Preço do leite captado em julho e pago ao produtor em agosto pode subir 10%

Uma boa notícia para a pecuária leiteira: o preço do leite captado em julho e pago aos produtores em agosto pode aumentar 10%, em média, superando R$ 3,50/litro e renovando o patamar recorde. Uma informação pouco animadora: o ciclo de alta no campo deve se encerrar em setembro. É o que indica a edição de agosto do Boletim do Leite do Cepea, divulgado nesta sexta-feira (19).
“A intensidade da alta para agosto supera a expectativa que os agentes do setor tinham até o mês passado, que era de manutenção no avanço dos valores, mas em ritmo menor do que o observado entre junho e julho”, diz o centro de estudos em economia da Esaq/USP.
De acordo com o Cepea, a disputa entre laticínios e cooperativas por produtores se manteve acirrada e isso deve sustentar a valorização no campo – assim como ocorreu com a compra do spot em julho.
O Cepea informa ainda que já se observa grande dificuldade das indústrias em sustentarem seus preços nas negociações, devido ao enfraquecimento da demanda. Isso, pontua, deve chegar ao campo no preço do leite captado em agosto e pago ao produtor em setembro.
“Outro fator que deve colaborar para o encerramento do movimento altista ao produtor a partir de setembro é o aumento das importações”, acrescenta o boletim do leite.
O centro de estudos assinala também que o aumento de 2,3% no Índice de Captação de Leite (ICAP-L) do Cepea de maio para junho, aliado ao enfraquecimento da demanda e ao fim da entressafra, reforça a perspectiva de que o ciclo de alta no campo termine em setembro.
No entanto, o Cepea destaca que, apesar da oferta seguir enxuta, o incremento considerável nos preços do leite e a queda nas cotações da ração devem estimular a recuperação gradual da produção no campo”.
Leia, abaixo, as análises da equipe Leite do Cepea sobre o mercado da pecuária leiteira:
Preço do leite ao produtor deve registrar nova alta expressiva em agosto
Natália Grigol//Da equipe Leite do Cepea
“O preço do leite captado em junho/22 e pago aos produtores em julho/22 registrou forte elevação de 20%, chegando a R$ 3,1932/litro na “Média Brasil” líquida do Cepea – um recorde da série histórica, iniciada em 2004. Trata-se do sexto mês consecutivo de avanço. Assim, desde o início de 2022, o leite no campo acumula valorização real de 43,7% (os valores foram deflacionados pelo IPCA de julho/22). Apesar da alta expressiva, esse não deve ser o teto de preços deste ano. Pesquisas ainda em andamento do Cepea apontam que a média de agosto (referente à captação de julho) pode aumentar 10%, indo para acima de R$ 3,50/litro e renovando, portanto, o patamar recorde.
A intensidade dessa alta para agosto supera a expectativa que os agentes do setor tinham até o mês passado, que era de manutenção no avanço dos valores, mas em ritmo menor do que o observado entre junho e julho. Contudo, a disputa entre laticínios e cooperativas por produtores se manteve acirrada e isso deve sustentar a valorização no campo – assim como ocorreu com a compra do spot em julho. Ainda que os preços tenham caído da primeira para a segunda quinzenas, na média mensal, o leite spot subiu 18,5% em Minas Gerais, saltando de R$ 3,83/litro em junho, para R$ 4,54/litro em julho.
O encarecimento do leite no campo se relaciona à sua menor disponibilidade. É esperado que o avanço da entressafra intensifique a restrição de oferta, mas, neste ano, o setor enfrenta um enxugamento mais drástico da produção, devido à combinação de uma seca mais intensa e de mudanças estruturais no campo, desencadeadas pelos menores níveis de investimento e pelo aumento nos custos de produção nos últimos anos.
Com isso, a produção no campo entre junho e julho ficou abaixo da expectativa do setor, o que causou uma diminuição importante nos estoques de lácteos até a metade de julho e em seu encarecimento expressivo. Porém, de lá para cá, observa-se grande dificuldade das indústrias em sustentarem seus preços nas negociações com os canais de distribuição, em decorrência do enfraquecimento da demanda. As movimentações diárias do mercado de derivados entre 15 de julho e 15 de agosto já apontam para o fim no ciclo de valorizações, uma vez que os preços do UHT e da muçarela caíram mais de 10% no atacado paulista no período. Essas quedas devem ser transmitidas ao campo no preço do leite captado em agosto e pago ao produtor em setembro.
Outro fator que deve colaborar para o encerramento do movimento altista ao produtor a partir de setembro é o aumento das importações. A baixa disponibilidade de leite e o aumento dos preços ao produtor e dos derivados em julho continuaram favorecendo a competitividade dos lácteos internacionais, de modo que as importações subiram mais 27% em julho.
Apesar da oferta seguir enxuta, o incremento considerável nos preços do leite e a queda nas cotações da ração devem estimular a recuperação gradual da produção no campo. Isso porque a relação de troca do leite com o milho tem estado mais favorável ao produtor, o que significa maior poder de compra do pecuarista frente ao insumo. Isso tende a incentivar um aumento na nutrição animal, o que, consequentemente, eleva os níveis de produção.
O Índice de Captação de Leite (ICAP-L) do Cepea cresceu 2,3% de maio para junho. Esse contexto, atrelado ao enfraquecimento da demanda e ao fim do período de entressafra na primavera, reforça a perspectiva de que o ciclo de alta no campo deve se encerrar em setembro.”
COE da pecuária leiteira registra segunda queda em três anos
Caio Monteiro e Catarina Simplicio//Da equipe Leite do Cepea
“Em julho, o Custo Operacional Efetivo (COE) da pecuária leiteira apresentou recuo de 0,44% na “Média Brasil” (BA, GO, MG, PR, RS, SC e SP), a segunda queda em três anos e a mais significativa desde agosto de 2019, quando a retração foi de 0,5%.
De janeiro a julho de 2022, porém, o COE ainda avançou 3,89%, elevação bem menos intensa que a verificada no mesmo período de 2021, de 12,90%. A desaceleração da alta dos custos de produção está atrelada ao movimento de queda dos concentrados neste ano.
Essa categoria de insumos teve desvalorização de 0,99% entre junho e julho, seguindo o movimento observado em abril e maio. A baixa ocorreu devido à retração nos preços do milho, pela maior oferta do grão. Dentre os estados que compõem a “Média Brasil”, os recuos mais expressivos do concentrado foram observados em Santa Catarina, Goiás e no Paraná, enquanto os demais estados apresentaram estabilidade nas cotações durante o mês.
As operações mecânicas dentro das propriedades também registraram baixas em julho, por causa da redução dos impostos nos preços dos combustíveis, diminuindo o preço do diesel nas bombas.
Por outro lado, alguns grupos de insumos se valorizaram, limitando a queda do COE: suplementação mineral (2,94% entre junho e julho), medicamentos para controle parasitário (1,01%) e sementes de forrageiras (0,52%).
O preço do leite pago ao produtor seguiu em alta em julho, o que, combinado à queda nas cotações do milho, levou a relação de troca a fechar o mês em patamares mais favoráveis ao produtor. Em julho, foram necessários 25,7 litros de leite (“Média Brasil” do produto pago ao produtor) para a aquisição de uma saca de 60 kg de milho (base Campinas/SP) – a média da relação de troca nos últimos 12 meses foi de 38,6 litros de leite por saca.”

