um diagnóstico preciso, fica difícil a autoridade atuar no mercado para acabar com essa volatilidade.

Mesmo sem saber os fundamentos, a autoridade monetária deveria seguir o mercado, que atua na lógica da oferta e da procura. É simples: se está faltando dólar no mercado e o preço está subindo, a área de câmbio do BC deveria entrar vendendo papel moeda ou fazendo operações com seus papéis cambiais. Se estiver caindo muito, entra comprado.

O nível de reservas internacionais atual do Brasil, de US$ 350 bilhões, divisas a custos elevados para fazer frente a crises econômicas como esta da covid-19, deveria ser usado para conter as especulações do mercado. São recursos que deveriam ser usados para honrar compromissos externos e evitar que este tipo de especulação cambial que vem ocorrendo seja mais um fator de insegurança aos agentes econômicos, empresários e consumidores.

O ministro da Economia, Paulo Guedes, chegou a dizer que a venda de US$ 70 bilhões poderia ser realizada para abater parte da dívida pública federal, sem que isso deixasse o Brasil vulnerável em suas reservas. O preço de hoje, a venda destes dólares, que foram comprados a um preço muito mais baixo pelos bancos centrais, sem falar no lucro da operação, daria para o Tesouro Nacional abater pelo menos RS$ 35 bilhões.

Estudos internos feitos pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) em 2019 indicavam que o Brasil poderia vender até U$ 150 bilhões sem comprometer a capacidade do país honrar seus compromissos externos. A regra é de que um país precisa ter reservas internacionais equivalente a 12 meses de suas importações.

Tudo indica que a autoridade monetária tem evitado fazer operações mais fortes no mercado de câmbio, não por desconhecer os fatores que têm provocado depreciação do real, mas sim pelo temor dos reflexos na sua política monetária. É que neste momento em que o BC está ampliando a oferta de dinheiro na economia para amenizar os efeitos da covid-19, a venda de moeda estrangeira implicaria na retirada de reais do mercado, o que provocaria uma contração da base monetária.

*Jornalista formado pela UFRGS, com pós-graduação em jornalismo econômico pela Faculdade de Economia e Administração (FAE/PR), ex-editor-chefe Agência Brasil, ex-repórter e editor sênior da Gazeta Mercantil e ex-repórter da Folha de S.Paulo

 

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