Integração lavoura, pecuária, floresta e energia

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Waldir Leite Roque, Dr.*

O modelo de agronegócio baseado nas diversas possibilidades de integração entre lavoura, pecuária e floresta plantada (iLPF) tem se mostrado bastante viável e com sucesso em diversas propriedades. As pesquisas acadêmicas da iLPF e as aplicações dessas na prática, através das mais de 200 unidades de referência tecnológica (URTs) distribuídas em todos os estados do Brasil, garantem o suporte necessário técnico-científico do modelo. A Embrapa tem liderado as pesquisas sobre os diversos modelos de integração LPF e. em parceria com algumas empresas e o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), criou a rede de informações e fomento da iLPF, que pode ser acessada em https://www.embrapa.br/web/rede-ilpf/home.

De acordo com dados levantados pela rede iLPF, no Brasil existem aproximadamente 11,5 milhões de hectares com emprego de modelos de integração LPF. Dentre os possíveis modelos de integração iLPF, a agropastoril (LP) ocupa a maior parte, com 83%, em seguida vem a agrossilvipastoril (LPF), com 9%, depois a silvipastoril (PF), com 7% e, finalmente, a silviagrícola (LF), com 1%. Vemos que a integração LPF ainda ocupa um pequeno espaço como modelo de agronegócios, embora as vantagens desta integração sejam enormes, pois trata-se de um modelo de agronegócio sustentável com convívio das atividades agrícolas, pecuárias e florestais em uma mesma área, com cultivo consorciado, sucessão ou rotacionado, gerando benefícios sinergéticos, potencializando economicamente a propriedade e com sustentabilidade do agronegócio.

A iLPF tem reflexos diretos na diversificação dos sistemas de produção, na conservação e melhoria do solo e da água, é muito apropriada para a recuperação de áreas e pastagens degradadas, promove a eficiência no emprego de insumos, da mão de obra e dos recursos existentes na propriedade, permite a quebra no ciclo de pragas e doenças, proporciona maior conforto animal com sombreamento levando a ganhos de produtividade, tanto para as cadeias produtivas de rebanhos leiteiros quanto para corte. Além disso, traz benefícios ao ecossistema devido ao uso ambientalmente adequado da terra, do sequestro de carbono e da ampliação da biodiversidade, apresenta vantagens na ecologia de paisagem, reduz os riscos do negócio em razão das melhorias nos processos produtivos e na diversificação das atividades empreendedoras, amplia ainda a inserção social com o aumento da oferta de empregos e renda e, acima de tudo, é economicamente lucrativa.

A iLPF poderá se beneficiar bem mais se integrarmos ao sistema a produção de formas de energia alternativas e renováveis, ou seja, teríamos um novo modelo, o iLPFE, mais complexo, porém mais completo. Alguns modelos mais simples, como a integração floresta-energia (FE), já vêm sendo implementados em alguns países. Particularmente, a integração entre floresta plantada e parque eólico é uma delas. Isso só se tornou possível devido aos avanços na tecnologia de turbinas eólicas, que possibilitou as torres com o eixo do rotor atingir 140m de altura, muito acima da altura de florestas plantadas de eucaliptos, que podem alcançar, em sua plenitude, cerca de 50m. Isso significa uma altura bem superior à região de ventos turbulentos produzidos pelas copas das árvores, os quais não são técnica e economicamente apropriados à instalação de aerogeradores. A área necessária para implantação de geradores eólicos pode ser reduzida a 0,2 hectares em alguns casos, porém a perda na produtividade de madeira pode ser compensada com cultivos florestais em outras áreas da propriedade.

As florestas são as grandes responsáveis pela conservação do clima, uma vez que elas atuam como grandes reservatórios naturais de carbono. As florestas cobrem cerca de 30% da superfície terrestre do planeta e são responsáveis por armazenar em torno de 50% do carbono sequestrado da atmosfera. Por outro lado, a implantação de florestas plantadas também exerce um papel importante na preservação do meio ambiente e parte dessa pode ser integrada à produção de energia renovável, ampliando a oferta de energia sem emissão de dióxido de carbono, mitigando o efeito estufa e preservando a flora e a fauna.

Os diversos modelos de iLPFE ainda não foram pesquisados de forma sistemática e intensiva, mas algumas experiências já mostram que nos casos de iFE há benefícios econômicos para os produtores rurais que, embora sofram algumas perdas de área de floresta plantada, em contrapartida passam a receber mensalmente bônus ou pela locação da área para implantação dos aerogeradores ou por meio da comercialização da energia produzida. Isso pode representar um alívio econômico compensatório frente ao número de anos exigidos para o ciclo de produção de madeira de alta qualidade que pode atingir 12-15 anos no Brasil. As projeções indicam que as áreas utilizadas pela implantação da rede de aerogeradores na propriedade podem ser reutilizadas no caso de desativação do parque.

Claramente há necessidade de serem realizadas pesquisas interdisciplinares detalhadas sobre este novo modelo para se conhecer todos os benefícios da iLPFE, otimizar os processos envolvidos e analisar a viabilidade econômica para todas as suas modalidades, mas algo é certo: o futuro demandará, cada vez mais, a implantação de sistemas agrossilvipastoris aliados à produção de formas de energia limpa e renovável.

*Consultor em iLPF

 

AGROemDIA

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