Acabou o crédito para exportação de manufaturados no Brasil?

Celso Ricardo//Consultor em agronegócio

Quando analisamos os fatores que influenciam no desenvolvimento de um país, podemos entender que são inúmeros não só os fatores, como também os cenários e atores que podem influenciar positivamente e/ou negativamente o crescimento, o desenvolvimento, o posicionamento e os resultados de um país quando comparado a um mundo globalizado.

Investimentos em planejamento, tecnologia, inovação, produtividade, produção, produto, redução de custos são apenas algumas das iniciativas que podem influenciar positivamente o desenvolvimento de um setor da economia de uma cidade, de um estado e/ou de um país.

Muitas pessoas poderiam destacar a falta de atitude por parte dos governantes quando o assunto está relacionado ao fomento das cadeias produtivas, mas eu vou um pouco mais além. Como fomentar uma cadeia produtiva sem antes desenvolver bem as questões ligadas à comercialização? Com quem vou comercializar? Como vou comercializar? Quanto vou comercializar? E a que preço vou comercializar?

Acompanho a definição de “plano de negócio” quando o assunto está relacionado ao agronegócio brasileiro há muitos anos. Mas sei que o Brasil é um país com grande potencialidade de desenvolvimento em todas as áreas. Mas como falei antes, acompanho o desenvolvimento econômico do país desde uma época que a maior atenção estava focada na capacidade produtiva e tão somente nela. Mas sempre fui crítico suficiente para entender que só posso investir em algo se tiver como comercializar esse “algo” de forma que o preço comercializado atenda às minhas necessidades, principalmente quando o assunto está relacionado ao lucro. Só posso expandir uma linha de produção ou melhorar um produto se tiver negócio específico que absorva essas mudanças em uma linha de produção e absorva um investimento necessário capaz de fazer as adaptações que vão garantir a satisfação dos consumidores, seja no mercado interno como também no externo.

O Brasil é conhecido internacionalmente como o país que exporta commodities. Não somos conhecidos como o país que exporta diversidade, valor agregado e produtos manufaturados. Nossa preocupação esta direcionada ao volume e tão somente isso. Mas até que ponto esse tipo de visão e foco pode comprometer o desenvolvimento e a lucratividade do país? Estamos falando de um tipo de comercialização onde a margem de lucro é baixa e, sendo assim, o risco com base no custo de produção alto faz com que qualquer tipo de negócio se torne perigoso. Por isso, devemos focar no desenvolvimento com base no fomento correto das cadeias produtivas, mas com olhos e entendimento de quais mercados queremos atingir.

O Estado deve ser um parceiro incentivador do empresário brasileiro”

Fomentar é uma palavra forte que significa incentivar. Mas, juntamente com a ideia de fomentar algo e/ou alguma coisa, temos a ideia de investimento. Investimento que vem acompanhado de confiança e fortalecimento de algo, alguém ou alguma coisa. Nesse caso específico do setor industrial e também, por que não, do agronegócio brasileiro. Nessa semana, fomos surpreendidos com a notícia trazida pela jornalista Lorenna Rodrigues, que revelou em sua coluna que o crédito para financiar a produção de produtos manufaturados a ser comercializado no mercado externo havia secado.

Como pode o Brasil, que se pronuncia como um país com foco no desenvolvimento e na produção, deixar de oferecer essa linha de crédito ao empresário brasileiro sem ao menos propor outro tipo de linha de acesso ao crédito? No Brasil, não existe um Programa Nacional de Fomento à exportação. Tenho levantado essa bandeira porque sei que esse tipo de operação sempre esteve guardado a sete chaves, ficando à mercê apenas das grandes empresas. O assunto exportação ainda causa um certo assombro em muitas empresas dos mais diferentes setores do país. Porém, se o Brasil não procurar focar no fortalecimento do setor industrial, tornando-o mais forte e competitivo, quando vamos avançar? Quando vamos nos tornar uma referência e uma potência mundial com reconhecimento junto aos mercados internacionais?

Por que exportar soja em grão e não exportar o óleo de soja ou o farelo de soja? Por que exportar o café em grão e não o café em sache? Essas perguntas somadas a outras tantas nos fazem refletir e entender que o mercado de exportação ainda é pouco explorado pelo Brasil. Precisamos evoluir mais, mudar atitudes e entendimento sobre o mercado de exportação que ainda tem muito a oferecer ao Brasil. Mas simplesmente deixar de fomentar e oferecer subsídios para que os empresários brasileiros possam se desenvolver e buscar uma maior lucratividade junto a todos os tipos possíveis de comercialização não vai fazer com que o Brasil melhore seus resultados financeiros e econômicos, muito pelo contrário. Uma coisa é falar em exportação pensando no Brasil, outra coisa é falar em exportação pensando na cadeia produtiva. Exportar commodities em grandes volumes é bom para o país, gera divisas, aumenta a arrecadação, dentre outras características favoráveis que esse tipo de negócio proporciona. Mas exportar produtos manufaturados, além de melhorar nossa arrecadação, fortalece a cadeia produtiva. Por isso, esse corte no crédito para a exportação de produtos manufaturados terá um impacto negativo muito forte para o país e para uma série de empresários que usavam essa linha de crédito para investir em suas linhas de produções.

Estamos fragilizados do ponto de vista econômico. E uma economia forte se faz com um setor primário e secundário fortes. Não podemos negligenciar nenhum tipo de ação ou atitude por parte daqueles que são responsáveis por fazer com que o país se desenvolva e cresça. O governo brasileiro, em especial o Ministério da Economia, precisa buscar entender como a “máquina econômica” funciona na prática. Não somente por títulos e/ou arrecadações, mas sim como esse ciclo produtivo está diretamente ligado aos mercados consumidores, principalmente os internacionais. E como podemos fazer com que a economia nacional possa apresentar boas perspectivas de crescimento a partir da oferta de subsídios pontuais que fortaleçam as cadeias produtivas e façam com que a economia local e nacional vivencie de fato um maior fluxo financeiro, tanto pelo lado de quem produz como também pelo lado de quem comercializa?

Não existe crescimento econômico sem investimento e o governo federal será sempre um componente importante e fundamental junto às cadeias. O Estado deve ser um parceiro incentivador do empresário brasileiro. E não será deixando de oferecer linhas de créditos importantes como essa para exportação de produtos manufaturados que vamos ver a nossa economia e os empresários brasileiros conseguindo sair desse verdadeiro buraco em que se encontram. Muda Brasil.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do AGROemDIA

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