Recuperação de áreas já degradadas ajuda a conter desmatamento no Cerrado

Um dos principais biomas brasileiros, o Cerrado é celebrado em 11 de setembro. A data foi instituída em 2003 para lembrar a importância desse bioma que ocupa cerca de 25% do território nacional em uma área que ultrapassa os 2 milhões de km² e abriga no seu subsolo grandes reservas de água doce — que deu origem à citação de “berço das águas” – além de ser habitat natural para milhares de espécies de plantas e animais que correspondem a 30% da biodiversidade brasileira e 5% da biodiversidade global. O Cerrado abriga mais de 12 mil espécies de plantas, sendo 44% endêmicas, mais de 830 espécies de aves, 199 de mamíferos, 1.200 de peixes além de uma grande variedade de répteis e anfíbios.
Os números impressionam, mas o segundo maior bioma brasileiro – que fica atrás apenas da Amazônia – não tem muito o que comemorar neste domingo. O Cerrado vem reduzindo sua cobertura vegetal nativa progressivamente. De acordo com dados do Mapeamento Anual do Uso e Cobertura da Terra no Brasil (Mapbiomas), desde 1985, 21% da sua área foi transformada em pastagens e áreas agrícolas.
A perda de vegetação natural fragmenta as paisagens e faz com que os remanescentes percam gradualmente sua capacidade de prover benefícios ecossistêmicos. Hoje em dia, apenas 27% da área do bioma está em áreas contínuas, bem conservadas e pouco fragmentadas e 23% estão em situação crítica, com menos de 20% da vegetação natural.
A ausência de cobertura tem, entre outras consequências, a perda dos corredores biológicos, alteração na ocorrência de incêndios, desertificação e erosão do solo, além de impactos importantes na agenda climática mundial. Isso porque o Cerrado, com suas plantas de raízes profundas, tem uma enorme capacidade para absorver dióxido de carbono e manter significativos estoques de carbono na vegetação e no solo e, com isso, contribuir com a regulação do clima, minimizando os efeitos do aquecimento global.
Um estudo da Global Change Biology publicado recentemente mostra que o desmatamento no Cerrado fez com que a temperatura média em partes do bioma subisse até 3,5°C nos últimos 15 anos, além de deixar a região mais seca com uma queda de cerca de 27% na umidade média anual.
Soluções para os desafios
Apesar do cenário desafiador, ainda é possível conservar o Cerrado com ações como a restauração de ecossistemas, que ajudam a mitigar os danos causados com a perda da cobertura vegetal. Priorizar a melhor ocupação das terras já abertas também ajuda a diminuir a necessidade de novos desmatamentos. Neste sentido, a TNC Brasil tem trabalhado para conciliar a conservação do bioma sem prejuízo das atividades econômicas, pois é do Cerrado que vem boa parte da produção de grãos do país, em especial, da soja.
Os sistemas integrados de produção agropecuária – que extrapolam a ideia de modelos produtivos focados no binômio soja e boi ou milho e boi – bem como abordagens da agropecuária regenerativa são alternativas ao modelo que prevê exclusivamente a abertura de novas áreas de produção.
Na região do Vale do Araguaia, a TNC atua de diferentes formas no apoio a disseminação de práticas agrícolas regenerativas aliadas à conservação dos ecossistemas e proteção da biodiversidade, através do fomento a sistemas integrados de produção por pequenos e médios produtores na região do Médio Araguaia.
Um caminho que está dando bons resultados é a difusão de boas práticas agrícolas e pecuárias, como sistemas integrados, para incentivar a produção nos trechos que já estão abertos e, ao mesmo tempo, ajudar as famílias a restaurar a vegetação em áreas essenciais para rios e nascentes.
Dados do Guia de Conduta Ambiental, lançado pela TNC em 2021, já mostravam que o bioma possui 18,5 milhões de hectares de áreas já abertas aptas ao plantio de soja. Isso representa mais que o dobro da área total necessária para acomodar as projeções de expansão da área de soja até 2030, por exemplo.
A Bacia do Rio Araguaia, área de atuação da TNC, abriga um dos principais rios do país e engloba importantes pontos agrícolas nos estados de Mato Grosso, Goiás e Tocantins. A TNC e seus parceiros estão trabalhando com pecuaristas, agricultores e outras partes interessadas para criar um caso sólido para produção lucrativa sem desmatamento adicional.

