O Irã é um lobo em pele de cordeiro
Depois que Ruhollah Musavi Khomeini, autoridade religiosa xiita iraniana, líder espiritual e político da Revolução Iraniana de 1979 que depôs Mohammad Reza Pahlavi, na altura o xá do Irã, e instaurou uma república islâmica. Tem demonstrado ao mundo que a falta da separação da religião do Estado somente traz prejuízos à nação.
Neste sentido a Reuters publicou a reportagem “A dupla realidade do Irã: com o relaxamento das restrições ao véu, a repressão política se aprofunda”, assinada por Parisa Hafezi, em 13 de novembro de 2025, que transcrevo trechos.
“Nas ruas movimentadas de Teerã, os sinais de mudança são inconfundíveis. Mulheres caminham sem véu, de calça jeans e tênis, homens e mulheres permanecem juntos em cafés onde a música ocidental toca suavemente, e casais passeiam de mãos dadas — atos sutis que corroem os rígidos códigos sociais que há muito definem a República Islâmica. Mas, por baixo da superfície, uma realidade mais sombria está se revelando. Os governantes religiosos do Irã estão intensificando a repressão à dissidência política para instigar o medo e evitar distúrbios, disseram à Reuters quatro ativistas dentro do Irã.
Os líderes religiosos do Irã enfrentam um de seus maiores desafios desde a Revolução Islâmica de 1979. O conflito com Israel deixou instalações militares e nucleares iranianas gravemente danificadas em junho e desmantelou sua rede regional de aliados – do Hamas em Gaza ao Hezbollah no Líbano e às milícias no Iraque.
No país, a economia está abalada pelo colapso da moeda rial, pela inflação galopante e pela grave escassez de energia e água. ‘O Irã está em território desconhecido, e a abordagem atual do regime é menos uma estratégia coerente do que uma série de experimentos de curto prazo com o objetivo de sobreviver a um momento instável’. O hijab, um ponto de conflito durante os protestos desencadeados pela morte sob custódia de Mahsa Amini — uma jovem detida em 2022 por supostamente violar a lei que torna o uso do hijab obrigatório — está agora sendo aplicado seletivamente.
Temendo um ressurgimento de protestos em todo o país em meio à crescente frustração pública, o presidente iraniano Masoud Pezeshkian se recusou a implementar uma lei sobre ‘Hijab e Castidade’ apoiada pela linha dura e aprovada no final do ano passado. Na internet, uma série de vídeos sofisticados pinta um retrato de um Irã vibrante e acolhedor. Mas os críticos afirmam que esses espetáculos são cuidadosamente coreografados, concebidos para projetar uma imagem de abertura enquanto mascaram uma repressão cada vez maior. A taxa de execuções no Irã disparou para níveis não vistos desde 1989. Até 21 de outubro, as autoridades haviam executado pelo menos 1.176 pessoas em 2025 — uma média de quatro por dia —, segundo o Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos.
A reimposição das sanções da ONU em setembro, devido ao fracasso nas negociações sobre um acordo nuclear, poderia aumentar significativamente a pressão sobre a economia iraniana, restringindo ainda mais seu comércio com países que anteriormente desrespeitaram as sanções unilaterais dos EUA. Além disso, nos corredores do poder em Teerã, cresce a preocupação com a possibilidade de novos ataques israelenses contra o Irã caso a diplomacia com os EUA entre em colapso, disseram as autoridades — um cenário que exacerbaria ainda mais as pressões internas e externas já crescentes sobre o governo.
Os Estados Unidos e Israel alertaram que não hesitarão em atacar o Irã novamente caso o país retome o enriquecimento de urânio, um possível caminho para o desenvolvimento de armas nucleares. O Irã nega estar buscando bombas nucleares. Teerã, que afirma acolher favoravelmente um acordo nuclear ‘pacífico’, ameaçou com uma forte retaliação caso seja atacada novamente. ‘O risco de novos distúrbios em massa é real; a sociedade iraniana permanece irritada, desiludida e convencida de que o impasse econômico e diplomático não será superado, disse Vatanka’.
A repressão à dissidência política intensificou-se após a guerra de 12 dias em junho com Israel, que resultou na morte de várias figuras militares de alto escalão na liderança iraniana e abalou as suas estruturas. O segundo ativista disse que afrouxar as restrições sociais é uma forma de manter as pessoas fora das ruas. ‘Mas isso é apenas um paliativo. Tenho sido intimado e ameaçado pelas autoridades de segurança desde o fim da guerra, em junho”, disse o segundo ativista. ‘Eles ameaçaram prender meu irmão mais novo se eu me envolver em qualquer atividade política’. O Ministério da Justiça não respondeu às perguntas sobre as alegações dos ativistas de terem recebido ameaças após o conflito.
Após a guerra, as autoridades invocaram a segurança nacional para justificar a repressão generalizada. O judiciário iraniano ordenou julgamentos sumários para os acusados de colaboração com Israel, enquanto o parlamento aprovou uma legislação que amplia a pena de morte para espionagem. A nova lei também visa a atividade online, criminalizando publicações consideradas como disseminadoras de ‘informações falsas’. Mais de 21 mil pessoas foram presas, segundo o judiciário iraniano — incluindo jornalistas, ativistas e membros de grupos minoritários como curdos, balúchis e árabes. Membros da minoria religiosa bahá’í foram acusados de serem “espiões sionistas”, e alguns foram presos em batidas policiais em suas casas, tendo seus bens confiscados, de acordo com organizações de direitos humanos.
‘A pressão internacional está aumentando e eles temem perder o controle do poder — então, eles o reprimem internamente contra a dissidência política’, disse o ex-alto funcionário reformista, que passou anos na prisão por ‘agir contra a segurança nacional’ devido às suas opiniões políticas.”
Para melhor entendimento do leitor que achar que hijab é uma prática imoral ou criminosa está redondamente enganado. Hijab é uma palavra árabe que significa ‘cortina’ ou ‘barreira’ e, no Islã, refere-se a um véu que as mulheres muçulmanas usam para cobrir os cabelos, pescoço e ombros como um símbolo de modéstia, identidade religiosa e devoção a Deus. Não é um véu uniforme; existem diversos tipos e estilos, que variam em cores, tecidos e formas de uso. A prática do hijab também envolve outros comportamentos modestos. Simplesmente uma prática para inferiorizar e subordinar as mulheres. Na opinião deste articulista Tupiniquim, o país que pratica essas ações contra as mulheres pode ser denominado de ‘machista’.
“Um dia vieram e levaram meu vizinho que era judeu. Como não sou judeu, não me incomodei. No dia seguinte, vieram e levaram meu outro vizinho que era comunista. Como não sou comunista, não me incomodei. No terceiro dia vieram e levaram meu vizinho católico. Como não sou católico, não me incomodei. No quarto dia, vieram e me levaram; já não havia mais ninguém para reclamar”. (Martin Niemöller durante a ocupação nazista na Alemanha).
*Consultor em Agronegócio
**Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do AGROemDIA
