Edição genética na pecuária de corte

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Foto: Gisele Rosso/Embrapa

Dr. Waldir L. Roque*

A pecuária de corte brasileira é bastante competitiva internacionalmente e contribui significativamente para a nossa balança comercial. De janeiro a novembro de 2017, a exportação de carne in natura foi um pouco superior 1,1 milhão de toneladas, o que representou um faturamento da ordem de US$ 4,6 milhões, valor 16% superior ao mesmo período de 2016. Se incluirmos os demais produtos, como as carnes industrializadas, salgadas, miúdos e tripas, o faturamento alcançou US$ 5,7 milhões, conforme dados da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec).

A produtividade de carne bovina depende de inúmeros fatores, dentre estes está a escolha pela castração ou não do rebanho. O bovino castrado (boi) produz carcaça e carne de melhor qualidade, mas sem castração (touro, boi inteiro) ganha mais peso, podendo alcançar 10% mais que o bovino castrado, o que representa maior produtividade em volume de carne.

Neste caso, a maior produtividade aparentemente representa elevação de receita. No entanto, a qualidade da carne produzida pelo boi inteiro perde em acabamento, uma vez que forma mais musculatura, com menor e inferior distribuição de gordura. A falta de gordura leva a um escurecimento da parte externa dos músculos, que, aliado a outros fatores, como alteração no PH, faz com que a carne do boi inteiro não tenha a mesma aparência vermelha da carne de bois castrados, além de apresentar uma maior rigidez, odor mais acentuado e alteração no sabor, fatores que não são bem apreciados pelos consumidores.

Essencialmente, a diferença entre a carne do boi inteiro e do boi castrado está na presença dos hormônios que são preservados no boi inteiro, fazendo com que a maior parte do que estes consomem seja destinada à produção de músculo, dando-lhes maior peso na produção de carne, mas com um acabamento inferior. Então, o melhor seria produzir uma carne com as qualidades de um boi castrado, mas que apresentasse a produtividade de um boi inteiro.

Recentes pesquisas envolvendo a edição genética, por meio da técnica CRISPR, permitem que, através da adição de um gene SRY (Sex-Determining Region of Y Chromossome) em células da pele bovina, seja capaz de transformar uma vaca em um boi, porém sem a capacidade de produzir espermas, ou seja, semelhante a um boi castrado. Desta forma, animais que se tornam masculinos através da SRY não são capazes de propagar a modificação genética ou qualquer alteração do DNA associada a ela, eles são terminais.

As estimativas são de que os bovinos machos descendentes da técnica SRY sejam 15% mais eficientes do que as fêmeas em transformar pastagem em músculos. A edição genética, por meio da CRISPR/Cas9, já foi utilizada com sucesso para criar vacas leiteiras sem chifres (mochas) e aumentar a resistência à tuberculose bovina, gerar suínos imunes à doença fatal da orelha azul causada pelo vírus da síndrome reprodutiva e respiratória (PRRS) e ovelhas produzindo lã de maior comprimento.

Agora, as pesquisas buscam criar um touro que gere como descendentes apenas bezerros machos ou machos-SRY, técnica que está sendo chamada “só rapaz”. Esta técnica vem sendo discutida nos Estados Unidos e ainda não está aprovada cientificamente, nem pelos comitês de ética nem pelos órgãos reguladores, mas já se sabe que a edição genética pode favorecer a produção de carne e o Brasil, como grande player neste mercado, deve estar à frente dessas novas tecnologias.

* Consultor em iLPF

 

 

 

AGROemDIA

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