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Os caminhos do BRICS

Gil Reis*

É preciso esclarecer o que é e qual o objetivo. O BRICS é um grupo de países emergentes que se reúne para cooperar economicamente e desenvolver-se em conjunto. Os países membros são: Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul. O acrônimo ‘Bric’, alterado para ‘Brics’ com o ingresso da África do Sul, foi criado em 2001 pelo economista Jim O’Neill, do banco Goldman Sachs, em um estudo sobre as economias dos países que compõem o grupo. Como tudo na vida houve mudanças.

Em 1 de janeiro de 2024, Egito, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Etiópia e Irã aderiram ao bloco como membros plenos. O grupo não é um bloco econômico ou uma associação de comércio formal, como no caso da União Europeia. Diferentemente disso, os quatro países fundadores procuraram formar um ‘clube político’ ou uma ‘aliança’, e assim converter ‘seu crescente poder econômico em uma maior influência geopolítica’.

O site CHINA & US Focus publicou, em 30 de Outubro de 2024, o artigo “Para onde o BRICS está indo?” Assinado por Alicia Garcia Herrero, economista-chefe para a Ásia-Pacífico da NATIXIS e membro sênior da Bruegel, que transcrevo trechos.

“As Cúpulas do BRICS passaram por uma rápida evolução, de quase desaparecer durante a pandemia de COVID-19 para atrair atenção internacional significativa. Notavelmente, o número de países membros oficiais aumentou de cinco para nove desde o início de 2024, com a adição de Egito, Etiópia, Irã e Emirados Árabes Unidos, ao grupo original de Brasil, China, Índia, Rússia e África do Sul. Além disso, 13 nações adicionais se tornaram países parceiros, a saber, Argélia, Bielorrússia, Bolívia, Cuba, Indonésia, Cazaquistão, Malásia, Nigéria, Tailândia, Turquia, Uganda, Uzbequistão e Vietnã, com alguns tendo solicitado a adesão oficial, como a Turquia fez em setembro passado.

A mais recente cúpula do BRICS em Kazan, Rússia, realizada de 22 a 24 de outubro, foi particularmente reveladora das intenções finais do grupo em crescimento, especificamente, transformar a ordem global para melhor beneficiar o Sul Global, representado pelo BRICS. As queixas de Vladimir Putin apenas com o Ocidente mudaram claramente a retórica desta cúpula para mais longe dos interesses ocidentais. No entanto, Putin sozinho não poderia ter empurrado a agenda do BRICS para uma postura mais conflituosa sem o consentimento do presidente da China, Xi Jinping. De fato, a dependência de Putin da China cresceu consideravelmente para sustentar sua invasão contínua da Ucrânia. Além disso, o papel da China na condução da expansão do BRICS sugere um alinhamento estratégico que poderia remodelar o grupo como um componente complementar da Iniciativa do Cinturão e Rota, com a China posicionada como um ‘primus inter pares’.

O resultado da cúpula foi resumido na declaração de Kazan, que detalhou doze pontos que ressoaram como retórica antiocidental da Guerra Fria. A declaração faz uso dos mesmos conceitos apoiados pelas democracias liberais, da democracia à cooperação e ao respeito pelo direito internacional, incluindo a proliferação não nuclear. Isso contrasta marcadamente com as escolhas políticas de muitos dos regimes representados no BRICS, sem falar na agressão de Putin à Ucrânia e sua ameaça de usar armas nucleares. Além disso, a declaração critica o Ocidente por não defender seus próprios valores, ao mesmo tempo em que se apropria deles.

Outro ponto importante do documento é a alta posição atribuída às Nações Unidas, ou seja, sua centralidade para a cooperação de estados soberanos para alcançar a paz e a segurança internacional. Esse apoio, no entanto, não é de forma alguma um cheque em branco para a ONU, pois vem com um forte impulso para a reforma para melhor representar os interesses do Sul Global. Também discute o redesenho do sistema monetário internacional, incluindo a reforma de instituições multilaterais, como o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial, ao mesmo tempo em que apoia alternativas institucionais não ocidentais a esses órgãos, como o Novo Banco de Desenvolvimento.

Em relação ao impulso para a desdolarização, introduzido na cúpula do ano passado na África do Sul, a declaração de Kazan não foi tão longe quanto Putin provavelmente esperava, mas outras medidas foram tomadas. O ‘BRICS Clear’ – uma estrutura de liquidação e depósito transfronteiriço projetada para negociar títulos sem a necessidade de conversões em dólares usando tecnologia de cadeia de blocos e tokens digitais lastreados em moedas nacionais – ainda não foi acordado. Isso não é surpreendente, pois alguns dos membros do BRICS, a UEA em particular, ainda estão atrelados ao dólar americano, e muitos temem que o impulso seja para o uso do RMB como moeda dominante. Ainda assim, o impulso da Rússia e da China, os dois potenciais beneficiários da desdolarização para evitar sanções e/ou internacionalizar suas moedas, foi reconhecido na declaração com o acordo para realizar uma análise de viabilidade para o BRICS Clear.

Um Arranjo Contingente de Reservas (CRA) do BRICS também foi incluído na declaração com o objetivo de incluir moedas elegíveis alternativas, especificamente moedas do BRICS, nas linhas de swap existentes entre os países do BRICS. Deve-se notar que a maioria dessas linhas de swap foi estendida pelo Banco Popular da China (PBoC) e, portanto, tem o RMB como moeda veicular, em comparação com a moeda local de outros países. Isso evidencia ainda mais como o BRICS está aparentemente evoluindo para um modelo hub-and-spoke, com a China como o nó central. Finalmente, para apoiar o uso de moedas locais em transações financeiras entre os países do BRICS, conforme enfatizado repetidamente na declaração, será desenvolvido um novo Mecanismo de Cooperação Interbancária (MCI) do BRICS. Como esse mecanismo pode promover o uso de moedas locais sem implementar o BRICS Clear ainda precisa ser explorado.

No geral, a comunidade global, incluindo as nações ocidentais, deve prestar mais atenção à aliança BRICS. Além de seu tamanho crescente, o BRICS está evoluindo para um bloco cada vez mais antiocidental com uma clara intenção de remodelar a ordem global. A influência central da China dentro do grupo, apoiada pelo alinhamento de Putin, ressalta a urgência de o Ocidente não apenas observar esses desenvolvimentos, mas também responder de forma proativa, oferecendo alternativas mais atraentes aos países do Sul Global.”

A análise de Alicia Garcia Herrero nos dá a verdadeira dimensão da rebelião do resto do mundo que possui hoje 8 bilhões de habitantes contra o controle exercido pelo ocidente, com apenas 700 milhões de habitantes, sobre todos os povos extra ocidentais. Não me deterei em querelas políticas ou ideológicas, apenas tenho a observar que um grupo que tem menos de 10% da população global, auto intitulado de ‘ocidente’, vem exercendo há séculos o controle de todos os povos do planeta e considero que a reação dos demais países deveria ser esperada e não deveria causar estranheza.

“Não há nada confiável neste mundo a não ser a mudança” – Heráclito de Éfeso foi um filósofo pré-socrático considerado o “Pai da dialética”.

*Consultor em Agronegócio

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do AGROemDIA

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