Trigo no Ceará, a mais nova surpresa da agricultura brasileira

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Uma parceria entre a iniciativa privada e a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) possibilitou a primeira colheita de trigo no Ceará. Foram colhidas cerca de 9 toneladas do cereal, com uma produtividade de 1,6 t por hectare. O resultado da iniciativa, ainda em fase experimental, surpreendeu, já que muito consideravam improvável que a cultura se adaptasse ao solo cearense.  

“Um marco histórico para a economia do estado e para o nosso trigo e derivados. Tivemos alguns desafios, como adaptar a plantadeira e colheitadeira, buscamos fertilizantes e remédios próprios para trigo, mas podemos dizer que foi um sucesso, não só pela produtividade, mas também pelo curto prazo de duração do plantio até a colheita”, disse o produtor Alexandre Salles.

A ministra Tereza Cristina (Agricultura) destacou que o país trabalha para voltar a ter uma área plantada de trigo expressiva e ressaltou a importância das novas tecnologias para agropecuária brasileira. “O Brasil está produzindo trigo no Ceará, com alta produtividade, superando até lavouras do Sul. Isso mostra que precisamos estar mais antenados à modernidade das novas tecnologias para vários produtos que podemos usar internamente e, ao mesmo tempo, gerar superávit para nossas exportações.”

Uma das vantagens da produção cearense foi o tempo curto entre o plantio e a colheita. O ciclo de produção no Ceará teve uma duração de apenas 75 dias, enquanto nas principais regiões produtoras do Brasil o ciclo vai de 140 a 180 dias.

O resultado obtido nessa primeira experiência permite prever uma colheita maior nos próximos anos. “Temos um potencial de crescimento muito grande, porque se trata de um trigo de excelente qualidade, desenvolvido pela Embrapa”, afirmou Salles.

O produtor aponta ainda que a produtividade obtida no Ceará se mostrou superior à da Região Sul, que gira em torno de 2,4 toneladas por hectare, e pouco abaixo da alcançada no Centro-Oeste, de cerca de 5,5 t por hectare.

Agora, enfatizou Salles, o plano é fazer alguns ajustes, expandir a área e tipificar novos produtos da cadeia do trigo. Ele assinalou ainda que deve continuar fazendo novos experimentos em outros estados, como o Maranhão e o Piaui.

Apoio da Embrapa favorece avanço do trigo no Ceará

A Embrapa Trigo, Embrapa Agroindústria Tropical e o Instituto Federal do Ceará realizaram os primeiros experimentos de cultivo no Ceará, em 2019, para analisar a viabilidade de produção do cereal no estado, considerando as condições de solo e clima.

A pesquisa realizou os primeiros experimentos com quatro variedades de cultivares BRS264, BRS254, BRS404 e BR18 para analisar a época mais adequada para semeadura, comportamento das cultivares, o ciclo e incidências de doenças e pragas.

Foram realizados pequenos ensaios exploratórios em dois municípios do Ceará, numa região de baixa altitude e outra de alta altitude para avaliação das cultivares. “O primeiro resultado foi excelente, o ciclo se fechou em 75 dias e as cultivares que tiveram melhor performance foi a BRS264 e BRS404, mostrando que o trigo tinha ampla adaptação para ser cultivado no Nordeste, principalmente no Ceará”, destacou Osvaldo Vasconcellos, chefe-geral da Embrapa Trigo.

A fase experimental será expandida com a introdução de outros materiais que ainda estão sendo pesquisados pela Embrapa. Assim que essa etapa for concluída, esses materiais serão selecionados e testados em diferentes mercados para estudar a viabilidade para atender a indústria moageira. Com isso, poderão ser gerados produtos cultivados que sejam adaptados para biscoito, macarrão, trigo branqueador e panificação.

“O resultado foi muito promissor, o que deu um grande ânimo à Embrapa, porque vemos que os estados do Nordeste, que têm altitude acima de 600 metros como o Piauí, Ceará, Alagoas e outras partes dessa região, apresentam boa aptidão e têm condições de luminosidade e de temperatura que atendem à demanda da produção de trigo”, comentou Vasconcellos.

Hoje, o Nordeste importa quase 100% do trigo que consome, proveniente da Argentina, Uruguai, Estados Unidos, Canadá e Rússia, além de comprar de outras regiões do Brasil. Com os resultados obtidos no Ceará, o Brasil pode equilibrar a balança comercial do trigo, acrescentou ele. A Embrapa já está realizando pesquisas experimentais em Alagoas e pretende expandir os estudos para os estados de Pernambuco, Piauí e Maranhão.

 

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