Pesticidas põem abelhas em risco no Brasil e em todo mundo

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Maria Eugênia/Embrapa

O uso de pesticidas na agricultura é uma ameaça às abelhas em todo mundo e, consequentemente, à produção de mel, segundo estudo publicado pela revista “Science”. O problema também afeta o Brasil, especialmente a Região Sul, onde foram encontrados resíduos desses produtos em amostras coletadas por pesquisadores.

Reportagem publicada pelo site UOL aborda o trabalho científico divulgado pela “Science”. Leia:

A existência de mel livre de pesticidas não está garantida em nenhum lugar do mundo. No Brasil, quatro localizadas têm mel com resíduos desses produtos. Amostras coletadas na Região Sul apresentaram as concentrações mais elevadas. Isso é o que mostra estudo publicado pela revista “Science”.

O trabalho científico encontrou neonicotinoides – agrotóxicos à base de nicotina – em 75% das amostras coletadas em todos os continentes (com exceção da Antártida) e em inúmeras ilhas isoladas, segundo o estudo, divulgado nessa quinta-feira (5).

De acordo com o trabalho, as concentrações detectadas dos inseticidas estão dentro de limites permitidos para consumo humano na Europa. O problema, contudo, é que eles são extremamente prejudiciais para polinizadores, principalmente às abelhas. Usados na agricultura, os neonicotinoides afetam a reprodução e a vida desses insetos.

A equipe liderada por Edward Mitchell, do Laboratório de Biodiversidade do Solo da Universidade de Neuchâtel, na Suíça, testou 198 amostras de mel. Dentro os inseticidas da família dos neonicotinoides encontrados estão acetamiprida, clotianidina, imidacloprida, tiaclopride e tiametoxam.

O veneno chega ao mel quando a dieta desses insetos está ligada às plantas tratadas com os pesticidas. No geral, 75% de todas as amostras de mel continham pelo menos um tipo de neonicotinoide. Das amostras contaminadas, 30% continham um único neonicotinoide, 45% continham dois ou mais e 10% continham quatro ou cinco.

“Esses resultados sugerem que uma proporção substancial de polinizadores mundiais provavelmente é afetada pelos neonicotinoides”, dizem os pesquisadores. As amostras de mel com maior concentração de inseticidas foram as coletadas na Europa, América do Norte e Ásia.

“O estudo traz um cenário bastante preocupante. Os neonicotinoides são muito utilizados no Brasil, que vive uma situação séria de destruição de população de abelhas”, diz Luiz Claudio Meirelles, pesquisador de saúde pública da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz).

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Ronaldo Rosa/Embrapa

Cultivo de alimentos

Há mais de uma década, as populações de abelhas têm apresentado um alarmante declínio, levando a ciência a incansáveis estudos para descobrir os motivos. A queda dessas espécies é preocupante devido à função de polinização que elas exercem, muito necessária para o cultivo de alimentos, por exemplo.

Diversos estudos indicam que o uso de neonicotinoides está ligado ao declínio da população de abelhas na natureza. Segundo a FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação), as abelhas são responsáveis por pelo menos 73% da polinização das culturas e plantas.

No Brasil, registros de redução do número de abelhas em decorrência do uso de agrotóxicos levaram o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente) a restringir o uso dos inseticidas na agropecuária – principalmente nas culturas de algodão, soja e trigo.

Em 2012, foi proibida a aplicação por aviões dos agrotóxicos imidacloprido, tiametoxam, clotianidina e fipronil. O Ibama ainda está realizando a reavaliação ambiental dos produtos, que pode culminar em mais restrições. O uso já é proibido em épocas de floração ou quando observada a visitação de abelhas na lavoura.

Potencial cancerígeno

A concentração de inseticida encontrada nas amostras de mel foi, em média, de 1,8 ng/g (nanogramas por grama). De acordo com os pesquisadores, é o suficiente para causar danos às colônias de abelhas. O teor de agrotóxicos chegou a 56 ng/g em algumas amostras. Nenhuma ultrapassou o limite máximo de resíduos tóxicos no mel estabelecido na Europa. No Brasil, não existe esse tipo de definição para o mel.

“São quantidades pequenas, mas é importante lembrar que o efeito crônico da ingestão de agrotóxicos não possui limiar seguro”, adverte Cláudio Meirelles. A biblioteca médica do NIH (Instituto Nacional de Saúde, dos EUA) classifica o tiaclopride como potencialmente cancerígeno e relata que o tiametoxam levou ao desenvolvimento de câncer de fígado em estudos feitos com ratos.

Os pesticidas citados no estudo da Science são liberados no Brasil. Segundo o estudo da Science, a França é o primeiro país a iniciar processo de banimento do uso dos inseticidas.

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