Jogando o jogo

Gil Reis*

 Nós, o povo, como menciona a Constituição americana, assistimos, pasmos e perplexos, ao grande jogo jogado pelas lideranças mundiais, cujo nome foi gestado e parido nos sombrios corredores da ONU. Por tais corredores, que deveriam ser claros e alegres, trazendo esperança por dias melhores para a humanidade, com harmonia entre os países que integram a colcha de retalhos cultural, religiosa, econômica e social que é o mapa mundi, transita hoje a desarmonia, expressa pela adoção de medidas de exceção, usadas como arma para impor medo e o pânico e anunciar um sombrio futuro próximo.   

Os leitores menos informados devem estar curiosos para saber qual nome deste jogo tão assustador. Esclareço: mudanças climáticas. Como se o clima do nosso planeta sempre tivesse sido estável e jamais tivesse mudado através dos milhões de anos de sua existência. O que mudou? Que eu tenha percebido, a mudança está na forma de apresentá-la, com vidências catastróficas e apocalípticas. Com isso, tentam fazer com que todos nós renunciemos a toda evolução que conseguimos com muita luta, sacrifícios, sangue, suor e lágrimas.

Os profetas modernos do apocalipse não são nenhuma novidade. Já os conhecemos há muito através de alguns filmes, nos quais aparecem alguns pregadores nas ruas, com cartazes pendurados nos pescoços, berrando, alto e bom som, a frase: ‘O fim do mundo está próximo’. Hoje, já não caminham pelas ruas com cartazes fazendo pregações; usam a grande mídia, que tem maior poder de causar pânico e medo aos incautos com vidências da ‘ciência oficial’, representada por cientistas devidamente cooptados pelo ‘novi ambientalismo’.

A maior vítima das campanhas tem sido o agro brasileiro, o que é muito fácil de explicar. O crescimento exponencial da nossa produção de alimentos é assustador, porque abala todas as estruturas de produção mundial. O tal mundo dito civilizado é o que mais sofre, porquanto, ao longo dos últimos séculos, tem sido o grande fornecedor de alimentos. Como dizem, ‘correndo solto’, estabelecendo preços a seu bel-prazer, sem qualquer necessidade de preocupações com qualidade. O mundo faminto come tudo, desde que ‘encha a barriga’ e permita a sobrevivência por mais um dia.

Aí chegamos nós para revolucionar a alimentação com preços honestos, qualidade e quantidade suficiente para alimentar o nosso povo e ainda cerca de um quarto da população mundial, com enorme tendência de crescimento. Temos grandes extensões de terras férteis e climas propícios em toda a enorme área deste país continental. Os brasileiros, com toda a criatividade inata, descobriram que tudo o que pregava a dita ‘ciência oficial’ relativa às terras para plantio, dividindo-as em terras cultiváveis e não cultiváveis, era simples manipulação dos países colonialistas.

Começamos a cultivar nas ditas terras não cultiváveis e as fronteiras estabelecidas para a nossa produção de alimentos foram derrubadas, o que fez o mundo ocidental dito civilizado se assustar. A iniciativa do Brasil decuplicou a possibilidade de sobrevivência dos seres humanos no nosso planeta. Os europeus, tradicionais donos do mundo, tiveram a visão de que o exemplo se propagará por todas as nações que hoje são vítimas de um escravagismo disfarçado. A produção de alimentos levará esses países à emancipação de fato, o que já incomoda a Europa.

Os que me conhecem melhor, por relacionamento mais próximo, já perceberam que volta e meia tenho o que se costuma a denominar de ‘insights’. Pois bem, agora, neste momento, ao escrever este artigo, tive mais um. O padrão moeda que outrora era o ouro, ou seja, o valor das moedas era lastreado pela quantidade de ouro nas reservas de um país deixou de existir após a 2ª. Guerra mundial e, desde então, vem sofrendo alterações. A minha ‘proposta intelectual’, que normalmente se denomina de tese, é que, com a proximidade do crescimento populacional que alcançará 10 bilhões de habitantes até 2050, conforme projeção da ONU, as moedas passarão a ser lastreadas pela capacidade de cada país em produzir alimentos.

Na minha opinião, o que está em jogo hoje é o próprio jogo, com todas as alterações de regras ao longo do percurso. O nosso país tem resistido heroicamente às chantagens da União Europeia na vã tentativa de derrubar a concorrência representada pelos melhores preços da nossa agropecuária. A todo o momento, são criadas regras novas para encarecer a nossa produção.  O Brasil participou da famigerada COP26, a despeito de todas as previsões e sonhos maléficos, com uma postura não subserviente, mostrando o trabalho, que não é novo, de preservação da natureza e preocupação com o meio ambiente, que sempre ensejou o nosso crescimento.

O Brasil decuplicou a possibilidade de sobrevivência dos seres humanos no nosso planeta”

Os representantes brasileiros falaram para ouvidos surdos e olhos cegos propositais dos europeus, que, totalmente insatisfeitos com o ‘pacto de Glasgow’, recrudesceram os ataques à nossa produção de carne, ressuscitando o sempre insistente, recorrente, impraticável e caro instituto da rastreabilidade, como relata Leonardo Sakamoto em artigo publicado no UOL em 16/12/2021.

“Investigação da Repórter Brasil, realizada em parceria com a organização Mighty Earth, aponta relações entre a carne vendida por grandes varejistas nos Estados Unidos, Reino Unido e União Europeia com o desmatamento de florestas nativas no Brasil. Foram apurados exemplos de como, através dos chamados “fornecedores indiretos”, mesmo as carnes vendidas por abatedouros distantes das principais fronteiras agrícolas podem estar conectadas a crimes socioambientais não só na Amazônia, mas também no Pantanal e no Cerrado brasileiros.

Os fornecedores indiretos são as fazendas que não comercializam gado diretamente com os frigoríficos. Ao invés disso, criam animais apenas até uma certa idade, de onde eles são transferidos para outras propriedades rurais. Por questões logísticas e também de regularização ambiental, é comum que as pastagens associadas a crimes como o desmatamento ilegal, a invasão de terras indígenas e o trabalho escravo atuem principalmente nesse nicho de mercado. Devido às lacunas de rastreabilidade do rebanho bovino no Brasil, estes animais, através das fazendas intermediárias, podem chegar até mesmo em indústrias formalmente comprometidas em não adquirir gado associado a este tipo de crime.

Após a publicação da investigação, seis redes de supermercados europeias, incluindo duas de propriedade da empresa holandesa Ahold Delhaize, uma subsidiária do Carrefour, afirmaram, nesta quarta (15), que deixarão de vender ao menos uma parte dos derivados de carne bovina por conta dos links com o desmatamento, anunciou a agência Reuters.”

Como o leitor pôde perceber, a alimentação da dialética contra o Brasil nasce em nosso território e é difundida mundo afora. Paralelamente, multinacionais como o Carrefour francês, instalado em muitas de nossas cidades, fazem parte da campanha contra a produção nacional, ao mesmo tempo que enriquecem suas ‘gôndolas’ com produtos do nosso agro. A luta não é fácil.

Agora mais um ‘insight’: não estamos sozinhos nesta luta. Os países que importam nossos alimentos não o fazem por brincadeira ou caridade, mas, sim, por necessidade e, mais cedo ou mais tarde, se conscientizarão do fato e terão que se unir a nós na luta para que seus povos possam se alimentar.

*Consultor em Agronegócio

 

AGROemDIA

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