As rosas não falam e carecem de proteção, assim como os demais vegetais

Gil Reis, consultor de Agronegócios – Foto: Arquivo pessoal

*Gil Reis

Eis que volta a ganhar força nos debates a questão dos defensivos agrícolas, que os extremistas denominam de agrotóxicos, pesticidas e outros apelidos para denegri-los. Surgiram dezenas de “palpiteiros” que não têm a mínima ideia do que estão falando e ainda não perceberam que estão sendo instrumento daqueles que pretendem reduzir a produção brasileira. Afinal, o mundo inteiro não chegaria ao atual nível de produção agrícola, com qualidade, caso os defensivos não fossem aplicados.

A revolução industrial introduziu novas formas de cultivo agrícola, de criação dos animais de produção e a industrialização dos produtos do agro. Isso alterou radicalmente a alimentação humana e o acesso aos alimentos de maior qualidade e quantidade, ensejando o salto evolutivo da humanidade no século XX, o que superou dezenas, centenas e até milhares de vezes toda a evolução ocorrida nos últimos 10 mil anos.

Mais especificamente, a revolução agrícola se deu a partir do aprimoramento e a introdução de novos defensivos, que vêm sendo aprimorados ao longo dos anos, no cultivo agrícola. Durante os 10 mil anos que antecederam os séculos XIX e XX, os agricultores, além de perderem suas safras pela inclemência climática, nos ciclos de aquecimento e resfriamento do planeta, também padeceram com doenças provocadas por pragas, fungos e bactérias.

O mais grave é que durante todo esse período não havia distribuição de alimentos como temos hoje. Todas as aldeias e cidades com lavouras mais próximas, atacadas por pragas, passavam fome e a maior parte dos habitantes simplesmente morria. Assim, morreram milhares de seres humanos ao longo da história em razão da destruição da agropecuária por pragas e doenças – o mundo ainda não dispunha de defensivos como os atuais.

Uma das linhas de argumentação dos inimigos do agro é que os defensivos são produtos químicos. Claro que são, assim como todos os medicamentos humanos que tomamos em casos de doença. Uma grande parte do que usamos no dia a dia são produtos químicos – shampoo, condicionador, anticaspa, alisante, sabonete, tinturas para cabelos, fórmulas para eliminar piolhos, creme dental etc. Boa parte dos defensivos utiliza a mesma base química de medicamentos humanos, em menor dosagem, naturalmente.

Todos precisam entender que os vegetais são organismos vivos como qualquer um de nós. A natureza pujante e pulsante produz organismos vivos de toda espécie. Alguns nos ajudam e outros adoecem a nós e as plantas. Assim como procuramos nos prevenir e tratar das doenças, temos que cuidar do que a natureza nos oferece como alimentos. Temos que cuidar da terra, das plantações e dos animais de produção.

Os adubos e as suplementações fazem parte dos cuidados que temos que ter com a terra, caso queiramos ter sucesso com as plantações. Os animais de produção, que também adoecem, precisam de cuidados constantes com medicamentos e vacinas.

O setor vegetal da cadeia de alimentação é o mais frágil. Os vegetais sofrem com as variações climáticas, precisam de chuva nas ocasiões certas, morrem no calor e secas intensas, assim como no frio intenso e com as geadas. Há uma gama imensa de bactérias, fungos e pragas que os destroem.

Cartola, o poeta maior da verde e rosa Estação Primeira de Mangueira, imortalizou, na voz da madrinha do samba Beth Carvalho, um verso que sempre soa bem aos nossos ouvidos: “As rosas não falam”. Os demais vegetais também não. Por isso, precisam de observação e cuidados constantes. Os vegetais não se queixam para as mamães, como nós na infância, dizendo que estão com dor de cabeça, febre, dor de garganta e ou de dente.

Os agricultores trabalham como se fossem as mamães de suas lavouras e usam os medicamentos preventivos – os defensivos. Depois das doenças instaladas, a cura é quase impossível. Os defensivos são os medicamentos do reino vegetal, servem para a prevenção de doenças específicas de cada tipo de lavoura. Os defensivos, à semelhança dos medicamentos humanos, possuem bulas que precisam ser seguidas. Os laboratórios que os produzem têm técnicos que orientam os agricultores como usá-los e os cuidados necessários na sua aplicação.

Os que combatem os defensivos tentam tratar os agricultores como “monstros” que colocam veneno nos pratos de cada um. A informação é de uma ignorância que ultrapassa qualquer limite. Os agricultores tratam as suas plantações com defensivos para que sobrevivam e se transformem em alimentos de qualidade, que chegam depois aos pratos de todos os consumidores livres de bactérias, abundantes na natureza e nocivas à saúde humana. Sem os defensivos, ninguém pode garantir que no seu prato não há bactérias nocivas.

Por isso, é importante que o Brasil evolua na regulamentação sobre o uso de defensivos. Com esse objetivo, tramita na Câmara Federal o Projeto de Lei 6299/2002, elaborado pelo Executivo, com a participação dos ministérios da Agricultura, do Meio Ambiente e da Saúde, da Anvisa e do Ibama. A proposta de decreto é considerada pelo governo como fundamental para o desenvolvimento da agricultura, porque atualiza o Novo Marco Legal dos Defensivos.

O decreto, segundo o governo, facilitará a exportação de produtos, a pesquisa de novos defensivos, criará um programa nacional de capacitação dos produtores para o uso de agroquímicos e diminuirá a burocracia dos rótulos. Além disso, implementará a análise de risco, retirando o princípio da precaução, e internalizará o conceito do acordo internacional de análise de risco para produtos químicos do GHS. Assim, o sistema de classificação dos produtos passará a ser equivalente ao da categoria mundial.

Espero que a Câmara aprove logo o projeto de atualização do Novo Marco Legal dos Defensivos, porque os vegetais precisam de proteção para que tenhamos alimentos cada vez mais saudáveis em nossas mesas e para que possamos, na hora da sesta, ouvir Beth Carvalho e Cartola – o Agenor de Oliveira da dona Zica – cantando “As Rosas não falam”.

*Consultor em Agronegócio

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