Crônica: Aposentar? Eis o dilema

Zé Tito Matos*

Contei o meu tempo: 44 anos de trabalho ininterruptos. Aposentar ou não me aposentar? Eis o dilema. Fazer o que depois? Dormir o sono dos justos? Ver filmes? Ouvir românticas músicas? Viver dentro de minha humilde biblioteca?  Jogar gamão com o vizinho? Brincar com os netinhos? Comprar uma aprazível área às margens do Rio Preto e me tornar um parceiro da natureza? Viajar pelo mundo? Afinal, o que se gasta em viajar se ganha em viver. Colaborar vez, por outra, com algum site voltado para o agronegócio, como o AGROemDIA? Oh, céus! Quanta dúvida.

Consulto os amigos aposentados para saber como eles preenchiam o tempo todos os dias: Dante França, Zezi Paes Landim, Denilton Teixeirense, Isac Leitão, Mancuso, Ataíde, os irmãos Elisio e Job Brasileiro. Cada qual tinha o seu modo de vida; adaptaram-se.

Qual seria, então, o meu ponto de partida? Machucava-me o receio de uma vida ociosa, “enferrujada”. Complicado viver com o desconhecido. A solidão me apavora. Passei dias, semanas e meses de reflexão, uma luta interna, para não me arrepender da decisão tomada. E o medo de não ser mais útil, mesmo dispondo de tanto tempo e vigor, eis que na utilidade sempre busquei um lugar de protagonismo. Esse novo começo chegava às vezes a me atormentar. Um certo dia, acordei decidido: vou-me aposentar e torcer para que não se esqueçam de mim. Aposentei-me.

Foi aí que decidi frequentar uma escola de filosofia. Foi na Nova Acrópole que aprendi com Epicuro que “nada vem do nada”. Nesse estabelecimento de ensino, fiquei sabendo que Sócrates sofreu com os maus tratos de sua esposa, que, de tão malvada, tornou-se inspiração de Shakespeare para A megera domada. Nem vou falar do amor platônico: “O amor é uma doença mental, séria”.

Numa das suas belas aulas, a professora Cristina nos explicava que, filosoficamente, pode-se afirmar que existe vida num pequeno grão de areia. Foi aí que levantei uma filosófica questão: “Professora, quando eu estiver com os meus amigos de copo e de cruz em torno de uma mesa de bar e revelar, com convicção, que pode existir, sim, vida num grão de areia e eles se apressarem em me internar numa clínica de saúde mental, como devo me proceder?” Todos os colegas da classe caíram na gargalhada, inclusive a afável professora. E a aula se encerrou aí, filosoficamente.

*Jornalista, ex-assessor de imprensa do Mapa, da FPA, da Comissão de Agricultura da Câmara dos Deputados, da Conab e da extinta CFP

AGROemDIA

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