Superação da insegurança alimentar exige bom senso dos governantes

Gil Reis*

Antes de abordar a falta de segurança alimentar, um tema caro a todos nós, é necessário que conheçamos os problemas mais sérios que assolam o planeta, afirmou Adriano Villa em artigo publicado no site Grupo Escolar, antes da pandemia.

Chega a ser algo digno da ficção cientifica, ainda mais neste mundo atual, quase que completamente globalizado pelos recursos tecnológicos, mas, acreditem ou não, o planeta tem cerca de 2,2 bilhões de pessoas vivendo na pobreza. Se não vivem completamente, estão quase chegando a essa situação, segundo relatório de um programa de desenvolvimento das Nações Unidas.

Essas análises são feitas justamente para avisar à sociedade sobre as vulnerabilidades que acabam frustrando as possibilidades de melhorias das condições de vida a nível global. Conforme o relatório, em 91 países, cerca de 1,5 bilhão de pessoas sofrem com a pobreza multidimensional, ou seja, passam por privações de necessidades básicas e comuns, como por exemplo saúde, educação e as próprias necessidades básicas.

Para quem não sabe, esse relatório, produzido pelo PNUD, é calculado mediante a mortalidade infantil, escolaridade, nutrição, alojamento, água potável, eletricidade, saneamento e diferente de outros indicadores baseados na renda. Desmembrando os números, cerca de 842 milhões de pessoas passam fome e 800 milhões correm o risco de se tornarem pobres, mesmo com os esforços das Nações para reduzir este número. Além dessa problemática, cerca de 1 bilhão de pessoas trabalham de maneira precária e sem ter um sistema de previdência ou seguro-desemprego.

Essas informações mostram uma queda drástica no desenvolvimento humano em todas as regiões. O PNUD, tentando encontrar uma resposta para essa situação, afirma que tais índices são resultados diretos das crises financeiras, da oscilação dos valores dos alimentos, dos conflitos que alguns países vivem e também de desastres naturais.

O PNUD reivindica o direito de todo ser humano de ter os serviços básicos para uma vida melhor, tanto nos países desenvolvidos quanto nos em desenvolvimento. O objetivo é aumentar a força dos grupos mais vulneráveis às crises. O PNUD também chama a atenção dos governos para que tentem criar meios que tragam de volta a possibilidade de empregos, algo já elaborado nas décadas d 1950 e 1960, mas que acabou ficando esquecida logo após a crise do petróleo.

Matéria divulgada pela agência de notícias EFE, em 19/11/2020, comentando relatório da ONU, traz mais informações sobre a pobreza no mundo em consequência da pandemia:

A pandemia de covid-19 e a crise econômica gerada pelo novo coronavírus farão com que mais 130 milhões de pessoas cruzem a linha da pobreza extrema em 2020 e 2021, o que resultaria no primeiro aumento, desde 1998, da porcentagem da população mundial que vive nestas condições, segundo um relatório das Nações Unidas divulgado nesta quinta-feira (19). Se em 2018 a proporção da população mundial vivendo situação de extrema pobreza, com menos de US$ 1,90 (cerca de R$ 10) por dia, era de 8,6% (cerca de 650 milhões de pessoas), até o final deste ano pode alcançar 8,8%, de acordo com a projeção apresentada pela Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad). O relatório, que prevê um impacto muito mais duradouro da crise econômica do que da sanitária, estima que quase 70 milhões de pessoas passarão a viver na pobreza extrema até o final de 2020, e que outras cerca de 60 milhões o farão em 2021. A Unctad prevê uma retração de 4,3% do PIB mundial para 2020, projeção semelhante à do Fundo Monetário Internacional, que em outubro estimou uma queda de 4,4%, ambas inferiores à divulgada pelo Banco Mundial em junho (-5,2%).

Diante destas informações, fica muito claro que a maior causa da insegurança alimentar é a pobreza. O raciocínio é muito simples: não se trata pura e simplesmente de falta de alimentos. O fator que agrava a situação é falta de acesso aos alimentos. Atrevo-me a dizer que os grandes problemas que hoje envolvem o planeta são a campanha para restringir a produção agropecuária e a falta de acesso aos alimentos que garantem a vida de qualquer ser humano.

No caso do Brasil, problema que conheço mais de perto, o que não significa que tal problema não ocorra nos países em desenvolvimento que produzem alimentos, os parâmetros que nos estão sendo impostos, baseados em relatórios no mínimo esdrúxulos do IPCC da ONU, voltados para os nossos territórios com nítida vocação para a expansão da produção nacional. O objetivo de “brecar” a ampliação da produção e desenvolvimento do nosso país está bem transparente e explícito.

Vejamos, em um mundo não polarizado, pelas teses absurdas do IPCC da ONU, como o que vivemos hoje, as regras para a produção de alimentos deveriam ser pura e simplesmente de caráter sanitário e fitossanitário. O que deveriam ser enfatizadas seriam as regras de alimentos saudáveis, o que não é nenhuma novidade, porquanto já existe o precedente no regramento da OMC, voltado para a exportação de alimentos, não permitindo qualquer outro tipo de barreira. Regramento este que alguns países insistem em não cumprir, criando barreiras adicionais, como forma de manter a liderança no mercado internacional e outros claramente pretendendo reduzir o crescimento populacional, eliminando os mais pobres pela fome.

Paralelamente às novas regras criadas para a produção de alimentos, produzem efeito cruel e imediato de aumento do custo da produção agropecuária, redundando na alta dos preços. Aí está a maior causa da falta de acesso dos mais pobres aos alimentos.

Por isso, é preciso que os governos, em todos os níveis, admitam uma verdade inatacável: governos produzem apenas políticas públicas e cobram impostos. Quem produz riquezas, desenvolvimento e empregos é a iniciativa privada. Assim, a fórmula, que não é mágica, para reduzir os custos da produção, a carestia e o desemprego é incentivar o crescimento do setor privado no campo e fora dele. Dessa forma, o país começará a trilhar o caminho do desenvolvimento acelerado e as pessoas deixarão a condição de pobreza extrema e passarão a ter acesso aos alimentos.

Não existe fórmula mágica para reduzir a insegurança alimentar e a fome. Basta bom senso dos governantes.

*Consultor em agronegócio

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do AGROemDIA

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