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A defesa da energia solar

Gil Reis*

Alguns me acusam de ser um crítico ao uso de energia solar o que não é verdade. Sempre fui contra a criação de grandes áreas de instalação de painéis de energia solar substituindo a agricultura. Cada vez mais cresce o número de residências, hotéis e empresas com placas solares instaladas economizando os custos da eletricidade das redes de distribuição de energia.

Como já disse antes o universo é dual e existe a outra face da moeda. A Reuters publicou, em 2 de outubro de 2025, a matéria “A agricultura movida a energia solar está a levar o Paquistão a uma catástrofe hídrica”, assinada por Ariba Shahid. Transcrevo trechos.

“As vacas e búfalas de Karamat Ali já abasteciam sua família multigeracional com leite. Mas, no início deste ano, o homem de 61 anos vendeu cerca de uma dúzia de bovinos e gastou o dinheiro em um conjunto de painéis solares.

O produtor de arroz da província de Punjab, no Paquistão, agora usa seus painéis para alimentar um poço tubular, composto por um poço de água e uma bomba motorizada para águas subterrâneas. O dispositivo permite que Ali irrigue suas plantações com mais facilidade e o livra da dependência da rede elétrica instável e do caro diesel para alimentar a bomba.

À medida que o Paquistão passa por uma revolução solar, agricultores como Ali estão cada vez mais abandonando o diesel e a energia da rede elétrica em favor de poços tubulares movidos a energia solar, de acordo com entrevistas com 10 produtores, além de autoridades governamentais e analistas.

O boom da energia solar coincidiu com o rápido esgotamento dos lençóis freáticos na província mais populosa do Paquistão, de acordo com documentos não divulgados anteriormente pela autoridade hídrica do Punjab, aos quais a Reuters teve acesso. Os documentos não apontaram nenhuma causa.

Seis agricultores disseram à Reuters que passaram a irrigar seus arrozais com muito mais regularidade – inclusive várias vezes ao dia, como parte de uma prática conhecida como irrigação por pulso – o que não teria sido possível sem bombas de água solares. Os agricultores também estão optando por cultivar arroz com maior demanda de água do que em anos anteriores, com o tamanho dos arrozais no Paquistão aumentando 30% entre 2023 e 2025, segundo dados do Departamento de Agricultura dos EUA. Enquanto isso, a área destinada ao cultivo de milho, que consome menos água, caiu 10%.

Não há estimativas oficiais recentes sobre o número de poços tubulares no Paquistão, país que não exige registro. Mas seu uso é tão difundido que os agricultores que optarem por alimentar os dispositivos com energia solar deverão provocar uma queda de 45% na quantidade de eletricidade da rede elétrica consumida pelo setor agrícola nos três anos até 2025, afirmou o economista de energia Ammar Habib, assessor do ministro da Energia do Paquistão. Sua estimativa foi baseada em dados de consumo publicados pela autoridade nacional de energia.

Cálculos da Reuters baseados nos dados de Habib, revisados ​​por Habib e pelo analista de energias renováveis ​​Syed Faizan Ali Shah, de Lahore, indicam que cerca de 400.000 poços tubulares que antes dependiam de eletricidade da rede elétrica passaram a usar energia solar. Agricultores que utilizam painéis solares provavelmente compraram mais 250.000 poços tubulares desde 2023, estima Habib, sinalizando que o sol agora alimenta cerca de 650.000 desses dispositivos em todo o Paquistão.

O boom da energia solar no Paquistão, impulsionado por um forte aumento nas tarifas de energia em 2023, está sendo replicado em todo o mundo. A produção maciça de painéis solares na China provocou uma queda de 80% nos preços dos módulos desde 2017, levando agricultores, desde o exuberante Brasil até o Iraque, propenso à seca, a recorrerem ao sol para alimentar seus sistemas de irrigação. A explosão na disponibilidade de painéis solares baratos está representando uma ameaça particular aos níveis de água no celeiro do Punjab, no sul da Ásia.

O lençol freático caiu abaixo de 18 metros — nível considerado crítico pelo departamento provincial de irrigação — em 6,6% do Punjab em 2024, de acordo com mapas publicados para uso interno pelas autoridades hídricas e vistos pela Reuters. Isso representa um aumento de cerca de 25% entre 2020 e 2024, enquanto os bolsões mais profundos — com níveis de água acima de 24 metros — mais que dobraram de tamanho no mesmo período.

A solarização é ‘boa para o meio ambiente porque é energia limpa’, disse o ministro da irrigação do Punjab, Muhammad Kazim Pirzada. ‘Mas, ao mesmo tempo, também está impactando nosso lençol freático.’ Seu departamento informou à Reuters que continua estudando a relação entre poços tubulares e o esgotamento das águas subterrâneas, mas que tomou medidas para proteger o lençol freático. Inundações recentes também afetaram algumas das áreas mais secas do Punjab, possivelmente recarregando alguns lençóis freáticos, acrescentou o ministro.

O Paquistão, um dos países com maior escassez de água no mundo, se viu envolvido em conflitos pelo recurso com sua vizinha rio acima, a Índia, com quem teve breves conflitos em maio. Mas para muitos agricultores em Punjab, a ameaça ao lençol freático é um problema para o futuro. Enquanto agricultores mais pobres como Ghafoor ainda dependem do diesel e da energia da rede, muitas aldeias dependentes da agricultura juntaram quantias para comprar os painéis como propriedade comunitária.

Autoridades federais e provinciais começaram a prestar mais atenção à crise de ebulição lenta, especialmente depois que a Índia suspendeu sua participação em um acordo que rege o compartilhamento de água do sistema crítico do rio Indo no início deste ano. Punjab iniciou projetos-piloto de recarga de aquíferos, que visam retardar o esgotamento e garantir o fornecimento estável de água subterrânea, em mais de 40 locais antes da iniciativa da Índia em abril, embora autoridades tenham dito que tais projetos ganharam importância desde então.

‘Este é o nosso pequeno esforço para devolver a parte devida ao aquífero’, disse Adnan Hassan, pesquisador do departamento de irrigação do Punjab. ‘Se água poluída for injetada (devido à extração excessiva), a próxima geração sofrerá.’

O cientista ambiental independente Imran Saqib Khalid disse que o Paquistão ainda carece de medidas como o mapeamento abrangente de poços e o monitoramento em tempo real das retiradas que conteriam a crise hídrica.

O impulso solar não tem ‘nenhum método para a loucura’, disse ele, acrescentando que, sem uma mudança na governança, o esgotamento das águas subterrâneas continuaria inabalável: ‘A longo prazo, isso terá um impacto na intensidade dos cultivos e nos tipos de culturas que podemos cultivar, o que, por sua vez, impactará nossa segurança alimentar.’”

Como afirmei antes o universo é dual, Neste caso estamos tratando de benefícios & malefícios que precisam ser equilibrados.

“O que dá pra rir, dá pra chorar. Questão só de peso e medida. Problema de hora e lugar. Mas tudo são coisas da vida.” Canção ‘Canto Chorado’, composta por Billy Blanco e gravada pelo grupo Os Originais do Samba em 1969.

*Consultor em Agronegócio

**Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do AGROemDIA

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