Gil Reis: Força tarefa contra aftosa

Gil Reis*
A febre aftosa era um assunto praticamente esquecido. Afinal, os pecuaristas do mundo inteiro estavam tranquilos com a eficácia da vacinação. Repentinamente, a doença insidiosa ressuscitou na Indonésia, com rapidez nunca vista na propagação. O sinal de alerta ecoou em todo o planeta. Não foi um simples foco de alguns animais, mas, de acordo com as informações, atingiu um rebanho de 230 mil cabeças. É apavorante. Países livres da febre aftosa sem vacinação perderam a tranquilidade.
As fábricas de vacina que já haviam abandonado a produção se alertaram e se preparam para produzi-las, o processo de fabricação é demorado. Os países da região da Indonésia e vizinhas começaram a tomar providências para que o surto não os atinja. Neste momento, não é de bom senso pesquisar onde surgiu a doença para responsabilização. O importante é a autodefesa.
Autoridades e pecuaristas de países livres de aftosa sem vacinação começam a se perguntar se foi uma boa providência a retirada da vacina. Esta é uma pergunta que não posso responder. Todavia, creio que a resposta rápida a qualquer foco da doença é extremamente importante.
Sobre vacinação, a saúde humana toma enormes precauções. Para determinadas doenças, mesmo erradicadas, a vacinação continua. Desculpem a minha ignorância, mas qual a diferença da expressão ‘livre de aftosa’ com o complemento de ‘com vacinação ou sem vacinação’? Na minha modesta opinião o que é importante é a expressão ‘livre de aftosa’.
A informação que nos chega é que alguns países somente importam carne de regiões livres de aftosa sem vacinação. Esta afirmativa não resiste a um exame mais acurado na maioria dos casos. O que se percebe é que a expressão ‘livre de aftosa sem vacinação’ é utilizada como forma de discriminar exportadores.
Vale a pena conhecer qual a reação de alguns países em relação ao surpreendente surto de aftosa na Indonésia. O site RNZ publicou, em 11 de agosto deste ano, o artigo “Força-tarefa especializada em febre aftosa estabelecida”. Transcrevo alguns trechos:
“O governo da Indonésia informou na segunda-feira (13 de junho) que mais de 151.000 animais foram infectados pela febre aftosa em 18 das 34 províncias do país, com o número de animais infectados crescendo rapidamente de 20.000 há menos de um mês. Autoridades de fronteira na Nova Zelândia e na Austrália estão em alerta desde que um surto da doença foi descoberto na Indonésia e, mais recentemente, no mês passado, em Bali. O medo é que as pessoas que retornam da Indonésia tragam a doença de volta com eles, causando um surto generalizado entre animais de casco fendido, como vacas, porcos, ovelhas, cabras e veados.
Se uma infecção fosse confirmada aqui, as exportações de carne – que valem bilhões de dólares para a economia anualmente – ficariam paralisadas. A diretora veterinária do Ministério das Indústrias Primárias, Mary van Andel, disse que uma força-tarefa especializada foi estabelecida em caso de um surto e está ocupada planejando uma série de cenários. “Quais seriam os requisitos de nossa força de trabalho, que tipo de planejamento precisaríamos, como seriam nossas diretrizes operacionais no campo, que tipo de tática usaríamos, o que precisaríamos fazer para o bem-estar animal, o que faríamos precisa fazer para o bem-estar do agricultor?” Ela disse que devido à escala do problema potencial, o MPI estava trabalhando em estreita colaboração com outras agências governamentais, parceiros da indústria e partes interessadas.
Se um surto fosse confirmado, uma resposta de todo o governo entraria em ação e qualquer animal infectado seria morto, disse ela. Ela disse que se um agricultor entrar em contato com o MPI preocupado que seu estoque possa estar infectado, ele será examinado e testado em questão de horas. Se um caso fosse confirmado, o rastreamento de contatos começaria imediatamente e os movimentos de gado seriam interrompidos, disse ela. “Nenhum animal poderia se mover se uma infecção for confirmada em um determinado local, e também haveria medidas em vigor sobre a movimentação de produtos de origem animal”, disse van Andel. “Se uma infecção for confirmada em uma fazenda, as pessoas precisarão desinfetar dentro e fora desse local, para que não movam a doença.
“Um dos outros grandes impactos que aconteceriam seria que nossos parceiros comerciais não aceitariam mais nossos produtos se tivéssemos febre aftosa na Nova Zelândia, então isso seria um grande problema e seria o motivo pelo qual essa doença precisaria ser erradicada com extrema rapidez, para que pudéssemos voltar ao comércio, que é o que nosso setor primário depende.” A Nova Zelândia tinha acesso exclusivo a um banco de vacinas das cepas mais comuns de febre aftosa, mas como a vacina precisava corresponder à cepa circulante, a vacinação preventiva não foi eficaz, disse van Andel.
Enquanto isso, a Biossegurança da Nova Zelândia estava confiante de que um deslize recente na fronteira envolvendo um viajante que retornava de Bali foi um incidente isolado. Uma agricultora viajando de Bali via Melbourne há duas semanas foi considerada de baixo risco quando chegou a Christchurch – e não foi solicitada a passar por buscas adicionais de bolsas abertas e tratamentos de calçados. Os que chegam da Indonésia devem ter suas malas verificadas e lavar os sapatos em banhos desinfetantes.
O vice-diretor-geral de Biossegurança, Stuart Anderson, disse que isso se aplica a todas as chegadas que viajaram para a Indonésia nos últimos 30 dias e ela deveria ter sido devidamente verificada. “O risco geral da Indonésia ainda permanece baixo, mas há medidas extras em vigor”, disse ele. “Acreditamos que este foi um incidente isolado, é decepcionante que o processo adequado não tenha sido seguido e fizemos todo o possível para garantir que isso não aconteça novamente.”
O artigo nos traz as medidas de prevenção que estão sendo adotadas por países vizinhos da Indonésia. Já a Indonésia vem desenvolvendo um programa sério para isolar e controlar a doença.
Uma coisa é certa: boa parte do mundo entrou em pânico e as medidas preventivas estão sendo tomadas. Não me cabe dizer quais as providências cabíveis em relação ao malsinado surto de aftosa na Indonésia, o que sempre é preciso observar é a relação custo/benefícios. Um surto de aftosa, independentemente da dimensão do foco, causa prejuízos bilionários a qualquer país exportador. Naturalmente, o prejuízo maior recai sobre os ombros dos pecuaristas e da agroindústria.
Poucos países no planeta possuem uma estrutura de controle de saúde animal como o Brasil. Hoje há um perfeito entrosamento, encabeçado pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), entre governo federal, estados, municípios e pecuaristas na prevenção, controle e erradicação das doenças animais. Nesta área o Brasil é um exemplo que deve ser seguido pelo mundo.
“Cautela e canja de galinha nunca fizeram mal a ninguém” – diz ditado popular. No caso da aftosa, é bom ficar atento ao que recomenda a sabedoria popular para não ter arrependimentos futuros.
*Consultor em Agronegócio
**Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do AGROemDIA

