Missionarismo da União Europeia tenta dominar comércio agrícola mundial

Gil Reis, consultor em agronegócio – Foto: Arquivo pessoal

*Gil Reis

Assisti, recentemente, a uma live promovida pelo Insper/Cebri, com o tema “Agricultura, desmatamento e o Código Florestal”, com a participação do coordenador do Insper Agro Global e do Núcleo Agro do Cebri, Marcos Jank; da secretária de Meio Ambiente de Mato Grosso Mauren Lazzaretti; da diretora presidente do Cebri, Julia Leite; do sócio diretor do Agroicone, Rodrigo Lima; da diretora da Climate Policy Initiative (CPI), Joana Chiavari; e do produtor rural e ex-presidente da Sociedade Rural Brasileira (SRB) Pedro de Camargo Neto.

Confesso que não tenho o hábito de assistir vídeos postados na internet. Todavia, esse me despertou curiosidade pelo assunto, valorizado pela presença de, para os amigos, Pedro Camargo, grande defensor do agro e que não costuma perder tempo com o que não interessa ou participar de mimimis.

Apesar de longo, o vídeo é muito interessante pela maneira de abordar o desmatamento ilegal, sem a postura apelativa dos “ambientalistas europeus” e colaboracionistas. O assunto foi exposto sem emoção e racionalmente. Como escritor, em geral, a minha visão diverge de grande parte dos “especialistas” e, como advogado, predomina a minha visão de “operador do direito”.

O desmatamento é considerado “ilegal” por descumprimento da lei em determinado momento do tempo e do espaço. Pois é, existe uma lei sobre o assunto, bem recente, denominada Código Florestal, sancionada em 2012 e “tem que ser cumprida”. Por favor, esqueçam a expressão “deve ser cumprida”, gostemos ou não, “dura lex sed lex”.

Apenas uma “impropriedade” me saltou a vista. Foi o comentário de Marcos Jank, na abertura do vídeo, de que “o mundo nos cobra”. Tal afirmativa não procede, pois, quem nos cobra, nos coage e chantageia são apenas os países do chamado mundo ocidental, que representam apenas e tão somente 25% dos habitantes do planeta.

Gostei muito do fato de que, finalmente, um grupo de especialistas foi honesto o suficiente para reconhecer a verdade de que é de responsabilidade dos estados da Federação a implementação da lei, ou seja, não age de forma correta quem cobra do governo federal tal implementação.

Tenho afirmado e reafirmado que estamos sofrendo ataques do chamado mundo ocidental, que pretende nos banir do mercado internacional, com uma atuação com características “messiânicas”, para sabotar a produção do agro brasileiro, usando como arma as “mudanças climáticas”. A argumentação é muito simples: somos os grandes causadores do “aquecimento global” com as nossas práticas na agropecuária.

Recentemente, em entrevista ao programa “Grande Jogo”, do Canal 1 da Rússia, o chanceler russo Sergei Lavrov fez uma observação bastante interessante, que, apesar de ter sido feita em outro contexto, tem o condão de nos deixar atentos:

“Embora tenha sido originalmente concebida como uma “aliança de cooperação econômica”, a União Europeia agora está cada vez mais adotando um “estilo missionário.”

Lavrov disse ainda que a UE quer “substituir o direito internacional por suas próprias regras e os EUA estão promovendo esses valores como uma ferramenta para garantir o seu domínio”. Ademais, os EUA e a UE estão “ativos na Ásia Central, tentando criar os seus próprios formatos”.

Temos que abjurar as crenças dos “ambientalistas europeus” e desprezar os seus colaboracionistas. Não custa lembrar que fora do mundo ocidental já temos excelentes clientes”

Vejam bem. As afirmativas não são minhas, mas sim de uma autoridade de outro país, de outro continente, que vem sofrendo com a aliança UE-EUA. Com a administração Biden, os Estados Unidos se alinharam as bandeiras usadas pela União Europeia contra o Brasil. Percebam: as duas maiores economias do mundo ocidental se aliaram para, através do proselitismo, impor suas ideias e forma de agir ao resto do mundo.

A ministra Teresa Cristina, com a abertura de novos mercados, fora do ocidente, ensejou a criação de uma grande porta para que escapemos do domínio do “imperialismo comercial” do mundo ocidental, disponibilizando uma clientela representada por 75% dos habitantes do nosso planeta.

Alguém duvida? Então, vamos à matemática. A soma das populações das três Américas, incluindo o Brasil, com as populações dos países da Europa representa 25% da população do mundo. Já a Ásia tem 60% da população, que, somada com a da África, com 15%, representa 75% da população do planeta. Sejamos práticos: são mais de 5 bilhões de habitantes, fora do mundo ocidental, disponíveis para consumir o que produzimos.

Com uma possível clientela tão grande, não temos do que reclamar. Temos que abjurar as crenças dos “ambientalistas europeus” e desprezar os seus colaboracionistas. Não custa lembrar que fora do mundo ocidental já temos excelentes clientes.

Temos que denunciar alguns bancos internacionais e o Banco Central do Brasil, que estão tentando “impingir” normas pregadas pela Europa para dificultar e encarecer o acesso ao crédito para os produtores rurais brasileiros, cometendo um crime inominável contra o desenvolvimento do Brasil e aos seus cidadãos.

O próximo passo é pedir à ministra Teresa Cristina, que, superada a pandemia, calce suas botas de desbravadora, vista as suas vestes de negociadora internacional e parta para a maratona de abertura de novos mercados.

*Consultor em Agronegócio

AGROemDIA

O AGROemDIA é um site especializado no agrojornalismo, produzido por jornalistas com anos de experiência na cobertura do agro. Seu foco é a agropecuária, a agroindústria, a agricultura urbana, a agroecologia, a agricultura orgânica, a assistência técnica e a extensão rural, o cooperativismo, o meio ambiente, a pesquisa e a inovação tecnológica, o comércio exterior e as políticas públicas voltadas ao setor. O AGROemDIA é produzido em Brasília. E-mail: contato@agroemdia.com.br - (61) 99244.6832

Um comentário em “Missionarismo da União Europeia tenta dominar comércio agrícola mundial

  • 19 de abril de 2021 em 09:14
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    Excelente artigo, esse exclarecimento que nós brasileiros precisamos estar atentos. Parabéns ao autor!

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