O melhor tempo para viver
Gil Reis*
Diariamente costumamos ouvir algumas pessoas se queixarem da vida e do momento que vivem. Reclamam do transporte público, do sistema de saúde pública, da qualidade da educação da rede pública, da qualidade dos alimentos – alguns sendo denominados com epítetos de invenção brasileira (processados e ultra processados) – e assim por diante. Por uma falha no conhecimento da história humana, não sabem que se retroagissem três séculos constatariam que naquele passado distante tudo do que hoje reclamam ainda não existia.
Caso voltássemos no tempo e chegássemos há 10 mil anos no passado, verificaríamos que não haviam cidades e sim vilarejos criados por produtores rurais. Portanto, quem não desenvolvesse trabalho rural, fosse coletor ou caçador, morreria de fome. Saúde era um termo desconhecido, quem adoecesse somente podia contar com a recuperação de seu próprio organismo ou com rezas de pajés e feiticeiros, usando alguns produtos duvidosos. Quanto à educação, não haviam escolas, as crianças eram educadas na tradição oral de cada família.
O artigo “Este é o melhor momento para estar vivo?”, de autoria de Mariana L. Tupy, pesquisadora sênior do Centro para Liberdade e Prosperidade Global do Cato Institute, publicado pelo site Human Progress em 12 de outubro de 2023, nos leva a um mergulho de três séculos no passado. Transcrevo trechos:
“Evidências esmagadoras mostram que somos mais ricos, mais saudáveis, mais bem alimentados, mais educados e ainda mais humanos do que nunca.
Imagine, se quiser, o seguinte cenário. Estamos em 1723 e você é convidado para jantar em uma bucólica zona rural da Nova Inglaterra, intocada pela devastação da Revolução Industrial. Lá você encontra uma família de colonos ingleses que deixou o Velho Mundo para começar uma nova vida na América do Norte. O pai, com os músculos salientes depois de um dia vigoroso de trabalho na fazenda, está sentado à cabeceira da mesa, lendo a Bíblia. Sua linda esposa, vestida com roupas rústicas, está dando os últimos retoques em uma panela de ensopado farto. O filho, um robusto rapaz de 17 anos, acaba de regressar de um revigorante passeio a cavalo, enquanto a filha, de 12 anos, brinca com as suas bonecas. Além dos antiquados papéis de gênero, o que há para não gostar?
Como uma representação idealizada da vida pré-industrial, o cenário é facilmente reconhecível por qualquer pessoa familiarizada com a escrita romântica ou com filmes como E o Vento Levou ou a trilogia O Senhor dos Anéis. Como descrição da realidade, porém, é um lixo; bobagem; bobagem e farsa. Muito provavelmente, o pai está sofrendo de dores agonizantes e crônicas devido a décadas de trabalho duro. Os pulmões de sua esposa, destruídos por anos de poluição interna, fazem-na tossir sangue. Em breve, ela estará morta. A filha, sendo a família demasiado pobre para pagar um dote, passará a vida como solteirona, rejeitada pelos seus pares. E o filho, que recentemente visitou uma prostituta, sofre de uma doença misteriosa que o deixará cego em cinco anos e o matará antes dos 30 anos.
Durante a maior parte da história humana, a vida foi muito difícil para a maioria das pessoas. Eles não tinham medicamentos básicos e morreram relativamente jovens. Eles não tinham analgésicos e as pessoas com doenças passavam grande parte de suas vidas com dores agonizantes. A esperança de vida antes da era moderna, ou seja, nos últimos 200 anos ou mais, situava-se entre os 25 e os 30 anos. O filho do presidente Calvin Coolidge morreu de uma bolha infectada, que desenvolveu enquanto jogava tênis na Casa Branca em 1924. Quatro anos depois, Alexander Fleming descobriu a penicilina. Ou pense no ar condicionado, cuja chegada aumentou a produtividade e, portanto, os padrões de vida no Sul dos Estados Unidos e garantiu que os nova-iorquinos não tivessem de dormir em escadas exteriores durante o verão para se refrescarem.
Os homicídios também caíram. Na época de Leonardo Da Vinci, cerca de 73 em cada 100 mil italianos poderiam esperar ser assassinados durante a vida. Hoje é menos de um. Evidências esmagadoras provenientes de todas as disciplinas académicas mostram claramente que somos mais ricos, vivemos mais, somos mais bem alimentados e temos mais educação. Acima de tudo, as evidências mostram que somos mais humanos. Meu argumento, portanto, é simples: este é o melhor momento para estar vivo.”
Naturalmente a maioria das críticas feitas hoje faz todo o sentido em relação aos transportes públicos, saúde pública e sistema público de educação, com a politização do ensino no Brasil. Afinal, são reclamações dos tempos em que vivemos. As reclamações populares podem parecer que não fazem nenhum efeito, mas servem para alertar às autoridades e aos políticos que algo está muito errado. As reclamações têm ajudado os serviços públicos a melhorarem e evoluírem. É muito importante que a população continue a expor sua opinião.
“As grandes conquistas da humanidade foram obtidas conversando, e as grandes falhas pela falta de diálogo” – Stephen Hawking, físico, cosmólogo e autor britânico, reconhecido internacionalmente por sua contribuição à ciência, sendo um dos mais renomados cientistas do século.
*Consultor em Agronegócio
**Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do AGROemDIA

