O inferno astral do agro brasileiro

João Carlos Rodrigues*

O agronegócio brasileiro vive dias de inferno astral no mapa do comércio global, com prognósticos pouco alentadores. Mais por pressão da concorrência que por influência do movimento dos astros, na leitura de uma astróloga que sempre teve afeição pela agropecuária e hoje busca momentos de paz na cada vez mais ameaçada Chapada dos Veadeiros, um dos santuários ecológicos do território goiano fortemente castigado por queimadas, muitas delas criminosas.

A crise econômica provocada pela pandemia da covid-19 e as mudanças climáticas criaram um cenário de incertezas e acentuaram as preocupações ambientais. Isso tem levado países e blocos desenvolvidos a rever suas políticas para retomar o crescimento. Nessa moldura, o protecionismo das nações mais ricas abandonou o diálogo e voltou a usar armadura para tentar superar as dificuldades internas e responder aos apelos em defesa do planeta.

Na sua eterna sina de nação em desenvolvimento da América Ibérica, o Brasil viu o seu agronegócio crescer nas últimas quatro décadas, mas se tornou refém do comércio de commodities agrícolas. Se por um lado ganhou o status de potência agrícola, sendo apontado como celeiro para elevar a produção e garantir a segurança alimentar da humanidade nos próximos anos, por outro o país entrou no radar da concorrência, que não quer perder mercados.

Soma-se à disputa essencialmente comercial a questão ambiental. A expansão da atividade agropecuária no Cerrado e na Amazônia Legal, que sempre foi alvo de críticas de movimentos ambientalistas – alguns apoiados por concorrentes mais interessados em travar o avanço do Brasil no contexto global que em proteger o meio ambiente –, ganhou ainda mais força com a intensificação dos efeitos das mudanças climáticas. Como se isso não bastasse, o país tem sido pouco eficiente em mostrar ao mundo o efetivo cumprimento de suas políticas de proteção ambiental.

Tais circunstâncias atraíram, nos últimos dias, fluidos negativos para o agro brasileiro. A Comissão Europeia, por exemplo, apresentou, na quarta-feira (17), projeto para restringir as compras de commodities agrícolas procedentes de áreas de desmatamento e degradação florestal, o que pode ter impacto sobre produtos exportados pelo Brasil, como soja e carne bovina.

Na esteira da proposta europeia, surgiu o pedido da Associação de Produtores de Carne dos Estados Unidos (NCBA) para que o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) barre a entrada da carne brasileira naquele mercado. A NCBA alega que o Brasil demorou mais de oito semanas para comunicar à OIE (Organização Mundial de Saúde Animal) dois casos atípicos da doença da vaca louca ocorridos em MG e MT.  Conforme a NCBA, a comunicação deveria ter sido feita em 24 horas.

Sob argumentos sanitários e ambientais, europeus e estadunidenses revigoram nestes tempos de pandemia suas políticas protecionistas. Caso consigam levar adiante tais propostas, certamente vão frear o consumo de produtos do agro brasileiro em seus mercados. A Confederação da Agricultura do Brasil (CNA) e a Sociedade Rural Brasileira (SRB) repudiaram imediatamente os recentes movimentos dos EUA e da UE, considerando-as uma ameaça aos pilares do comércio internacional.

Reverter as inclinações protecionistas de europeus e norte-americanos exigirá do Brasil mais que indignação. Será preciso fortalecer as ações diplomáticas para afastar os maus presságios, que se anunciaram no início de setembro, com os dois casos atípicos da doença da vaca louca em MG e MT, o que levou o governo brasileiro a interromper as exportações de carne bovina para o mercado chinês, como prevê o acordo sanitário entre os dois países. Desde então, a China não retomou as compras do produto, embora a OIE tenha assegurado que os dois casos não representam risco à saúde humana.

A demora da China em dar uma resposta às informações enviadas pelo Brasil sobre a sanidade da carne bovina não mostra apenas o cuidado das autoridades daqueles país com os produtos que importam. Indica também que a garantia dada pela OIE sobre a sanidade de carne brasileira, em relação aos dois casos atípicos de vaca louca, não teve até agora qualquer peso na avaliação chinesa. Isso expõe o enfraquecimento dos organismos multilaterais na resolução de questões sanitárias, comerciais e ambientais.

A exemplo da OIE, a Organização Mundial do Comércio (OMC) igualmente se enfraqueceu nos últimos anos, o que anima europeus e norte-americanos na empreitada de reerguer barreiras ao comércio agrícola global, com o Brasil sendo um dos primeiros a entrar no foco dos concorrentes. Agora é a hora de o governo fazer valer o seu lema “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos” para afastar as nuvens carregadas que pairam sobre o agro brasileiro. Só ficar esperando por mudanças de posições no mapa do zodíaco não resolverá.

*Jornalista, editor do portal AGROemDIA

 

 

 

 

AGROemDIA

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